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Carnaval em São João del-Rei . Antônio Emílio da Costa

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Antônio Emilio da Costa
Carnaval de São João del-Rei e região . Memórias, dados e imagens

São João del-Rei, a caráter, alegremente, abre alas para o Carnaval de antigamente


Um dos momentos mais aguardados da festa de Momo em São João del-Rei é o entardecer do domingo de Carnaval. Nele, no cenário setecentista do Largo do Rosário, sob o olhar distante da lua nova e vespertina, a alegria dá piruetas com a folia, voltam cem anos no tempo e trazem para a rua o Carnaval de Antigamente.

A banda, centenária, sopra em seus metais marchinhas da infância de nossas avós, e à frente dela, a pé, no colo, no ombro, em carrinhos de bebê, vão foliões de todas as idades. Todos com sorriso no rosto, encantamento nos olhos, felicidade no peito e aceno nas mãos. Namorados, amigos, casais, pais e filhos, vizinhos, desconhecidos, o bloco do eu sozinho...

Salpicadas aqui e acolá, fantasias sentenciam que é Carnaval: palhaços, pernas de pau, bailarinas, arlequins, colombinas, piratas, espanholas, mágicos, ciganinhas, toureiros, acrobatas, havaianas, borboletas, joaninhas ... Chovem confetes, relampeiam serpentinas. Cores se movem pelo ar. À frente de tudo, abrindo alas, vão estandartes alegres e um animado corso de jardineiras, calhambeques e furrecas, enfeitados como no tempo do Chico Brugudum.

Concentrado em frente à igreja da mais antiga irmandade negra de Minas Gerais, o cortejo dá meia-volta e segue em frente. Passa pela rua estreita, atravessa a Ponte dos arcos do Rosário e floresce na Rua da Prata. Depois, desabrocha nos canteiros da lira que é o jardim do Largo de São Francisco.

Nesta hora, as estrelas invejosas, debruçadas no céu, suspiram:

                             - Salve a Atitude Cultural!
                             - Viva o Carnaval de Antigamente!...

Trio Irakitan canta "Touradas em Madrid" (1959)

Fonte: Direto de São João del-Rei . Publicado na Gazeta de São João del-Rei em 01/03/2014
 
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Carnaval São João del-Rei 300 anos . São João del-Rei Momo . Quanto riso oh quanta alegria!...
Sempre que é tempo de Carnaval, São João del-Rei bem poderia mudar de nome. Chamar-se São João del Rei Momo, tamanha é a entrega que a cidade se faz à brincadeira, à folia, à fina ironia, ao saudável deboche, à crítica necessária a tudo o que é socialmente instituído, a todos os modelos e construções sociais que regulam a vida do homem moderno. Em muita coisa - e à muita coisa - São João del-Rei subverte, se subverte, se vira pelo avesso, para logo em seguida se reestruturar, se recompor, se reorganizar, resgatando então, ora reforçados e fortalecidos, ora renovados, seus valores tradicionais.

Mas o Carnaval de São João del-Rei não é só isso. Em meio à espontaneidade dos blocos e à esforçada estética das escolas de samba, que a todo custo buscam na linguagem carnavalesca uma didática que torne educativos os seus enredos, uma ideia se destaca. É a Atitude Cultural com o seu Carnaval de Antigamente. Pode parecer estranho uma entidade tão sedimentada denominar-se "atitude" e um bloco carnavalesco batizar-se de "carnaval", mas não é. O que a Atitude Cultural, por meio do Carnaval de Antigamente, promove é a conscientização de são-joanenses e turistas sobre a riqueza cultural de São João del-Rei: seu patrimônio histórico, seus valores culturais, seus artistas e protagonistas, principalmente ligados ao universo do samba e do Carnaval. Tudo a partir da alegria natural e espontânea, que em outros tempos era a pedra mais brilhante na coroa do Rei Momo.

