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Tancredo Neves por José Mauricio de Carvalho

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Tancredo Neve
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Tancredo Neves: São João del-Rei celebra centenário

Banco de Imagens: Centenário de Tancredo Neves . 1910-2010

Tancredo e a liberdade . José Mauricio de Carvalho*


Este ano em que comemoramos o centenário de nascimento de Tancredo Neves e é um bom momento para recordarmos certas lutas do são-joanense ilustre, pois elas hoje precisam de novos braços, novas respostas, novos empenhos e novos guerreiros.
A batalha mais importante de Tancredo Neves foi pela liberdade. Liberdade é a palavra que melhor recorda sua atuação. Há um discurso antológico de Tancredo, nenhum outro revela melhor quem foi ele e qual foi sua missão como homem e político. Vou lembrar parte dele aos que o escutaram e apresentá-lo aos que não o conhecem. Disse Tancredo: “Mineiros, o primeiro compromisso de Minas é com a Liberdade. Quando ainda não havia caminhos e cidades nestas montanhas, os pioneiros, descortinando o alto horizonte, sentiram que nelas não haveria pouso para os tiranos, nem chão para as quimeras totalitárias. Minas nasceu da luta pela liberdade. E porque a liberdade é o ânimo das pátrias, a nação surgiu aqui na rebeldia criadora dos Inconfidentes, que nos deram por bandeira o mais forte de todos os ideais... Liberdade é o outro nome de Minas. Mineiros, Deus me concedeu o privilégio de servir à causa de Minas desde que deixei os bancos escolares. Neste serviço não tive descanso, mas nunca me faltou alegria, porque o cumprimento do dever é a completa forma de ser feliz. No serviço de Minas amadureci emoções, e aprendi que política se faz com arroubo e sonhos, mas também com serenidade e razão” (Sua palavra na história. Rio de Janeiro: Atheneu, 1988).
A primeira de todas as formas de liberdade é a de conduzir a própria vida, de escolher o que fazer, de poder trabalhar no que mais agrada, de casar com quem amamos, de trocar de emprego quando nova oportunidade surge, de estudar o que gostamos, decidir ir ou não ao cinema, viajar ou ficar em casa, comprar ou não a roupa nova. Esta liberdade, acreditava Tancredo, vinha de sermos criaturas de Deus que nos fez livres. É a liberdade que temos diante de Deus a raiz da liberdade mesmo.
Esta liberdade é exercida dentro de limites. Muitas circunstâncias a limitam, a mais importante é a moral. Mesmo tendo por referência a sociedade, Tancredo Neves tem em Deus o último interlocutor das ações éticas. Em algum momento vamos nos apresentar diante Dele com nossas escolhas boas e más. A moral tem raiz na crença religiosa, ele entende, mas é assunto humano, sem moral o tecido social se rompe, a sociedade se perde na falta de rumo. Para Tancredo não há espaço social para a corrupção. O ideal a ser buscado é a realização plena do homem, naquilo que ficou conhecido como humanismo cristão (o homem é o maior valor, aquele que mais precisa ser cuidado e preservado). Os outros valores encontram nele a sua raiz e fundamento.
Outro limite da liberdade é jurídico. Podemos escolher descumprir as leis, neste caso o limite é a punição que a própria lei prescreve.
A liberdade de escolher o nosso destino se mostra na política. É através da escolha eleitoral, dentro das regras próprias das nações livres, que a sociedade decide quem vai governá-la e quais os rumos espera para o futuro. É a urna que legitima o poder ao consagrar um determinado programa de ação proposto pelo candidato. Portanto, a política para Tancredo não é lugar para tiranos, totalitarismos e aventuras.
A liberdade é também importante na economia, na criação artística, na expressão da fé religiosa, na história, enfim em muitos campos. Liberdade é o eixo do pensamento de Tancredo Neves, sua luta foi pela liberdade e pela melhor forma de vivê-la na circunstância. Viver a liberdade possível e ampliar sempre o espaço livre. Este é o projeto de Tancredo, assim devemos lembrá-lo lutando para termos um país melhor.

