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Antônio Gaio Sobrinho

Descrição


Foto: Carol Argamim Gouvêa

São-joanense de coração, nasceu em Conceição da Barra de Minas, em 28 de novembro de 1936, filho de Pedro Gaio e Maria Christina Fonseca. Licenciado em filosofia pela Faculdade Dom Bosco, lecionou história nessa mesma faculdade e na Universidade Federal de São João del-Rei. Gaio é homenageado na Semana Santa Cultural 2012, um  reconhecimento da comunidade por suas pesquisas e trabalhos durante todos esses anos.

Autor dos seguintes livros:
Memórias de Conceição da Barra de Minas
No Jardim da Ilusão
Sanjoanidades
Santos Negros e Estrangeiros
História do Comércio em São João del-Rei
História da Educação em São João del-Rei
Visita à Colonial Cidade de São João del-Rei
Conceição da Barra Minha Terra Natal
São João del-Rei 300 anos de Histórias
Retratos de uma Cidade
São João del-Rei Através de Documentos
120 Anos São-Joanense Pirapora Têxtil
Fontes Históricas de São João del-Rei

Veja alguns dos artigos de Antônio Gaio Sobrinho:

Padres Rixentos - 2 . Antônio Gaio Sobrinho
Hotel Brazil CLO 1898.1914 . Antônio Gaio Sobrinho
Semana Santa 09: Irmandades, garantia de manutenção das tradições . Antônio Gaio Sobrinho
A Rua da Zona . Antônio Gaio Sobrinho
Tapetes de Rua . Antônio Gaio Sobrinho
Cruzes e Cruzeiros de São João del-Rei . Antônio Gaio Sobrinho
Notas sobre o Bairro Senhor do Monte . Antônio Gaio Sobrinho
Notas sobre o Bairro do Tijuco . Antônio Gaio Sobrinho
Notas sobre o Bairro do Bonfim . Antônio Gaio Sobrinho
Notas sobre o Bairro das Fábricas . Antônio Gaio Sobrinho
São João dos Queijos . Antônio Gaio Sobrinho
Missa inculturada . Antônio Gaio Sobrinho
São João dei-Rei através de documentos . Antônio Gaio Sobrinho
Emoções e sentimentos . Antonio Gaio Sobrinho
Via-sacra e Passinhos: 1ª parte . Antôno Gaio Sobrinho

Imagens:
Homenageado na Semana Santa Cultural 2012
Antônio Gaio Sobrinho . Historiador e escritor Foto: Carol Argamim Gouvêa
Dia de Reflexão, saúde e lazer . Palestra com o professor Antônio Gaio Sobrinho . 1999 Arquivo ASAP

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Especial 300 anos: Lembranças de meus filhos
Por Gazeta de São João del-Rei em 06/09/2013 . Série Especial 300 anos Gazeta de SJDR

Antônio Gaio Sobrinho é professor e integrante do Instituto Histórico e Geográfico (IHG) de São João del-Rei

Casarão do André Bello antigamente - Foto: Divulgação
Casarão do André Bello antigamente - Foto: Divulgação

Casarão do André Bello atualmente - Foto: Gazeta
Casarão do André Bello atualmente - Foto: Gazeta

Uma localidade – povoação, arraial, vila ou cidade – é sempre o resultado de uma ininterrupta interação entre ela e seus habitantes. Mais ou menos como uma relação recíproca entre mãe e filhos. Se a mãe é quem gera os filhos, são os filhos que embelezam a mãe. São João del-Rei, em seus “trezentos e mais anos” de existência, tem sido uma contínua construção dos filhos que ela protege. Por isso, nesta página, qual mãe carinhosa, a cidade lembra, com agradecida saudade, seus filhos e filhas, que já se foram desta vida, mas aqui deixaram os benfazejos sinais de sua passagem. Representando todos eles e elas, escolhi seis nomes que, a meu ver, muitas coisas boas e úteis fizeram por esta terra. São eles:

José Alvares de Oliveira
Foi ele quem, em 1750 ou 51, escreveu a primeira história de São João del-Rei, num primoroso relato, em grande estilo, intitulado História do Distrito do Rio das Mortes. Esse notável documento, de suma importância para o conhecimento dos primeiros 50 anos da vida de nossa terra, está para São João como a carta de Pero Vaz Caminha está para o Brasil. Álvares de Oliveira tomou parte ativa na Guerra dos Emboabas – ao lado destes – e, quando, em 8 de dezembro de 1713 o Arraial foi elevado à condição de Vila, integrou, como procurador, a oficialidade da primeira Câmara. Daquelas suas memórias históricas, destaco o trecho em que diz que a Vila é cortejada de um ribeiro; que pelo meio dela, por debaixo de duas pontes correndo, busca os pés de toda a sua vizinhança, querendo mostrar pelas correntes que arrasta o quanto afeta ser seu escravo, a quem liberal oferece nas areias que leva o ouro que consigo traz. Por todas essas circunstâncias se faz a Vila de São João del-Rei do agrado de todos e de todos mais apetecida para ser habitada pelo excelente clima de que goza a que não fazem inveja os celebrados de Cápua na Itália nem os de Tessália na Grécia.

Mãe Preta
Não foram Queops, Quefrem nem Miquerinos que, principalmente, construíram as pirâmides do Egito. Também não foram Lima Cerqueira, Irmandades ou padres, que, somente, edificaram as nossas estupendas igrejas. Tanto lá quanto cá, milhares de escravos é que lapidaram com suor e sangue aqueles e estes enormes blocos de granito que fazem hoje o maravilhamento dos turistas. Na lembrança, aqui, dessas negras pelejas, na ausência de um nome que a história não guardou, rememoro um símbolo de sofrimento e bondade que, com seu leite, roubado de suas mesmas crias, nutriu de vida aquela menina linda que se tornou hoje a cidade de São João del-Rei. Esse símbolo, que me fala de carinho, impregnou a sociedade são-joanense dessa beleza mulata, desse sorriso negro, cujos encantos nos fazem sonhar. Por tudo isso: obrigado, minha Mãe Preta!

José Maria Xavier
Se o Paraíso de fato existira, pouco ali me interessariam Mozart, Beethoven ou Verdi se lá teria para deleitar-me por toda a eternidade a maravilhosa música desse genial mulato da minha terra e raça. Em suas melodias, a emoção me invadiria a alma quando, novamente, escutasse coisas como: Vinea Mea, Velum Templi, Sepulto Domino ou Exaltata est Maria in Caelum. De que mais precisaria para experimentar, mesmo nesta terra, a bem-aventurança eterna? Só me resta, pois, tomar emprestadas as sábias palavras do latinista professor Antônio Rodrigues de Mello para, dignamente, louvar a sua memória: “Laudemus et plaudamus hunc virum sapientem, dignum justissimae reverentiae et imitationis, et vos, honestissimae puellae quae me audistis, juvenes qui hanc patriam diligitis, seniores populi, date mihi, manibus plenis, pulchras et olentes flores, ut spargam ad dignam statuam tanti viri, immaculati sacerdotis qui, peritissimus arte musicae, fulgens gloria terrae natalis, patriam honoravit et magnificavit”.

Alexina de Magalhães Pinto
Como devera ter sido belo ver pedalando, pioneira, nestas ruas são-joanenses, em sua bicicleta europeia, essa distinta e talentosa moça, de vasta cultura e superioridade de espírito, conquanto tão simples e modesta. Brilhante professora de caligrafia e desenho da nossa Escola Normal, em 1893, Alexina foi pioneira também como escritora folclorista. Esse seu elevado posto no magistério mineiro e são-joanense foi obtido por brilhante concurso e, nessa cadeira, fez de seus deveres um autêntico sacerdócio. Procurando colaborar com o ex-diretor Carlos Sânzio para o melhoramento do ensino e elevação daquela Escola, não lhe faltaram decepções e desgostos, que começaram a magoá-la profundamente e terminaram, talvez, por lhe ditar a lamentável resolução que tomou, ao pedir exoneração do emprego. Assim, depois de apenas três breves anos aqui residindo, partiu a feminista Alexina para o Rio de Janeiro, deixando grande lacuna nesta cidade que, porém, não lhe esqueceu a memória que perenizou numa de suas ruas. Para você Alexina, a nossa gratidão.

