São João del Rei Transparente

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Tipo: Artigos / Cartilhas / Livros / Teses e Monografias / Pesquisas / Personagens Urbanos / Diversos

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Depois do Carnaval, a religião, e vice-versa . Vinícius Borges Gomes

Descrição

São João Del-Rei é conhecida pela efervescência religiosa marcada pela tradicional Semana Santa e demais festas dedicadas a santos, além de suas belíssimas igrejas de presença barroca. Mas não é somente da tradição católica que vive essa cidade, marcada também por festas populares, em especial, o carnaval. São, muitas vezes, nas mesmas avenidas que percorrem as procissões, que os blocos carnavalescos desfilam sua alegria e irreverência.               

Pode até parecer contraditório, mas não é bem assim, afinal o Carnaval tem origem cristã. Ele nasceu no século XI devido à criação da Semana Santa antecedida pelo período de 40 dias penitenciais, a Quaresma. Para isso, surgiu a festa que seria dedicada a um deleite de prazeres, já que o período quaresmal era marcado pelo jejum. Ou seja, a ligação entre o Carnaval e a religião é estreita. A expressão que marcava o Carnaval era o “carnis valles”, que acabou gerando a palavra “carnaval”. No latim “carnis” significa carne e “valles” prazeres.

Olhando essa história, é interessante observar a realidade são-joanense. Talvez a ligação não exista mais, ou não de maneira tão forte. Mas o fato é que a religiosidade católica e a alegria carnavalesca usam os mesmos espaços e atraem públicos muito parecidos.  Mauro Garcia Lovatto é um exemplo importante disso. Apaixonado pelo Carnaval ele é ligado também à religião e toca violino nos eventos religiosos pela “Orquestra Ribeiro Bastos”. 

Marcado por sua vivência barroca, Mauro explica que a cultura religiosa significa muito para a população e isso não impede que se viva o Carnaval de maneira bem tranqüila, pois, segundo ele, o homem transita nesses opostos. “Um colega meu estava desfilando numa escola de samba e assim que me viu perguntou se havia missa no outro dia”, contou Mauro, sorrindo, para mostrar o trânsito das pessoas entre a religião e a festa.

Mauro, que atribui sua ligação com a religião a sua formação familiar, já viveu o carnaval de maneira intensa. Por alguns momentos, ele encostou seu violino, instrumento das celebrações religiosas, para escrever enredos para escolas de samba de São João Del Rei. Ele já fez seu trabalho carnavalesco em escolas como a  “Qualquer nome serve”, Mocidade Independente do Bonfim”, “Metralhas”, “Bate Paus” e para a atual campeã “Girassol”.

“Certa vez, ao assistir o bloco das domésticas, em que homens se vestem de mulher, vi três coroinhas no meio”, conta Mauro relembrando histórias cômicas que mostram sinais da ligação entre a festa e a religião. Jornalista, Mauro é assessor de comunicação da Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ) e prefere trabalhar em sua terra natal para ficar perto das raízes, que envolvem uma religião bonita e um carnaval único.

Ele também fala do gosto pela música que nunca o impediu de transitar pela rica e diversa cultura são-joanense: “A música te dá uma certa confiança. Você fica até mais corajoso para a vida. A cortina se abre e você tem que se impor”. É valorizando seu trabalho na orquestra que ele conta o quanto a música o fez ficar mais criativo e sensível. 

Teólogo analisa relação do carnaval com a Quaresma
O teólogo Sandson Rotterdan, graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), falou sobre São João Del-Rei e as peculiaridades que são observadas. “A meu ver, acho que o vínculo se perdeu. O Carnaval é uma festa desvinculada da Quaresma até mesmo pelas igrejas cristãs. É muito comum grupos religiosos fazerem retiros nesse tempo. Penso que aí ocorre um desvirtuamento do Carnaval. Em contrapartida, o dia das cinzas é somente mais um feriado, e o Carnaval se estende até o primeiro domingo da Quaresma, que é outro desvirtuamento”.

Se o Carnaval nasceu como antecipação da quarta-feira de cinzas, o que seria então a própria quarta-feira de cinzas? Sandson explica que é “um grande retiro quaresmal, onde o cristão, desde a antiguidade, faz seu itinerário espiritual rumo à celebração da páscoa”. Numa cidade como São João Del-Rei, esse momento é vivido de maneira intensa nas vias-sacras, missas, orações e procissões no período da semana santa

O teólogo crê que o vínculo dos eventos não é tão forte, pois existe um desvirtuamento, o que faz com que eles, carnaval e quaresma, se tornem até mesmo paradoxais. Mas será que na realidade são-joanense não existe certa relação desses dois como forma de peculiaridade própria? Sandson diz que “o indivíduo religioso não está necessariamente vinculado a uma instituição religiosa e as suas normas. Com isso, é perfeitamente possível comer carne na quarta feira de cinzas, estender o Carnaval até domingo e fazer penitencia quaresmal. Não importa tanto para o sujeito a norma religiosa, mas o como ele vive sua religiosidade”.                                                                                                  

Com isso percebemos através de uma diferente visão que o carnaval pode ser sim um lado diferente da religião. Sandson vai mais longe e diz que vê o carnaval como uma festa folclórica e popular que se tornou uma marca do Brasil, uma festa “que teve início na religião, mas se desvinculou dela”.          

Sem dúvidas, saber se carnaval e religião, que tem uma relação histórica próxima, continuam relacionados é uma polêmica. São João Del-Rei ajuda a problematizar a questão com esses dois lados convivendo de maneira tão próxima e viva. Mas o fato é que um lugar como esse, cheio de ricas tradições, mostra o quanto é valioso a presença de pessoas que fazem de sua cidade um ícone cultural. Se carnaval e a quaresma são paradoxais, ou se são irmãos, é uma dúvida. A grande certeza é que o povo são-joanense sabe festejar, seja desfilando pelas ruas históricas com suas folias carnavalescas sujando o chão de confete ou caminhando em oração derramando vela derretida nesse mesmo caminho, por onde transitam legítimas tradições que fazem de São João Del-Rei um lugar único desse vasto Brasil.

Publicado no Observatório da Cultura . 27 de março de 2011

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