São João del Rei Transparente

Publicações

Aleijadinho

Descrição

Palestra "O Aleijadinho - Arte e Arquitetura"
1º Encontro Mineiro do Patrimônio Cultural . Bicentenário da morte de Antônio Francisco Lisboa "Aleijadinho"
37ª Semana do Aleijadinho . 01 a 30/11
1º Colóquio do Campus Cultural UFMG em Tiradentes "Aleijadinho - o artista e sua época" . 26 a 28/11
37ª Semana do Aleijadinho . Programação

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,obras-de-aleijadinho-podem-ser-vistas-em-3d-pela-internet,1594419
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Aleijadinho 3D

O projeto “Ajeijadinho 3D” é uma iniciativa apoiada pela Universidade de São Paulo (Museu de Ciências e Pró-reitoria de Cultura e Extensão) que envolve a digitalização 3D das obras do escultor Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho. O projeto fez uso de técnicas avançadas de aquisição e tratamento de malhas 3D para difusão cultural e auxílio à preservação das obras.

As aquisições 3D objeto do projeto foram realizadas ao longo de uma semana, no final do mês de julho de 2013 nas cidades de Ouro Preto, MG e Congonhas, MG. A digitalização foi feita com um equipamento especial fornecido pela empresa Leica Geosystems, o qual permitiu que as obras fossem digitalizadas a distâncias entre 10 e 30 metros, definindo um procedimento não invasivo, e com logística simplificada, sem a necessidade de preparação nem de isolamento dos sítios das obras. Em Ouro Preto, foram digitalizadas as igrejas de Francisco de Assis, Nossa Senhora do Carmo, e Nossa Senhora das Mercês; em Congonhas, foi digitalizado todo o Santuário do Bom Jesus dos Matosinhos e seus 12 profetas. Uma vez digitalizadas, as obras passaram por um longo processo de preparação que exigiu o tratamento minucioso das malhas realizado pelos especialistas da Universidade de São Paulo em parceria com a empresa Imprimate.

Este projeto foi financiado pela Pró-reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo ao custo de apenas R$ 13.000,00, uma parte deste valor (R$ 4.800,00) em bolsas para o treinamento técnico de cinco alunos de graduação. O objetivo principal é a disseminação cultural combinada com o conhecimento estudado e produzido dentro da universidade; espera-se que esta realização inspire muitos outros projetos de natureza semelhante.

Fonte: Aleijadinho 3D


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Nas pistas do barroco
Aleijadinho deixou marcas nas ruas, nas igrejas e no imaginário dos católicos
Vivi Fernandes de Lima . 18/01/11



Um risco na madeira pode passar despercebido para muitos desavisados. Mas quando ele inscreve as letras “AFL” na peça de um altar mineiro, causa surpresa. Foi assim que restauradores que trabalhavam na Matriz de Nossa Senhora do Pilar, em Nova Lima, reagiram quando se depararam com uma novidade que estava escondida desde o século XVIII: as iniciais de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, no fundo da parte interna do sacrário de um retábulo (altar lateral). A coordenadora do projeto de restauração realizado pela Escola de Belas Artes da UFMG, Bethania Veloso, explica o motivo da surpresa: “Eu nunca soube de inscrições desse tipo na obra de Aleijadinho”.

A descoberta é mais um elemento que aguça a curiosidade de quem contempla a obra, mas, infelizmente, não poderá ser observada pelos visitantes. “É uma inscrição feita na parte interna de um trabalho de Aleijadinho, ou seja, não foi feita para ser vista pelo público”, afirma Bethania. A recuperação, finalizada na última semana de novembro, inclui três retábulos de oito metros de altura e o altar-mor, com 15 metros. Trata-se de um dos maiores conjuntos de esculturas em madeira de Aleijadinho, o mestre do barroco brasileiro. Enquanto visitam a igreja, fiéis contemplam as imagens, chegando a tocá-las, como quem faz um contato direto com Deus. A cena não é um caso isolado; ela é repetida em outras cidades que têm obras de Antônio Francisco Lisboa, como Ouro Preto, Mariana, Tiradentes, Congonhas, Santa Rita Durão, Barão de Cocais, Caeté, Sabará, São João Del Rei, Catas Altas, Santa Luzia e Raposos.