Em 2013, por exemplo, o Carnaval de Antigamente tem como "enredo" os 300 anos de instituição da Vila de São João del-Rei e, à lembrança deste fato histórico, acrescenta publicamente uma saudação: São João del-Rei, eu te amo! Neste clima, renderá homenagens à mais antiga agremiação carnavalesca de São João del-Rei ainda em atividade - o octogenário bloco / escola de samba Bate Paus.
Certamente, todos os que amam São João del-Rei estarão, na tarde do domingo de Carnaval, no Largo do Rosário, para engrossar o cordão que, entre antigas marchinhas carnavalescas e retumbantes toques de clarins e trombetas, farão ecoar nas pedras da Serra do Lenheiro sua declaração de amor à cidade tricentenária. Inclusive a lua nova, que todo carnaval brilha vespertina como fina aliança de prata no céu de cetim azul claro para o qual apontam as torres brancas da igreja mais antiga de São João del-Rei. Em silêncio sideral, ela também dirá: São João del-Rei, eu te amo!
Postado em janeiro de 2013 . Carnaval São João del-Rei 300 anos . São João del-Rei Momo . Quanto riso oh quanta alegria!...

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São João del-Rei tem "Carnaval de Antigamente" . Antônio Emílio da Costa
Em São João del-Rei, o passado e o presente brincam carnaval de mãos dadas no bloco vespertino Carnaval de Antigamente Atitude Cultural. Ao som de velhas marchinhas, tocadas pela Banda Musical Theodoro de Faria, um corso de carros antigos - puxando bonecos gigantes do Mestre Quati, estandartes coloridos, malabaristas, alegres mascarados, pernas de pau, palhaços, arlequins, colombinas, crianças, jovens e maduros - percorre as principais ruas do centro histórico da cidade, até o sol se por.
É bonito de ver. Mais bonito ainda é deixar-se levar pela alegria contagiante e carnavalescamente lírica, que brota do calçamento de pedras, se debruça nos janelões coloniais, escorre dos telhados de beira-seveira, salta das torres das igrejas e vem se juntar a confetes e serpentinas, para encantamento de quem é da terra e também para quem nela vem festejar.
O reinado de Momo dura só três dias, mas a Atitude Cultural aproveita o Carnaval de Antigamente para vencer o tempo passado e trazer para o presente, lembrar, valorizar e homenagear personagens e agremiações que têm, ou tiveram, papel muito importante na história do carnaval são-joanense. Este ano, por exemplo, as homenagens vão para a Escola de Samba Bate Paus, uma das mais antigas de São João del-Rei, fundada em 1933. Sediada no bucólico Bairro Senhor dos Montes, para combinar com as flores e campos da Serra do Lenheiro, suas cores são o verde e o rosa. Por um bom tempo, o Bate-Paus teve características de rancho carnavalesco, desfilando ao som de marchas-rancho, mas depois modernizou-se, assumindo o formato de escola de samba.
Uma particularidade desta agremiação - exatamente a que lhe dá o nome e originalidade - é que, desde sua fundação, ela tem uma ala onde os participantes fazem uma correografia coletiva com um bastão, que batem em duplas e em roda, ora lembrando o movimento dos escravos africanos no cultivo agrícola, ora lembrando a dança negra do Maculelê. Segundo "velhos batepauenses" esta coreografia é mais antiga do que a própria agremiação, pois começou a ser dançada como brincadeira em 1901, tendo sido o interesse da comunidade por aquele "espetáculo" que inspirou a criação do rancho carnavalesco, hoje Grêmio Recreativo Escola de Samba Bate-Paus.
Carnaval é liberdade de agenda, mas o Carnaval de Antigamente você não pode perder. Por isso, reserve logo sua tarde do Domingo de Carnaval, 6 de março em 2011. Quem não quer um compromisso agradável com a alegria de todos os tempos?

Fonte: Blog Tencões e Terentenas

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Evoluindo, porém mantendo a tradição. Aos poucos, resgatando sua antiga fisionomia e também o prestígio de velhos tempos. Além de promover o entusiasmo e a alegria, difundindo também o compromisso e a responsabilidade. Assim caminha o carnaval 2011 de São João del-Rei. Este processo ganha cada vez mais visibilidade nacional e, em pouco mais de uma semana, foi destaque nos jornais Folha de São Paulo e Estado de Minas (links no final deste post).
Um ponto importante a se destacar no carnaval de São João del-Rei deste ano é que a folia servirá também como um instrumento de valorização do patrimônio cultural de nossa cidade. O bloco Carnaval de Antigamente, por exemplo, aproveitará o Reinado de Momo para divulgar o slogan Preservar é preciso, chamando carnavalescamente a atenção de todos para a riqueza cultural são-joanense e para a responsabilidade individual e coletiva na defesa, proteção e preservação do patrimônio material e imaterial de São João del-Rei.
É a cultura em festa, celebrando, enobrecendo e democratizando o acesso e a responsabilidade de todos na preservação da história, da memória e da cultura de São João del-Rei!

