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João Garboggini Quaglia

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Galeria Virtual: João Garboggini Quaglia

João Garboggini Quaglia por João Cabral de Melo Neto

"Uma pessoa que tenha vivido na Espanha e se tenha interessado pelas corridas de touros e pela pintura, desenho e gravura que elas têm inspirado, não poderá deixar de fazer a seguinte observação: a de que o autor destas litografias frequentou, assiduamente, as praças de touros e muito pouco ou nada as exposições, revistas, jornais, livros de reprodução, em que são divulgados ou trabalhados de seus confrades espanhóis sobre o tema. Creio mesmo que a uma pessoa que tenha visto um número considerável de corridas não será difícil dizer onde o pintor Quaglia se sentava. A mim, me parece que num tendido de sombra, nem alto nem baixo, numa daquelas filas limite em que o tendido alto passa a ser baixo, com a consequente, e brusca mudança de preço. Talvez a descoberta deste fato, e que é indicado pelo ângulo da maior parte das cenas fixadas nestas litografias, não tenha importância aparente para a avaliação da qualidade do trabalho. Creio, entretanto, que tem: porque o ângulo destas composições, por sei-absolutamente inusual nas cenas de touros fixadas correntemente, leva a uma segunda observação: a de que seu autor pouco viu o que existe em matéria de arte-sobre-corrida-de-touros, e pode colocar-se, dessa forma, inteiramente à margem do automatismo que parece marcar quase todos que na Espanha são seduzidos pelo assunto"

"Para definir em que consiste esse automatismo direi o seguinte: à exceção de matadores, banderilheiros e picadores que estão na arena, e da centena de agregados, fotógrafos, autoridades e auxiliares que contemplam do estreito corredor que a circunda, todo o mundo, inclusive os pintores, tem uma visão da corrida mais ou menos de cima para baixo, num ângulo mais elevado do que o lugar habitual em que se sentava o pintor Quaglia, mas nunca, ou raríssimas vezes, do mesmo nível daquele das pessoas que estão no tal corredor. Entretanto, quase todos os que pintam ou desenham cenas de corridas, do desenhista de jornal ao cartelista, passando pelo artista que busca o assunto por motivos de necessidade expressional, quase todos usam, invariavelmente, o ângulo em que jamais as viram, o ângulo normal em que as vêem os outros toureiros e essas poucas pessoas (entre as quais os fotógrafos). E aqui está o que me parece a origem desse automatismo. O pintor espanhol que vê, diariamente, fotografias de cenas de corridas e quadros, desenhos, gravuras influenciadas, consciente ou inconsciente, por essas fotografias parece haver perdido a liberdade de abordar a composição de uma dessas cenas com a verdade de Quaglia, que as fixa de seu tendido entre alto e baixo, e nunca querendo doparecer que estava no corredor que dá vota à arena. Essa liberdade dá a todas as as suas s composições uma qualidade de novidade e de frescura quase inédito - pelo menos a quem está familiarizando com a enorme massa de arte de toiros. toa e má, que se produz na Espanha".

Quaglia
Acontece . Por Cláudia Simões em 24/05/2014

Desde a última quarta-feira, 21, Belo Horizonte tem a honra de receber a exposição Revivendo o Figurativo, a beleza da obra de João Garboggini Quaglia em 35 telas que relembram parte da trajetória do pintor, litógrafo e mestre de tantos prêmios, enquanto evidenciam seu vigor criativo aos 86 anos.

Moema Magalhães, Bia Viegas, o casal Zélia e Quaglia, Errol Flyn Júnior, deputado estadual Rômulo Viegas, Guiomar Lobato e Otacílio Soares da Silva Filho na abertura da exposição de Quaglia em Belo Horizonte - Foto: Alzira Agostini Haddad / Divulgação
Moema Magalhães, Bia Viegas, o casal Zélia e Quaglia, Errol Flyn Júnior, deputado estadual Rômulo Viegas, Guiomar Lobato e Otacílio Soares da Silva Filho na abertura da exposição de Quaglia em Belo Horizonte – Foto: Alzira Agostini Haddad / Divulgação

Vernissage
A união entre as galerias Errol Flyn e a Galeria de Arte do PIC Cidade possibilitou a realização da mostra, que teve abertura na terça-feira, 20, em coquetel prestigiado por amigos e amigos da arte, jornalistas e o melhor, “o próprio João Quaglia em pessoa”, como disse Guiomar Lobato, diretora de Arte e curadora da Galeria do PIC Cidade. Entre os admiradores mais fiéis, a esposa Zélia Quaglia; os filhos Miraceli, Fabiano e Augusto; genros, noras e netos; os amigos Lotus Lobo e Sérgio Nunes. Amigos de São João del-Rei marcaram presença, como o jornalista José Eduardo Gonçalves; Lígia Agostini e Marcílio Monteiro; Paula Valéria e Flávio Mourão; Cida Silva, Taisla  Henriques, Alzira Agostini Haddad, Tomaz Sommers, Júlia Costa; os artistas plásticos Carlos Calzavara, Rômulo Chaves, Diego Mendonça e Ana Bello, entre outros.