Em Ouro Preto, o pintor e pesquisador José Efigênio Pinto Coelho é capaz de sintetizar a importância da obra do artífice em sua vida: “Aleijadinho fez a cara do meu Deus”. Mais do que confirmar a combinação entre arte e religiosidade, seu depoimento mostra o quanto a obra de seu conterrâneo famoso faz parte da cultura da cidade. “É para aquele Cristo com olhos puxados que eu ajoelho e rezo. Quando fui à Europa, vi que o meu Deus não tem a cara das esculturas que estão naquelas igrejas. Não tenho fé naquele barbudão europeu com cara de visigodo. O meu Deus tem cara de barroco mineiro”, confessa Efigênio.

O pintor pesquisa o legado de Aleijadinho há mais de 40 anos. Ainda criança, como a maioria dos meninos ouropretanos, sabia da importância do artista pelo valor que turistas davam a suas peças. Hoje não é diferente: a popularidade do escultor continua movimentando as cidades históricas mineiras. Ouro Preto, onde a atenção dos visitantes se divide entre Aleijadinho e inconfidentes, recebe cerca de 500 mil turistas por ano. Em Congonhas, onde estão os 12 profetas e os Passos da Paixão, a média é de 64 mil. Este número deve aumentar em 2012, ano previsto para a inauguração do Memorial Congonhas – Centro de Referência do Barroco e Estudos da Pedra, projeto lançado em novembro pelo Iphan, pela prefeitura e pela Unesco.

O artista barroco é uma referência para estrangeiros e moradores, em especial para artesãos e guias de turismo. Gabriel William Lopes Silva, o Biel, 23 anos, faz esculturas em cedro. Nas paredes de seu ateliê, em Mariana, estão peças que remetem às de Aleijadinho. “Tenho que ter sempre esses anjinhos. Os turistas procuram muito”, diz o artesão, que cobra R$ 1.200 por três anjos emoldurados. Na mesma cidade, o guia de turismo Márcio Bento Alves, 53 anos, exerce a profissão desde os 10 anos. Criou seus cinco filhos com o que recebe de turistas que vão à cidade procurando pelas obras de Aleijadinho. Na alta temporada, chega a tirar uma renda mensal em torno de R$ 3.500,00.

A feira de artesanato de Ouro Preto tem movimento todos os dias. Miniaturas de igrejas, anjos e porta-retratos são feitos em pedra-sabão, matéria-prima popularizada por Aleijadinho. Enquanto atendem os fregueses, os artesãos manuseiam o formão com desenvoltura, um ofício que é passado de geração em geração. Para o prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo de Araújo Santos, a tradição do entalhe na madeira e na pedra-sabão pode ser associada à raiz barroca de Minas Gerais. “O artista mineiro tem sempre alguma referência barroca que alimenta seu trabalho. Aqui, especialmente nesse universo da arte em pedra-sabão, Aleijadinho é uma baliza”, diz o prefeito.

Em pedra ou em cedro, a produção do artífice resultou em projetos arquitetônicos, esculturas devocionais e ornamentos que apresentam o que os pesquisadores chamam de estilemas, ou seja, sinais que se repetem nas obras. Olhos amendoados, cabelos cacheados, nariz estreito, fino e longo e boca entreaberta são algumas dessas marcas. O pesquisador Márcio Jardim, autor de Aleijadinho – Catálogo geral da obra, relaciona a existência de 27 sinais.
                O desenvolvimento artístico do escultor pode ser classificado em fases diferentes de sua vida. Jardim divide suas etapas produtivas em cinco: mocidade (1755 a 1760), maturidade inicial (1761 a 1770), maturidade média (1771 a 1780), maturidade plena (1781 a 1790) e máxima, ou fase de Congonhas (1791 a 1812). Já Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira, professora de História e Teoria da Arte da UFRJ e conselheira consultiva do Iphan, faz a divisão em três etapas: as obras iniciais integrariam o período entre 1760 e 1774, a maturidade iria até cerca de 1790 e uma terceira fase, até 1812.

