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Turista afoito . Jota Dangelo

O Sr. Felipe Cerquize lançou recentemente um livro de impressões pessoais chamado Pelos Caminhos da Estrada Real, lançado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. O autor andou viajando por municípios do trecho e deu sua opinião sobre eles, incluindo São João del-Rei. Já de cara, diz que preferiu ficar hospedado em Tiradentes e “fez uma boa escolha”. Mas resolve, no dia seguinte, vir a São João del-Rei, de Maria Fumaça, é claro, e aqui pegou uma van fretada para conhecer a cidade. Bom, não gostou do que viu. “Quando ainda estava no trem, percebi muito lixo às margens da linha férrea, na chegada da cidade; o cenário não era diferente ao caminhar por suas ruas, contrastando com Tiradentes, uma cidade extremamente limpa”. E não há como deixar de reconhecer que o sr. Cerquize tem razão neste particular. A coleta de lixo não tem sido das mais eficientes, mas a população também colabora pouco. Além disso, não há obediência aos horários da coleta, a fiscalização não existe, não há penalidades para quem tripu­dia sobre as posturas municipais. Estamos longe dos parâmetros de educação urbana desejável e mais distantes ainda de serviços municipais de limpeza de ruas e praças ideais.
Mas o Sr. Cerquize é também um turista sui generis, para não dizer um tanto retardado: viu duas igrejas e "na terceira igreja que (o guia turístico) nos levou, me recusei a entrar, já sem paciência, e fiquei dentro da van, olhando o chuvisco que caía na rua e no vidro do carro”. Ora, seu Cerquize, o que é que o senhor veio em São João del-Rei, uma cidade do ciclo do ouro, barroca, histórica? Queria encontrar o quê nestas paragens? Obras do Niemayer? Pontes suspensas? Fachadas de vidro? Ou veio para ver a chuva gotejando nas ruas?
E aí, veio o pior. O Sr. Cerquize achou que a sua turma estava demorando muito a voltar e perguntou ao motorista que demora era aquela. Só aí sua ignorância foi iluminada: tratava-se de São Francisco de Assis, uma das mais belas de Minas e no seu cemitério estavam sepultados Tancredo Neves e Dona Risoleta. O Sr. Cerquize apressou-se em descer da van e para lá: não diz se passou pela igreja. Com certeza, não. E nada mais diz sobre a cidade, arquitetura eclética, suas casas do Centro Histórico muito bem conservadas, suas pontes de pedra, seus solares, seu Teatro Municipal.  No máximo, fez uma referência ao solar dos Neves no Largo do Rosário. Mas não deixou de elogiar' peças de estanho que viu numa das fábricas são-joanenses. Sua visita não levou mais do que três, quatro horas, se tanto.
São João del-Rei ocupa apenas quatro páginas do livro, além de duas fotos: uma delas é da Matriz do Pilar, com legenda errada (diz que é da Igreja São Francisco de Assis); a outra foto – pasmem! – é de taças de estanho! E, por fim, Sr. Cerquize escreve quatro quadras sobre São João del-Rei de uma pobreza poética digna de pena. A última delas diz o seguinte: “Não me interessa ter-te desprezada / só digo as coisas que vivi contigo /Quem sabe, um dia, volte pela estrada / e me ofereça pra ser teu amigo?". Não, não, seu Cerquize. Não volte, não. Dá muito trabalho...

Fonte: Gazeta de SJDR, 15 de Outubro de 2011

Mais informações:
Pelos Caminhos da Estrada Real . Livro critica São João del-Rei


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