Fonte: Blog Tencões e Terentenas . fevereiro de 2011

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Carnaval, São João del-Rei. Bloco dos Caveiras é um Baú de Ossos: "Todos somos iguaes!"



Como é comum no carnaval de São João del-Rei, é na Segunda Feira das Almas que o Bloco dos Caveiras sai às ruas. Sombrio, escuro, lúgubre, funesto, segue lento e compassado na cadência de uma marcha fúnebre, que uma banda de metais tortos toca desafinada. Tal qual a vida no seu indesejado compasso final. Apesar de ser o carnaval festa da carne, no Bloco dos Caveiras não há alegria.
Risadas estridentes, sofridas e histéricas ecoam nos alto-falantes roucos. Ninguém canta, não tem confete nem serpentina. Só defuntos, esqueletos,  caveiras desdentadas, túnicas pretas, capuzes, caixões, assombrações, almas do outro mundo, mulas sem cabeça, demônios, decapitados, enforcados, esfaqueados, ensaguentados, eviscerados,  urubus, diabos, sacis, bruxas, abutres,  tumbas e altos estandartes que, com inscrições barrocomedievais, entre enfumaçamentos, proclamam:
         * A riqueza dos túmulos e a pompa dos funerais não melhoram em nada as condições dos mortos. Só satisfazem a vaidade dos vivos!
         * Do pó viestes, ao pó retornarás!
         * Já fui o que tu és, tu serás o que eu sou!
         * Todos somos iguaes"
 
Em meio ao caos carnavalesco, o Bloco dos Caveiras atravessadamente deixa uma mensagem religiosa: a vida é breve - te cuida, vive-a plenamente! Acumula amigos, cultiva-os! Viva o dia de hoje, aprende: onde está teu tesouro, está também teu coração!
Neste enigmático discurso de igualdade, o que o Bloco dos Caveiras ensina aos são-joanenses pode ser simplificado no que assim nos disse o escritor Pedro Nava, na clássica obra Baú de Ossos:
"Conhecidos ou não, adversários, correligionários, amigos, inimigos,
intimos ou sem costumes uns com os outros, somos queijo do mesmo leite.
Milho da mesma espiga. Fubá da mesma saca.
Nascemos nas mesmas casas. Tivemos os mesmos retratos e as mesmas folhinhas
de Mariana nas paredes. As mesmas despensas cheirando ao porco no sal
e à banha, ardida na lata. 
As mesmas cozinhas escuras onde a lenha verde chia, a seca estala
e o fumo enegrece paredes, barrotes, e o picumã, que o sangue estanca."

Fonte: Blog Tencões e Terentenas

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Sabe qual foi a grande contribuição de São João del-Rei para o Carnaval? A madrinha de bateria!