A diferença de pontos de vista entre pesquisadores dedicados ao tema é uma amostra do quanto é difícil reconhecer a autoria das obras. Assim como outros artífices de sua geração, Antônio Francisco Lisboa não assinava seus trabalhos. Myriam Andrade garante que atribuições a Aleijadinho e a outros artistas de épocas passadas exige conhecimentos específicos – análises técnicas, iconográfica e formal – que são dados nos cursos universitários de História da Arte. “Mas também é necessária muita prática para treinamento do olhar, o que só se consegue ao longo dos anos”, diz a especialista, co-autora de O Aleijadinho e sua oficina – Catálogo de esculturas devocionais, entre outros títulos sobre o mesmo tema.

Márcio Jardim enumera 425 obras em seus estudos. Para 2010, ele planeja lançar outro livro com mais 45 trabalhos que considera serem do mestre barroco, incluindo peças de 10 novas coleções particulares. Como a maioria das encomendas feitas a Aleijadinho não era acompanhada de recibo – ou, pelo menos, nem todos foram encontrados –, a responsabilidade dos pesquisadores aumenta. Mas esse não é o único “porém”: há quem duvide da documentação existente. “Quando há um recibo de pagamento emitido pela irmandade, por exemplo, normalmente ninguém discute. Mas esse registro pode não ser suficiente, porque naquela época, assim como hoje, havia ‘terceirização’ nas empreitadas”, diz Jardim.

Se o reconhecimento das obras já indica contradições mesmo quando há escritos da época, a vida de Aleijadinho não fica atrás nesse universo de interrogações. A começar pela data de nascimento: seu batismo, realizado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Ouro Preto, apresenta o ano de 1730, mas a certidão de óbito diz que foi em 1738. A paternidade também destoa: é o nome de Manoel Francisco da Costa que aparece no batismo, e não o do arquiteto Manuel Francisco Lisboa, que é popularmente reconhecido como o pai. Quanto à doença, em 1964, a Associação Médica de Minas Gerais chegou a discutir a enfermidade do artífice. Hanseníase, escorbuto, acidente vascular cerebral e sífilis foram alguns dos diagnósticos apontados. E se ele era mesmo tão doente, como conseguiu se locomover por diversas cidades mineiras? Para isso contava com escravos – “artigos” de luxo – que o carregavam. Então, por que será que ele morreu pobre? Para responder a essas perguntas, pesquisadores se embrenharam em leituras e observações de suas obras que resultaram em diversos livros. Hoje, as grandes livrarias têm em média 15 títulos sobre Aleijadinho.

O primeiro escrito que tentou responder a essas questões foi a biografia Traços biográficos relativos ao finado Antonio Francisco Lisboa, distinto escultor mineiro, mais conhecido pelo apelido de Aleijadinho, assinada por Rodrigo José Ferreira Bretas (1814-1866), em 1858. Publicado no Correio Oficial de Minas, de Ouro Preto, o texto foi também o ponto de partida para esclarecer a autoria das obras atribuídas a Aleijadinho. Rodrigo Melo Franco de Andrade, primeiro diretor do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan, atual Iphan) e neto de Bretas, escreveu em 1938 sobre o tema, recorrendo a esse estudo. Seu artigo já aponta, no primeiro parágrafo, a existência de questionamentos sobre o artista: “Quando Rodrigo Bretas escrevia sobre Aleijadinho (…) não suspeitava que a autoria das obras que ele atribuía a Antônio Francisco Lisboa viesse a ser algum dia controvertida. Caso lhe ocorresse essa possibilidade, não lhe teria sido muito difícil comprovar as suas asserções, pois abundavam certamente àquele tempo os meios de que precisasse no sentido de documentá-las”.

Antônio Francisco Lisboa e seus escravos trabalhando em uma oficina, segundo o traço de Seth.

Antônio Francisco Lisboa e seus escravos trabalhando em uma oficina, segundo o traço de Seth.

O artigo de Melo Franco foi uma das iniciativas do Sphan para comprovar as atribuições dadas a Aleijadinho. A instituição – que também tinha Lúcio Costa como incentivador – mobilizou-se enviando assistentes técnicos às cidades mineiras. Os profissionais vasculharam arquivos de irmandades, igrejas e Câmaras, encontrando documentos como recibos, contratos de serviços, despesas com obras, comprovando em vários casos a autoria do artista. Numa coisa todos os pesquisadores concordam: Aleijadinho tinha uma oficina, e como todo grande artista, tinha auxiliares.