A exposição
Com 35 obras expostas e registradas em lindo catálogo, a mostra permanece aberta ao público até 21 de junho, oportunidade de se encantar e se surpreender, mais uma vez, com o universo artístico de Quaglia.

O domínio do metier, conquistado ao longo de estudos, observações e trabalho incansável na perseguição da técnica, no equilíbrio das cores e na composição da figura humana estão ali, ao alcance dos olhos, para alegria dos mineiros. Revivendo o Figurativo é ainda oportunidade de se conhecer a carga poética na obra do pintor, já que no discurso Quagliano cada quadro é um poema visual. Para os são-joanenses, além do privilégio do convívio com o pintor, vale uma ida a Belo Horizonte.


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Quaglia, o mestre do gesto
André N. P. Azevedo, Cláudia Lino e Íris Marinelli


Quaglia é uma pessoa de várias facetas, que aprendeu com cada experiência vivida.

“(...) E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida:/vê-la desfiar seu fio,/que também se chama vida,/ver a fábrica que ela mesma,/teimosamente, se fabrica,/vê-la brotar como há pouco/em nova vida explodida (...)” João Cabral de Melo Neto

Viver. Talvez seja isso que todos nós procuramos em cada coisa que ganhe nosso empenho. E é isso o que João Garboggini Quaglia conseguiu. Viveu, mais do que tudo. Hoje o pintor vive em São João del-Rei, interior de Minas Gerais. Sua casa é tranquila, afastada do agito da cidade, e, claro, conta com um ateliê de pintura que guarda um pouco de seu trabalho. Mas antes disso, o artista passou por muito mais.
Quaglia nasceu em Salvador, Bahia - é impossível deixar de dizer que seu sotaque continua vivo, mesmo depois de tanto tempo. Lá mesmo, iniciou os estudos artísticos, aprendeu litografia (técnica de gravurismo que utiliza, basicamente, uma pedra calcária e tintas gordurosas). Mas não demorou muito para que saísse da Bahia e se mudasse para o Rio de Janeiro, lugar em que sua história foi se tornando cada vez mais rica.
No Rio, estudou na Escola Nacional de Belas Artes, quando as universidades eram, segundo Quaglia, “do Brasil”. Hoje, a faculdade se tornou UFRJ, e, o prédio onde Quaglia se graduou é o Museu Nacional de Belas Artes.

Escultura, xilogravura, pintura em tela, fotografia, litografia: Quaglia sabe expressar sua arte em várias formas. Mas sua trajetória não foi totalmente artística, visto que trabalhou como jornalista para a Folha de São Paulo (em sua filial no Rio), e ainda se tornou oficial da Aeronáutica. Sem contar o tempo em que trabalhou na fazenda de seu irmão. Quaglia é uma pessoa de várias facetas, que aprendeu com cada experiência vivida.
Além de ter tido várias atividades diferentes, inúmeros lugares receberam Quaglia e sua arte. Além do Rio de Janeiro e da Bahia, ele também morou no Rio Grande do Sul, sendo um dos fundadores da Universidade Federal de Santa Maria. Além disso, a vida o levou para cidades como Madrid e Paris. Isso permitiu que conhecesse pessoas que fizeram parte de sua vida. O poeta João Cabral de Melo Neto, por exemplo, teve um livro ilustrado pelo pintor: Corrida de Touros, que descreve as touradas da Espanha, país onde se conheceram. Se hoje Quaglia vive em São João del-Rei é por causa de sua família.
 
Assim como sua vida, sua pintura também passou por diversas fases. Para o artista, sua fase inicial é a preferida, pois o desenho era feito de forma mais “solta”. Depois, foi buscando seu próprio estilo, algo precioso em sua carreira; que o possibilitou a passar sua mensagem por meio da arte com cada vez mais força. Além disso, uma definição o acompanha pela vida: “a pintura é o ato de documentar o gesto sobre um suporte. Não é bonito? O pintor tem que dominar o gesto para ser bom”.
Segundo o próprio Quaglia, tudo pelo que passou já estava preparado. “Você é predestinado às coisas. Você pode desejar o que quiser”, ensina. Em certo momento, ele lembra a última vez que viu João Cabral de Melo Neto – em sua última entrevista ainda vivo. “O jornalista perguntou pra ele se ele tinha medo da morte. Como pode uma coisa dessas?”, conta indignado pela pergunta feita. Afinal, morrer é algo para o qual estamos predestinados. Mas qual o motivo de temer isso se podemos passar ainda por muitas coisas na vida? Ainda mais diante de uma jornada como a de Quaglia.
Em certo ponto da entrevista, ele nos aconselha a gravar todas as entrevistas que fizermos, pois não podemos perder os detalhes. Sem ele mesmo ter notado, a entrevista estava sim, sendo gravada.

Texto publicado no Observatório da Cultura . 21 de março de 2011
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