O carnaval de São João del-Rei, desde os idos 1930 até os dias atuais, teve muitas épocas de ouro. Ouro, aliás, foi o que incendiou a cobiça e iluminou os rumos dos bandeirantes até o vale da Serra do Lenheiro, para fundar o arraial que há exatos 300 anos foi transformado em vila e, pouco mais de 100 anos depois, em cidade.
Mas deixando os bandeirantes de lado, voltemos ao reino de Momo. Você sabe qual foi a grande contribuição mundial de São João del-Rei para o Carnaval de todos os tempos? A criação da madrinha de bateria. Isto mesmo, a criação desta "entidade" que encanta a todos, à frente dos ritmistas, se deu aqui, mais precisamente no carnaval de 1968, ou seja há 45 anos.
Segundo o grande carnavalesco são-joanense e respeitável homem da Cultura Jota Dangelo, até aquele ano nenhuma agremiação carnavalesca ou escola de samba, sequer do Rio de Janeiro, tinha em sua composição algo que se assemelhasse à madrinha de bateria. Ela foi criada por acaso, quando o casal Rômulo Magalhães e Ligia Vellasco, dirigentes da iniciante Escola de Samba Falem de Mim, sabiamente perceberam a falta de um personagem belo e mágico à frente da bateria. Alguém que encantasse:o público, nos momentos finais do desfile, e os ritmistas, na dura missão de bater, repicar, chacoalhar, reco-recar, enfim serem a locomotiva sonora da escola de samba.
A solução estrategicamente encontrada para irradiar encantamento veio  com a idéia de colocar à frente da bateria uma musa bela, graciosa e sedutora, em trajes que mostrassem sem pudor o movimento frenético de seu corpo escultural possuído pelo samba. Esta missão entregaram à filha, Moema Magalhães (foto). Assim, coube a ela o pioneirismo, a vanguarda e a honra de ser a primeira madrinha de bateria do Brasil.
Com esta inovação e ousadia, a Escola de Samba Falem de Mim fez jus ao seu enredo de 1968: O maior espetáculo da terra. E apresentou  pela primeira vez a "entidade" do mundo do samba que até então não existia e somente alguns anos depois passou a desfilar nas escolas de samba cariocas.
Veja, neste vídeo, uma homenagem do Carnaval de Antigamente/Atitude Cultural à primeira e mãe de todas as madrinhas de bateria do Brasil, Moema de Almeida Magalhães.
Carnaval de antigamente 2011 . entrevista com Moema Magalhães

Fonte: DANGELO, Jota. Subsídios para a história do carnaval de São João del-Rei, de 1950 a 2000. Segunda edição. Editora Ateneu. São Paulo, 2003.
Foto: Banco de imagens São João del-Rei Transparente (http://saojoaodelreitransparente.com.br/galleries/view/265)

Fonte: Tencões e Terentenas

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Carnaval de São João del-Rei foi proibido. Era 1720


Não é de hoje que a alegria e o entusiasmo, em determinadas ocasiões, tomam conta das ruas e do povo de São João del-Rei. Desde os primeiros tempos do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, sua população, principalmente os negros, via em tudo oportunidade para festejar a vida e cair na gandaia e na folia, com rodas de batuques, cateretês e folguedos.
Como eram espontâneas, autônomas e independentes, estas aglomerações incomodavam o poder público: afinal a alegria tem muita força; ninguém sabe do que uma pessoa feliz é capaz, se for exposta a um regime restritivo e opressor.
Por isso, no dia 13 de janeiro de 1720, cumprindo o que determinou o Conde de Assumar, o Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei publicou edital proibindo que os negros se juntassem para fazer bailes e folguedos.
A ordem era tão severa que novo edital foi publicado quatro dias depois, no dia 17, reforçando a determinação. Temia-se as ameaça de danos, insubordinações e  revoltas que a união e a alegria coletiva do povo  poderiam provocar. Este segundo edital determinava, inclusive, os tipos de vestimentas que os escravos, cotidianamente, não poderiam usar.

Fonte: Tencões e Terentenas

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Carnaval de São João del-Rei tem saudades do imortal Rancho Carnavalesco Custa Mas Vae
 