O texto de Bretas se tornou alvo de questionamentos por ocasião da criação do Sphan. O primeiro “tiro” saiu do historiador mineiro Augusto de Lima Júnior (1889-1970) – autor de diversas obras, entre elas O Aleijadinho e a arte colonial –, que combatia as iniciativas de Melo Franco para a preservação das obras e proteção dos documentos históricos referentes a Aleijadinho. Os bastidores das discussões entre os dois intelectuais são confirmados pelo prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo, que chegou a dirigir o Iphan de 1985 a 1987. Segundo ele, o desentendimento foi de natureza ideológica, com alguns traços de personalismo da parte de Lima Júnior. “Ele gostaria de ter sido diretor do Iphan. Por isso começou a atribuir a valorização de Aleijadinho a uma mera arrogância de Melo Franco, que queria valorizar a memória do avô, Rodrigo Bretas. Mas Melo Franco foi um homem de profunda acuidade na leitura de obras de arte e documentação histórica”.

O reconhecimento do artífice como gênio nacional ganhou força com o Modernismo, que buscava as raízes da cultura brasileira. O fato de Aleijadinho ter sido mulato – filho de pai português e mãe escrava – foi, para Mário de Andrade, um dos motivos apontados para o seu esquecimento. “A minha convicção é que o grande arquiteto mineiro foi o maior gênio artístico que o Brasil produziu até hoje. Mas por muitas fatalidades e muita incúria, o nome dele permanece vago na consciência nacional dos brasileiros”, dizia o modernista em artigo publicado em 1928.

O dito popular “santo de casa não faz milagre” também estava presente nos argumentos de Mário de Andrade: “Só nos compreendemos quando os estranhos nos aceitam”. De fato, depois que o francês Germain Bazin publicou o livro O Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil, em 1963, aumentou o interesse de colecionadores pelas obras do artista. Guiomar de Grammont, professora de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e autora do livro Aleijadinho e o aeroplano – o paraíso barroco e a construção do herói colonial, confirma esse fato: “Depois de Germain Bazin, a figura de Aleijadinho se tornou tão conhecida no mundo que todas as cidades mineiras e museus de arte colonial passaram a ter interesse em possuir uma obra desse artista”.

O livro de Guiomar foi resultado de cinco anos de pesquisa para a tese de doutorado em Literatura defendida na USP em 2002. “A maior parte dos historiadores tomou como verdade absoluta a primeira biografia (de Bretas), escrita para um concurso instituído no século XIX pelo IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro). Analisei os documentos e a biografia separadamente, tomando-a como um documento literário, dentro da concepção romântica do século XIX. A vida que o personagem teria tido, porém, segundo os documentos históricos, é muito mais simples e prosaica”, diz a autora.

Suas constatações provocaram incômodos a historiadores de arte colonial, como a própria escritora ressalta: “Eles haviam passado a vida toda estudando o tema a partir de conceitos como originalidade, estilo e autoria, que o livro mostra serem apenas concepções históricas, passíveis de mudança no tempo e no espaço, e não essências universais”.

Frederico Birchal de Magalhães Gomes não é historiador, e sim engenheiro aposentado. Mas como cresceu nas cidades de Ouro Preto e Mariana, ficou surpreso com o estudo de Guiomar, que afirma ser a biografia de Bretas “um texto para agradar ao IHGB”, contendo aspectos fantasiosos. “O Iphan republicou a biografia acrescida de 83 notas que basicamente comprovam a veracidade da maioria das informações de Bretas. Foi esta pesquisa que deu grande credibilidade à obra, mostrando que ele foi um pesquisador consciencioso na consulta aos documentos disponíveis da época”, diz Gomes.

A autora considera um absurdo Aleijadinho ter executado todas as obras que lhe foram atribuídas: “Como sempre, é no texto de Rodrigo Ferreira Bretas que o exagero principia”. Com relação a essa questão, Márcio Jardim é enfático: “É preciso levar em conta que Aleijadinho viveu 84 anos e era mulato. Ele não tinha acesso a serviço público. Se ele ficasse um dia sem trabalhar, não recebia por aquele dia. Também não havia aposentadoria, ele tinha que trabalhar o tempo todo. Ele e seus auxiliares”.