*Professor do Departamento de Filosofia da UFSJ

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A oportunidade do centenário de nascimento de Tancredo Neves . José Maurício de Carvalho

“Este tempo de centenário, ocasião para rever sonhos e renovar compromissos, de reacender o ânimo e a esperança”

No início de 2010 comemoraremos o centenário de nascimento de Tancredo Neves. Os olhos da nação se voltarão para a cidade. Será um olhar nostálgico quando lembraremos de um tempo de mudanças e esperanças, de um período onde experimentamos o gosto de ocupar as praças, da liberação do grito contido de liberdade, de tantos desejos não realizados. Foi um momento em que a sociedade brasileira vivia o sonho da mudança em direção à democracia, ao estado de direito, a uma sociedade mais justa. Havia um sentimento de que podíamos ter uma vida mais feliz e um futuro melhor do que os golpes sucessivos e crises que passamos desde que a República fora implantada. Tancredo representou para o país o articulador deste sonho e esperanças. Sonhos necessários para enfrentar a dureza dos desafios que temos. Tancredo denominou a esperança de Nova República. Não seria um tempo sem dificuldades, mas um tempo de luta nacional contra elas. Uma nação só vence suas dificuldades quanto se mobiliza toda ela. Uma nação precisa de líder e comando, de artistas e atletas, de militares e heróis, de intelectuais e operários, mas toda ela tem que se envolver para realizar as mudanças que sonha.
O olhar nacional será também de avaliação. Nos dias que virão o brasileiro estará se perguntando como estão tantos sonhos sonhados, se estamos vencendo os enormes desafios que o articulador da Nova República anunciava. Muita coisa foi feita, desafios que pareciam insuperáveis como: substituir um presidente eleito respeitando a ordem constitucional, experimentar a democracia plena, conter a inflação, voltar a crescer economicamente de forma sustentada, controlar a dívida interna e externa, diminuir radicalmente a pobreza. Porém resta ainda muito a realizar. Alguns daqueles objetivos foram alcançados, outros o foram parcialmente e há ainda muito a fazer. Educar bem nossas crianças e jovens, melhorar a segurança pública, reduzir a violência, eliminar as favelas, oferecer água, luz e esgoto tratado em todas as casas, melhorar os salários mais baixos, ampliar as oportunidades de emprego. São desafios enormes que a nação não vencerá se não estiver toda comprometida com as mudanças.
Este tempo de centenário, ocasião para rever sonhos e renovar compromissos, de reacender o ânimo e a esperança de promover novas mudanças é também um tempo de oportunidades. Oportunidades para todos os brasileiros se comprometerem com uma nova pátria, oportunidade para nossa região melhorar as cidades para o turismo, aproveitar as oportunidades de emprego e renda, fazer cidades mais bonitas, mais agradáveis para se viver, mais limpas, menos pichadas, mais arborizadas, enfim mais cuidadas. Desde que nasci ouço frases e juras de amor por São João, mas é quase sempre um amor bandido ou omisso que não se concretiza em compromissos e boas ações.
O ano novo está chegando e com ele muitas coisas podem se tornar melhores, mas as mudanças só serão efetivas se contarmos com todos os cidadãos: trabalhando melhor e com mais responsabilidade, cuidando melhor de suas casas, preservando monumentos e nosso patrimônio arquitetônico, arrumando jardins, educando crianças, respeitando a natureza deste vale e as regras de trânsito etc. Se o povo assistir passivamente as comemorações e a reforma de um outro jardim, logo tudo estará como antes e a oportunidade de uma verdadeira mudança estará perdida. Que a cidade aproveite a oportunidade e que o país também o faça para que possamos levar adiante os sonhos de Tancredo. Sonhos que começaram com outro são-joanense ilustre: Tiradentes, que como dizia Tancredo, foi um herói enlouquecido de esperança. Da loucura que se vive com o sangue e os pés na realidade. A única loucura desejável.