Quem é de São João del-Rei, tem mais de cinquenta anos e passou a infância na cidade  certamente não se esquece: quando nas noites de carnaval clarins tocavam na Ponte da Cadeia anunciando que o Rancho Carnavalesco Custa Mas Vae já estava cruzando os Quatro Cantos, uma emoção forte inquietava a todos, disparava o coração. Aos poucos, a multidão ia se recompondo, voltando a si, recuperando o fôlego para ver passar, dolente, acetinada, verde e rosa uma das mais antigas agremiações carnavalescas da cidade, criada nos anos vinte do século passado.
Um rancho moreno, perfumado, extraordinariamente singelo, com suas crianças inocentes, ingenuamente sensuais pastoras, homens e rapazes pontuando com firmeza o movimento do rancho. Ciganas, fadas, aladins, sultões, baianas, mandraques, piratas - todos deslizando sublimes ao som de uma marcha rancho de composição sofisticada e letra erudita, que colocava um dos mais antigos ranchos carnavalescos são-joanenses acima das constelações celestes e dos maiores e mais importantes heróis da mitologia grega.
Depois de desfilar por quase (ou mais de) cinquenta anos, o Rancho Carnavalesco Custa Mas Vae há um bom tempo é apenas memória; lembrança e saudade dos velhos carnavais de São João del-Rei. Em seu livro, modestamente denominado Subsídios para a história do carnaval de São João del-Rei, o grande Jota Dangelo transcreve um folhetim de 1928 e descreve como foi o desfile do "Custa" naquele ano:
"Cavalgando garbosos ginetes, III [três] cavalleiros, empunhando clarins, cornetas e trombetas abrem, por entre a multidão, passagem para o Custa Mas Vae.  Em seguida, vêm o presidente e seu secretário, montados em dois lindos corcéis. Segue-se a porta-estandarte e seu  defensor, com trejeitos coreugráphicos [coreográficos], demonstrando sua perícia em tal arte.... surgem então as senhorinhas e os rapazes representando diversas constellações, estrellas, enfim, todos os astros que, embebidos, olhamos à noite". No final vinha a 'carruagem'  Dentro da Noite, nome do enredo idealizado e confeccionado por Lord Redondo."
Ainda falando sobre o Custa Mas Vae, Jota Dângelo conta que no carnaval de 1929 o rancho desfilou com o enredo  A Fada dos Bosques, e que o folhetim distribuído antes do desfile chamava a atenção para as marchas Nego no Samba e Marcha do Custa Mas Vae. Esta última, belíssima letra de J. Colombiano, vulgo Collombo, e composição, segundo o maestro Marcelo Ramos, de Pancrácio Loureiro, ficou conhecida como o Hino do Custa Mas Vae. Sua letra diz:

"Como estrela a cintilar, a luzir lá no céu, sempre azul,
tal é o Custa Mas Vae, rivalizando com o Cruzeiro do Sul.
Febo morre de ciúmes de ti porque brilhas no Carnaval.
Vênus te rende homenagens, és o Rancho Escola, és o Rancho Ideal .
És forte como Hércules. Teu passado é de gloria.
Tens um porvir glorioso, viva a folia, viva a vitória!
És bravo com denodo, e todos de ti bem dizem.
Do Carnaval és a nata, brava gente heróica e juvenil.
Qual farol que ilumina o caminho, tu és vencedor.
Sempre, sempre altaneiro, brilhas muito e com grande esplendor.
Do civismo és a alta expressão, tu jamais serás abatido.
Timoneiro valoroso, és o Rancho Escola, o Rancho ideal."

A marcha Hino do Custa Mas Vae foi gravada recentemente no CD Marchas Mineiras para Bandas pela Companhia dos Inconfidentes, sob regência do maestro Marcelo Ramos. Saiba mais sobre o CD e como adquirí-lo
 

Fonte: Tencões e Terentenas

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Na barroca São João del-Rei, fevereiro é balança de dois pratos: alegria e arrependimento

 
Em São João del-Rei, fevereiro é um mês que, como nenhum outro, coloca lado a lado o sagrado e o profano, a farra e a penitência. Tão maior o delírio, quão maior o arrependimento. Se não houver um, como  justificar o outro?
Logo que o mês começa, no dia 5, desde a metade do século XVIII a cidade festeja as virtudes de São Gonçalo Garcia. Em sua homenagem, a  Confraria que honra o santo realiza novena barroca, com músicas próprias, compostas pelo Padre José Maria Xavier e executadas pela Orquestra Lira Sanjoanense  - a mais antiga das Américas, em atividade ininterrupta desde sua fundação. Deste repertório sacro fazem parte Veni Sancte Spíritus, Dómine ad adjuvandum, Invícte Martyr e Justus ut Palma florébit. Encerrando a festa religiosa, solene missa cantada, procissão e Te Deum laudamus.
Da festa religiosa para a festa profana, a distância não é maior do que alguns dias.Um pulo e a música barroca dá lugar a sambas, batuques e marchinhas. Em vez de sinos, tambores e tamborins, cornetas, reco-reco e chocalhos. No lugar das flores naturais, flores de plástico e papeis, confetes e serpentinas. Não há cortejos sérios e disciplinados , mas blocos, alas e alegorias. Nada de andores, agora é a vez dos carros alegóricos. Chegou o Carnaval e quem manda é o Rei Momo, com sua  leviana corte de delírio e alegria.
Em São João del-Rei, há dois momentos em que sagrado e profano, próximos, ocupam o mesmo  espaço de tempo. Na terça-feira gorda, enquanto os blocos do dia quebram as esquinas e entortam ladeiras, na Matriz do Pilar fiéis se devotam em piedosa Hora Santa e adorações ao Santíssimo Sacramento. Às nove da noite, quando escolas de samba requebram e repicam meio a casarões dos largos coloniais, das torres imponentes da matriz da majestosa padroeira, o sino da Irmandade do Santíssimo Sacramento, barrocamente profético, lança sobre tudo o sonoro Toque de Cinzas.
Quando a noite vai embora  e o sol chega,  afastando as sombras e iluminando o dia, o tempo muda. O céu fica mais distante, uma névoa discreta ronda a Serra do Lenheiro, espinheiros e quaresmeiras se destacam brancos e roxas nas montanhas, encostas e jardins. Os sinos tocam de tempos em tempos, anunciando que já é quarta-feira de cinzas.
À noite, os são-joanenses vão à missa e via sacra da Boa Morte na Matriz do Pilar. Lá, contritos, oferecem a testa ao padre que faz nela uma cruz de cinzas clamando: "convertei-vos ao Evangelho de Jesus Cristo!"
 