As polêmicas em torno da vida e da obra de Aleijadinho não param nestas páginas. Cada olhar para uma escultura pode gerar novas perguntas. Por que será que aquele anjo do frontispício da Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto é careca? Turistas, moradores e esta repórter perguntam, mas os livros não respondem. Ainda.

Para amenizar as polêmicas, é possível recorrer àquele que parece ter sido o ponto de partida de todas essas discussões, o texto de Bretas: “Desde que um indivíduo qualquer se torna célebre e admirável em qualquer gênero, há quem, amante do maravilhoso, exagere indefinidamente o que nele há de extraordinário, e das exagerações que se vão sucedendo e acumulando chega-se a compor finalmente uma entidade verdadeiramente ideal. É isto o que, pode-se dizê-lo, até certo ponto aconteceu a Antônio Francisco”.


Saiba Mais - Bibliografia
BANDEIRA, Manuel. Guia de Ouro Preto. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000.

Saiba Mais - Internet
Reprodução da primeira biografia de Aleijadinho, escrita por Rodrigo José Ferreira Bretãs, emwww.siaapm.cultura.mg.gov.br



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Trabalhos de Aleijadinho inspiram artistas em São João del-Rei

06/11/2014

Cidade histórica reúne obras marcantes do mestre do barroco mineiro. Esculturas nas igrejas do Carmo e de São Francisco são destaque.

Do G1 Zona da Mata
Aleijadinho em São João del Rei (Foto: Reprodução/TV Integração)Obras enfeitam fachadas de igrejas em São João del Rei (Foto: Reprodução/TV Integração)

A histórica São João del Rei é uma cidade cercada de referências do Barroco Mineiro. Em especial pela presença de obras de um artista singular, que marcou seu tempo: o escultor Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Os trabalhos do artista ganham ainda mais evidência este mês, quando se completam 200 anos da morte dele. Entre as peças que se destacam no município histórico estão as que enfeitam as fachadas das igrejas do Carmo e de São Francisco, que, ainda hoje, inspiram escultores locais.

Imponente, a fachada da Igreja do Carmo chama a atenção de quem passa pelo Centro Histórico da cidade. Esculturas de Aleijadinho decoram a porta do templo e contam um pouco da história da arte brasileira. Lá, o visitante pode ver de perto, por exemplo, o rosto do Profeta Naum, que representa Deus, traço forte na obra do escultor, além de querubins, escudos e coroas.

Outra fachada que chama atenção de turistas e devotos em São João del Rei é a da Igreja de São Francisco, também no Centro Histórico. O Barroco tradicional ganha novos contornos. Entre os anjos esculpidos com feições europeias, um deles representa o negro brasileiro. Outro destaque no templo é a imagem de Cristo no alto da porta, com olhos amendoados, barba espiralada e queixo bipartido, também características marcantes da obra de Aleijadinho.
O historiador Luís Miranda explica que se trata de uma expressão muito forte do trabalho do artista antes de sua doença. "Ele trabalhou com uma certa leveza em tudo que ele fez aqui em São João del Rei", disse.

O escultor sãojoanense Ronaldo Nascimento é um dos muitos artistas que se inspiram na obra do mestre Aleijadinho. "A história que ele marcou no Barroco Mineiro serve de inspiração para nós neste estilo. Para nós, Aleijadinho serve como ponto de partida para que possamos dar continuidade a essa arte", afirmou.

Parte das obras do mestre barroco que inspiram Miranda estão algumas que ficam dentro da Igreja de São Francisco: os altares laterais, púlpitos e as imagens de São João Evangelista, Santo Antônio e São Gonçalo do Amarante. "O trabalho dele foi, continua sendo e sempre será um ponto de referência dentro da arte barroca mineira", finalizou o Luís Miranda.