Luiz Zver
Querido mestre, que saudades de você, de seus ensaios de canto na regência do Anambé, de suas aulas de Filosofia e Latim, na nossa saudosa Faculdade Dom Bosco! Apesar de estrangeiro, você falava a língua portuguesa com tanta excelência de matéria e forma que poucos brasileiros conseguiriam competir. Mas, para São João del-Rei, além de ter sido o grande construtor da Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, você, com seu carisma e predestinação foi, principalmente, o benemérito fundador da APAE, que tanto bem tem feito às crianças mais necessitadas. Pressinto sua indignação, sua mágoa e seu desencanto se vivo ainda estivera nesta hora malvada em que a insensibilidade política pretende acabar com a sua herança. Que ternura você nos repassava nas missas dominicais na Capela de Nossa Senhora Aparecida, quando ao falar do Divino Mestre – “Deixai vir a Mim as criancinhas!” – seus olhos rasavam em lágrimas e a emoção lhe embargava a voz.

Idalina Horta Galvão
Primeira diretora do Grupo Maria Teresa, na velha casa que vira a Princesinha do Brasil passear suas louras madeixas, tu eras a boa mãe dos meninos e meninas que as famílias são-joanenses te entregavam confiantes, porque na tua aula eles e elas tinham castigo de menos e aprendizagem de mais. Tomo de Agostinho Azevedo esse testemunho que me encanta e que diz da grande mestre que tu foste: “Foi assim que Dona Idalina envelheceu, tomando conta dos calças-curtas vadios e barulhentos. Já agora ela ensinava aos filhos dos seus alunos. E os pais, que tinham experiência de como era boa Dona Idalina, corriam a pedir-lhe: “Por favor, Dona Idalina. A senhora aperta com ele. E quando for preciso algum caderno, a senhora mande um bilhete, porque senão o pirata começa a inventar necessidade de material para poder ir ao Pavilhão”. E Dona Idalina prometia. Mas na quinta-feira, véspera de fita de série, mandava um bilhete ao pai, recomendando seis cadernos de tostão para o guri. E o senhor André Bello teve sempre, nas sessões do Pavilhão, na primeira fila, os alunos de Dona Idalina Horta.

Outros nomes
Leitor e leitora, se vocês se decepcionaram comigo por não encontrar nesta crônica os nomes de Tiradentes, Tancredo e Nhá Chica, peço-lhes desculpas. Deixei de mencioná-los não porque não merecessem, mas porque eles já são uma unanimidade, uma espécie de lugar-comum. Eles estão escritos e falados aí por toda a parte, à vista e à audição de quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir. Da mesma forma, além dos que preferi citados, muitos outros haveria, igualmente, dignos de terem sido objeto dessas lembranças: Felisberto Caldeira Brant, Joaquim José da Natividade, Aniceto de Sousa Lopes, Batista Caetano de Almeida, Policena Tertuliana de Oliveira Machado, Antônio José da Costa Machado, Maria Teresa Batista Machado, Paulo de Almeida Lustosa, Severiano Nunes Cardoso de Resende, Sebastião Rodrigues Sette Câmara, Euclides Garcia de Lima, Antônio de Andrade Reis, Maria do Carmo Assis, Celina Viegas, Fábio Nelson Guimarães, Mercês Bini Couto, Maria de Lourdes Lourenço de Oliveira, Valderez Dias Beltrão, e quem mais vocês aqui quisessem acrescentar como merecedor.

Como, porém, no espaço que me deram para este artigo não os caberiam todos, nem eu seria capaz de deles e delas todos e todas me lembrar, tive que fazer a minha escolha. Fiz-la de tal modo que nenhum dos três séculos da história são-joanense ficasse esquecido, sem representante. E que nenhum dos gêneros ou condição social se omitisse, despreocupado até de que não fossem aqui nascidos. Ficaria contente se minhas opções não magoassem ninguém e que, pelo contrário, que a todos pudessem agradar.



Gaio Sobrinho por Jota Dangelo
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