Como se despedem as pessoas nos últimos momentos da balbúrdia, Carnaval agora só no ano que vem...

Fonte: Tencões e Terentenas

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Urubu Malandro e Sabiá Moleque, de alegria, caíram na folia em São João del-Rei
 
Há pouco mais de 115  anos, no último dia de janeiro de 1897, partiu de São João del-Rei o 16° Batalhão de Infantaria. Vindo de Pelotas e passagem na cidade desde junho de 1896, seguia para combater Antônio Conselheiro, na Guerra de Canudos.
Mas não foi o modo de falar, os costumes desconhecidos nem o toque marcial da partida o fato o que marcou a passagem dos soldados gaúchos  por São João del-Rei. O que mais causou estranheza aos são-joanenses foi a inusitada apresentação daqueles militares, que formaram um "Bando de Reis", muito diferente das folias de Reis a que estavam acostumados. No dia 6 de janeiro, vestidos "a caráter" de Reis Magos, acompanhados de algumas mulheres, os sulistas percorrerem diversas ruas do centro da cidade, cantando em coro toadas e loas desconhecidas. Seus movimentos de danças curiosas, próprias de sua distante região, pareciam um espetáculo itinerante, que agradou e foi bastante aplaudido pelo povo que morava à sombra da Serra do Lenheiro.
As Folias de Reis que os são-joanenses conheciam, à época conhecidas como Bandos de Reis, tinham como figura central o Bastião - único personagem que, vestido de cores berrantes e estranhamente mascarado, dançava passos típicos de "urubu malandro e de sabiá moleque". O ritmo era ditado por cantores, um violeiro, um caixeiro, um tocador de pandeiro, um sanfoneiro e um rabequista. O solo pertencia ao Bastião e o coro era formado por cinco ou seis "goelas", responsáveis pelos mais altos, distorcidos e estridentes agudos.
O jornal Astro de Minas, que circulou em São João del-Rei no dia 9 de fevereiro de 1883, portanto há exatos 130 anos, trouxe, em uma crônica retrospectiva, o retrato conciso e preciso de uma Folia de Reis são-joanense, tal qual acontecera em 1860.
Dizia o seguinte: "Nos Bandos de Reis vinham os três reis magos fantasiados e a cavalo, trajando roçagante manto, empunhando áureo cetro e tendo a cabeça cingida de resplandecente diadema, sobressaindo-se entre eles o rei Congo."
Quer saber qual é o ritmo do Urubu Malandro? Então ouça o choro abaixo (Adenilde Fonseca, Jacob do Bandolim e Waldyr Azevedo).  Uns, dizem que é de Braguinha e Loro. Outros, fue é trecho de uma cantiga folclórica gravada pela primeira vez em 1914. Portanto, há 99 anos!
Sem mais conversa, já que é quase Carnaval, pelo sim e pelo não, vai Urubu Malandro...

Fonte: Tencões e Terentenas

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