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O homem que esculpiu um Aleijadinho

O artista abaixo não sabia, mas uma obra sua apareceu num museu como se fosse de Aleijadinho – o escultor colonial favorito dos falsários e golpistas
MARCELO BORTOLOTI . Revista Época 11/07/2014  
 
FALSIFICAÇÃO O escultor Marcos Bernardes. “Fiquei indignado. Uma obra  é como se fosse um filho, e a estão usando para um golpe” (Foto: Leo Drumond/Nitro/ÉPOCA)

O mineiro Marcos Bernardes, de 42 anos, é escultor de imagens sacras e mora em Conselheiro Lafaiete, a 100 quilômetros de Belo Horizonte. Ele aprendeu a profissão com o pai, também escultor, que o levava ainda criança para visitar as igrejas de Congonhas, onde estão algumas das mais importantes obras de Aleijadinho. Foi ali que Marcos conheceu a produção do mestre do barroco mineiro, influência mais forte de sua carreira. Ele se especializou em fazer imagens de santos muito parecidas com as obras que Aleijadinho esculpiu no século XVIII. Sempre teve farta clientela para suas esculturas. Em 2008, num dia de inspiração, Marcos produziu em madeira uma bela imagem de São Francisco, com os braços abertos e uma singular expressão de piedade no rosto. Gravou seu nome no pedestal da estátua e conseguiu vendê-la no Rio de Janeiro por R$ 2 mil.

Há dois meses, Marcos tomou um susto ao descobrir que o São Francisco criado por ele estava numa exposição no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal, em Brasília. E mais: aparecia identificado como de autoria do próprio Aleijadinho. O catálogo informava que a peça fora feita entre 1781 e 1790, fase de maturidade plena do mestre mineiro. A comparação não deixou Marcos envaidecido. A imagem tinha sido intencionalmente adulterada para parecer mais velha. Algumas partes foram cobertas de tinta, e a assinatura dele fora raspada do pedestal. “Fiquei indignado. Uma obra é como se fosse um filho da gente, e a estão usando para um golpe”, diz.

"Esta exposição do Aleijadinho é uma fraude, não pode continuar rodando pelo país"
ANGELO OSWALDO, PRESIDENTE DO INSTITUTO BRASILEIRO DE MUSEUS

A exposição na Caixa foi concebida para ser o ponto alto da comemoração dos 200 anos da morte de Aleijadinho. Considerado o escultor mais importante do período colonial brasileiro, ele morreu em 1814, vítima de uma doença que deformou seus membros e até hoje não foi esclarecida. A mostra exibia 47 obras atribuídas a Aleijadinho, entre elas o São Francisco de Marcos, a única contemporânea. Entre as peças havia outras imagens mais antigas também suspeitas, que indignaram especialistas em arte barroca. “Oitenta por cento do que foi exibido não era Aleijadinho. Essa exposição é uma fraude, um grande equívoco, infelizmente foi selecionada pelo edital da Caixa. Mas não pode continuar rodando pelo país”, diz Angelo Oswaldo, presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), órgão vinculado ao Ministério da Cultura. Angelo tem intimidade com a produção de Aleijadinho. Ele já foi prefeito de Ouro Preto e presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Quem endossa sua opinião é Myriam Ribeiro, considerada uma das maiores autoridades do país na obra de Aleijadinho. Ela é mais incisiva. “Não havia nenhuma peça de Aleijadinho naquela exposição”, diz.

A mostra ficou em cartaz na Caixa Cultural de Brasília até maio. Em outubro, ela deverá seguir para o Centro Cultural da Caixa no Recife e, no começo do ano que vem, está programada para o espaço da Caixa em Fortaleza. Somente em Brasília, a montagem custou R$ 240 mil. A exposição foi visitada por 36 mil pessoas. No catálogo, a Caixa informa que gasta R$ 60 milhões por ano com projetos culturais. Apesar da controvérsia, a assessoria da Caixa diz que não há impeditivo para que a exposição continue e afirma não ter recebido nenhuma queixa formal do Ibram. Também esclarece que a mostra foi escolhida pelo edital de ocupação de espaços culturais em 2013 e levou em consideração a importância de Aleijadinho e a cenografia.

Desde que Mário de Andrade e o grupo dos modernistas se engajaram na valorização da obra de Aleijadinho, na década de 1920, ele se tornou símbolo da brasilidade. Essa marca chamou também a atenção no mercado de arte, onde ele se tornou o mais valorizado do período colonial e altamente cobiçado pelos colecionadores. Uma escultura como o São Francisco, vendido por R$ 2 mil por Marcos, passa a valer mais de R$ 150 mil se atribuída a Aleijadinho.