Fonte: Gazeta de São João del-Rei em 14 de Novembro de 2009

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O legado de Tancredo Neves, o compromisso ético com valores fundamentais por José Mauricio de Carvalho

Estamos comemorando o centenário de nascimento de Tancredo Neves e relembrando, em alguns artigos, algumas de suas ideias mais importantes. Ele as divulgou primeiramente nos jornais da cidade na década de trinta no século passado e depois por todo o país, na medida em que se tornou figura de ponta da política nacional.
Embora nosso país tenha estabelecido um programa sólido de democracia que continua se fortalecendo, poucas vezes tivemos tantos episódios de corrupção explícita. Esta semana a mídia nacional mostrou, para todo o país, vídeo do Governador de Brasília recebendo dinheiro irregular, fato que levou pela primeira vez na nossa História ao afastamento, através de ato da justiça, de um governador do DF. Já tivemos o mensalão dos partidos do governo, o do PSDB com um ex-governador de Minas e agora o do Partido Democrata. Há poucos anos tivemos algo ainda mais grave: o afastamento de um Presidente da República por procedimentos semelhantes. Enfim, a coisa se generalizou.
Tancredo Neves quando começou a escrever aos são-joanenses deu atenção especial às questões morais. Não para criticar a conduta deste o daquele político, mas propôs uma reflexão sobre os fundamentos da prática moral, que ele entendia ser elemento fundamental de sustentação da vida social. Moral frouxa relações culturais pouco sólidas.
Com quem Tancredo Neves debate suas idéias? Parece que com dois grupos. De um lado os liberais de inspiração inglesa que acreditavam que o liberalismo era um pensamento ético normativo suficiente. Isto é, a prática do trabalho sério e regular fomentava disciplina, boa conduta e difundia valores. De outro lado, os positivistas, cultores de uma religião da humanidade que, segundo Augusto Comte e continuadores seria a raiz de uma moral (da humanidade) altruísta capaz de estimular a conduta dos homens da ciência para assumir os postos chaves do comando social.
Contra os primeiros Tancredo Neves percebeu que embora Adam Smith propagasse um liberalismo ético normativo, a cultura britânica tinha sólida raiz protestante e que estava nela (no cristianismo protestante) a raiz dos valores: a retidão da conduta, a dedicação ao trabalho, à ordem, à limpeza, o respeito aos costumes, etc. que tornava o Reino Unido Estado desenvolvido, admirado, rico e organizado. Na crítica aos positivistas que eram ateus, mostra a inocência de pressupor que o simples cultivo da ciência pudesse mudar moralmente alguém. Pior, a experiência positivista acabara levando, no Estado do Rio Grande do Sul a uma experiência autoritária que se arrastara por toda a Primeira República. Naqueles dias este pensamento alcançara a política nacional com Getúlio Vargas. Tancredo Neves sofreu o primeiro golpe autoritário ao ser afastado do mandato de vereador eleito da Câmara Municipal da cidade pelo governo ditatorial.
Instado pela história do país e por sua própria experiência considera que a formação moral dos cidadãos é condição necessária para o desenvolvimento nacional e que a Igreja Católica era a única instituição que, naqueles dias, podia comandar a formação moral das pessoas. Aposta então que este deveria ser o caminho da Igreja, acompanhando a herança de Jackson de Figueiredo e as teses de seu colega advogado Alceu de Amoroso Lima (1893-1983) que ficou conhecido como Tristão de Athayde. Neste sentido defende a fé católica contra o monismo e considera os valores cristãos a raiz de um projeto de democracia republicana e integridade nacional, com respeito à pessoa humana, preocupação social (justiça), constitucionalismo liberal, tolerância e respeito à pluralidade.
Lembrar Tancredo Neves significa resgatar seu projeto de nação, separando os aspectos típicos daquela circunstância histórica de seus elementos maiores e filosóficos.

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