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Saga Reiseira . Ulisses Passarelli

É tradição natalina muito antiga de vários países europeus cantar à porta das casas, pelos presépios e capelas, anunciando o nascimento de Jesus inclusive seus temas satélites da visita dos pastores e magos.
Em variadas modalidades grupos de pessoas com vestimentas próprias ou apenas com a roupa diária, outras vezes caracterizadas como personagens, tocam seus instrumentos musicais, por vezes dançam e ainda, entoam seus cantares folclóricos que verso a verso descrevem como Cristo nasceu humilde entre animais na gruta de Belém, referem-se ao brilho da estrela do oriente, aos misteriosos sábios que trouxeram ouro, incenso e mirra, aos pastores que na condução do rebanho prostraram-se ante o Rei dos Reis.
Vencido o protocolo religioso, o dono da residência é saudado cordialmente, sua família é lembrada nas trovas e os acordes dedilham à honra do lar visitado. É de praxe a gentileza ser retribuída com uma oferta em dinheiro e comestíveis.
Concluída a refeição, o grupo de tocadores se despede agradecendo e segue para outra paragem, levando a boa nova a outra família cristã, que adiante aguarda ansiosa a visita alvissareira.
Ora, tendo os portugueses colonizado o Brasil, entre africanos e aborígenes, encontraram em nosso imenso território o espaço muito propício ao florescimento desse costume ancestral, inspirado na bíblia, nos evangelhos apócrifos e tradições populares e até mesmo em vestígios pagãos cristianizados. Logo os jesuítas o adotaram com o intuito de catequizar a massa sofredora dos índios e negros, pelas aldeias e terreiros de seus colégios, pelos adros das igrejas e largos das vilas quinhentistas, faziam representar autos natalinos inspirados no teatro português dos tempos de Gil Vicente e pela versalhada tentavam incutir na mente escrava os preceitos do Cristo Salvador, pela dança cativavam ao ameraba selvagem, pelo toque instrumental qual engodo, traziam à baila fiéis pobres brancos e enfim, gente de todas as origens.
Não demorou a que o processo começado litorâneo em pleno século do descobrimento se interiorizasse pelo imenso sertão, e esparramado Brasil afora, logo saiu da restrição eclesiástica e ganhou a popularidade mestiça. Pelos séculos seguintes, herdou de cada etnia que o perpassou uma nuance cultural, incorporando à matriz ibérica novos tons, toques, danças, personagens, sotaques. Cada região do país deu a sua própria cara ao grupo de cantores natalinos. Na regionalização tomou em diferentes versões os mais variados nomes, todos porém com a mesma essência: reis de boi, Reisado, Folia de Reis, Pastorinhas, Companhia de Pastores, Reiada, Reis de Caixa, Terno de Reis, etc.
Recaptulando é mister deixar bem claro o processo criativo brasileiro, que não se limitou a reproduzir as janeiras e vilancicos ibéricos, mas tomando-os por modelo incorporou novos integrantes à guisa de personagens, ora humanos ora fantásticos,tirados do imaginário popular, até mesmo seres bestiais que fazem rever com seu atavismo o medo ancestral do mundo sobrenatural. Neste campo está o palhaço ou bastião das folias.
Assim o reisado brasileiro se distanciou bastante do português e já agora é de fato bem nosso.
Minas Gerais, a mãe gentil, entrecortada pelos bandeirantes e demais aventureiros, ofertou de seu regaço as riquezas minerais que atraíram toda a sorte de gente, dos quatro cantos do Brasil e de além-mar, em novo ciclo colonizador, cego de avareza, plural na mistura de saberes e ávido de novos horizontes. E depois mais ciclos perpassaram nossas montanhas, pelos currais do vale são-franciscano, pelos cultivos das alterosas, nos cafezais do centro-sul.
Minerações e terreiros de senzalas, nos recônditos povoados sertanejos, foram o forno onde todos os ingredientes culturais assaram lentamente, para nos ofertar a deliciosa receita de uma boa folia de reis, que teimosamente por seculares natais, visita fiéis levando consigo uma enfeitada bandeira sagrada, que estampa em seu registro a sublime cena natalícia do Menino de Belém. Nas fitas esvoaçantes da viola caipira e na pancada surda da caixa artesanal desfilam notas musicais que evocam paisagens minhotas e transmontanas.
A cada ano este reisado singelo alegra os lares, renova as esperanças com o anúncio cristão, leva a creditada benção capaz de erguer o debilitado, espantar assombros e trazer fartura.
São João del-Rei como filha do ciclo do ouro não ficaria de fora desse panorama. Celeiro de tradições, pólo cultural desta região poética das Vertentes, daqui também verteu a tradição reiseira pelas ruas de velhos paralelepípedos angariando óbolos para a caridade. Como heróis da cultura, desprovidos de ajuda outra que a não a das pratinhas que pingam no embornal ante a bandeira andeja, os foliões, em nome de Santos Reis, São Sebastião e do Divino Espírito santo, esquadrejam cidade e roça, recrutando folieiros em todos os bairros para cobrir o município de cantares fiéis.
Das Águas Férreas, do Jardim São José, da Rua São João, do Bom Pastor, do Araçá e do Guarda-mor, acolá, pras bandas do Fé, e mais além da Serra do Julião na bela vila de São Gonçalo do Amarante ou do lado oposto no distrito de São Sebastião da Vitória, ainda hoje aqueles homens persistentes em suas raízes fazem de tudo para manterem suas folias de Reis na ativa e rememoram os tempos de seus pais e avós, na manutenção firme de uma fé colorida e musical.
A esses senhores da cultura, não da erudita, mas nem por isto menos importante, injustiçados no não reconhecimento de seus esforços e do seu simbolismo como resistência identitária, fica aqui consignada a minha mais profunda admiração. Em sua homenagem oferto este texto.

Ulisses Passarelli


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