Obra de Picasso "esconde" retrato misterioso

Aleijadinho não assinava suas peças, produzidas há mais de 200 anos. As atribuições são feitas comparando o estilo da imagem estudada ao traço das esculturas reconhecidas como de Aleijadinho, como os profetas de Congonhas do Campo. Nos últimos anos, apareceram centenas de obras suspeitas. Muitos colecionadores foram logrados e começaram a surgir mecanismos maliciosos para esquentar as peças e dar credibilidade à atribuição.

Um desses mecanismos é a exposição em espaços importantes, como o Centro Cultural da Caixa. Uma obra exibida num bom museu acaba exposta nos catálogos que geralmente acompanham a exposição e ganha uma espécie de chancela. Isso serve de argumento para o marchand que quer provar sua boa procedência. Vale tanto para dar credibilidade a obras do século XVIII, mas de autoria incerta, quanto a imagens contemporâneas e evidentemente falsas – caso do São Francisco produzido por Marcos.

A trajetória dessa peça mostra como uma imagem de outro autor pode se transformar num “autêntico”Aleijadinho. Em 2008, Marcos vendeu a obra a um marchand no Shopping dos Antiquários, no Rio de Janeiro. O primeiro comprador passou a imagem a outro marchand do Rio chamado Carlos Brown. Brown afirma que a revendeu em 2009, por R$ 2.400, ainda com a assinatura de Marcos. “A peça foi vendida para um colecionador do Texas, nos Estados Unidos, que chegou até mim por indicação de guias turísticos”, diz.

Dois anos depois, a imagem reapareceu no Brasil, já envelhecida e sem a assinatura de Marcos. Não há pistas sobre quem fez a alteração. Na época, a peça recebeu um laudo feito pelo historiador mineiro Márcio Jardim, atestando que era de autoria de Aleijadinho. Jardim é hoje o único especialista no Brasil que dá laudos de atribuição a Aleijadinho. Ele tem feito isso com frequência inédita. O primeiro pesquisador a levantar toda a produção de Aleijadinho foi Rodrigo Bretas. Em 1858, ele identificou 101 obras. Depois, vários pesquisadores se debruçaram sobre a produção. Nunca chegaram a números muito diferentes. O francês German Bazin identificou a existência de 113 obras em 1958. Desde 1995, Jardim já localizou 486 peças que afirma serem de Aleijadinho. Ele próprio emite os laudos de autenticidade. As peças foram publicadas num catálogo que ele lançou em 2011. Jardim afirma que não ganha dinheiro com esse trabalho e não quis conversar com ÉPOCA.

Já com o laudo de autenticidade, o São Francisco de Marcos finalmente reapareceu em público, na coleção do marchand Marcelo Coimbra, de Itu, no interior paulista. Coimbra era o dono da coleção de Aleijadinho exibida na Caixa Cultural. Era também o curador da mostra. Ele morreu há duas semanas, aos 57 anos, de um câncer no fígado. Não há informação sobre a forma como Coimbra adquiriu a obra falsa.

"Antiquários ganham dinheiro com a ignorância dos colecionadores brasileiros"
ELIAS LAYON, ARTISTA

Nos últimos anos, Coimbra ficou conhecido por descobrir obras de Aleijadinho e apresentá-las à imprensa. Em 2009, anunciou ter localizado sete obras diferentes pelo interior do país. Todas receberam o laudo de Jardim. Em 2011, encontrou uma imagem dentro de uma igreja no Peru. Em 2012, apareceu com uma nova escultura representando Cristo crucificado. Em 2013, surgiu com uma imagem de Nossa Senhora do Rosário. Neste ano, achou na própria cidade de Itu um santo negro que, segundo ele, era de Aleijadinho. “Trabalho há 45 anos nesse mercado e nunca encontrei um Aleijadinho. Essa história é no mínimo suspeita”, diz o marchand de arte sacra Manuel Guimarães. As descobertas de Coimbra foram noticiadas na imprensa. Depois de aparecer no jornal, eram incorporadas a sua coleção particular, que ele procurava expor em locais nobres. Antes da Caixa Cultural, as peças apareceram no Forte de Copacabana, do Exército brasileiro, e no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Ao contrário da Caixa Cultural, o Tribunal não pagou nada pela exposição, apenas cedeu o espaço.

A exibição em museus, catálogos e no noticiário impresso são métodos usuais para legitimar obras questionáveis de Aleijadinho. Outro escultor mineiro de arte sacra, chamado Elias Layon, descobriu duas peças de sua autoria atribuídas a Aleijadinho no catálogo de Jardim. Uma delas é uma escultura de madeira representando São Joaquim. Trata-se da cópia exata que Elias fez na década de 1980 de uma imagem de Aleijadinho preservada no Museu Arquidiocesano de Mariana, em Minas Gerais. Na época, ele vendeu a peça, com sua assinatura, para um colecionador de Mariana, que não conseguiu mais encontrar. Quando ela reapareceu, atribuída a Aleijadinho, pertencia à coleção do engenheiro e empresário paulista Renato Whitaker. A escultura estava sem sua assinatura abaixo do pedestal, com o braço direito quebrado, para parecer mais antiga, e com um olho de vidro introduzido no globo ocular.

Whitaker afirma que comprou a imagem nos anos 1990 e diz não se lembrar mais quem foi o vendedor. Ele afirma que é um Aleijadinho autêntico. Também diz que já vendeu a peça há alguns anos na feira de antiguidades que acontece nos finais de semana no vão do Museu de Arte de São Paulo. Whitaker afirma não lembrar o nome do comprador. “Dificilmente haveria uma peça falsificada em minha coleção. Pode ser que houvesse peças mal atribuídas, no máximo”, diz. 

“ANTIGUIDADE” O artista Elias Layon. Sua escultura (no detalhe) está com o braço quebrado para parecer mais velha (Foto: Leo Drumond/Nitro/ÉPOCA e reprodução)

Whitaker já foi considerado o maior proprietário de Aleijadinhos do Brasil, com 52 obras dele. Sua coleção sempre foi objeto de controvérsia. Especialistas do Iphan afirmavam que apenas quatro peças do conjunto eram autênticas. Mesmo com essa suspeita, Whitaker conseguiu expor sua coleção em espaços privilegiados. Em 2000, no Museu Nacional de Belas-Artes no Rio de Janeiro, ligado ao Ministério da Cultura. “Ele ofereceu a exposição, e achamos a ideia interessante”, diz a diretora do museu na época, Heloísa Lustosa. Entre as peças já estava o São Joaquim que Elias Layon diz ter produzido. O catálogo da mostra publicado na época trazia o selo do Iphan. Em 2002, a imagem suspeita apareceu em outra mostra organizada por Whitaker, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Segundo a assessoria da Pinacoteca, a exposição tinha o objetivo de contribuir com as discussões sobre a autoria e autenticidade das peças apresentadas e exibia documentos sobre o estágio de atribuição de cada uma delas. Em 2010, a coleção foi exibida no Museu de Arte Sacra de São Paulo, ligado à Secretaria Estadual de Cultura. Whitaker faz parte do conselho consultivo do museu. Atualmente, diz que já vendeu toda a sua coleção de Aleijadinho.

Em janeiro de 2013, o escultor Elias Layon enviou uma carta à ministra da Cultura, Marta Suplicy, denunciando a falsificação de suas peças. Um mês depois, foi contatado pelo gabinete de Marta, que prometeu providências. “Antiquários compram a imagem, envelhecem maliciosamente e depois conseguem um laudo de autenticidade. Querem ganhar dinheiro nas costas da ignorância dos colecionadores brasileiros, que infelizmente não conhecem a obra de Aleijadinho”, diz Layon.

O ministério repassou a denúncia ao Iphan, que pretende criar uma comissão para catalogar as obras de Aleijadinho. O grupo deve ser constituído ainda no segundo semestre. “Causa estranheza a quantidade de obras que surgem atribuídas a um escultor tão cobiçado no mercado como Aleijadinho. Vamos montar esse grupo para fazer algo próximo de um catálogo raisonné, que traga informações mais sólidas nesse campo”, afirma a presidente do Iphan, Jurema Machado. Pode ser uma contribuição importante – ainda que tardia.

Colaboração: Antônio Emílio da Costa

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