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Canal dos Ingleses . Ulisses Passareli e Luís Antônio Sacramento Miranda

Motivados pela fartura do ouro, encontrável no conjunto montanhoso, que chamamos Serra do Lenheiro, imediatamente a noroeste de São João del-Rei, ricos mineradores setecentistas, investiram na construção de várias obras, propícias à exploração dessa riqueza.
Dentre eles, destacou-se no século XVIII, João Rodrigues da Silva, vereador e sargento-mor, senhor de número grandioso de escravos, responsáveis pela construção de uma obra admirável, efetivada por volta de 1740, que ficou conhecida posteriormente como “Canal dos Ingleses”.
Trata-se de um longo rego, pela encosta serrana, em curva de nível, trazendo água para a lavagem do cascalho aurífero.
No alto da serra, foi construída uma represa com grandes pedras, acima da Cachoeira Véu de Noiva, barrando o Córrego do Lenheiro. Ela enchia-se à noite para ser drenada de dia, por meio de um canal, que lavraram no terreno pedregoso, quando melhor, em muitos lugares na pedra bruta, serra a baixo, em suave declive, pelo Morro das Almas. Nos locais onde o risco de desmoronamento era maior, arrimaram em pedra seca a sua borda.
Para transpor a água do Morro das Almas para a Serra do Caititu (nome específico de uma parcela do Lenheiro), separadas por profundo vale, idealizaram uma notável calha de madeira, suspensa sobre o cavaletes, até o Caititu, onde, de novo, a água retomava o rego na pedra. Conhecendo de perto tal local, se tem melhor idéia do valor estupendo dessa calha, feita só na força braçal, quando não havia qualquer maquinário para auxílio.
De tanto em tanto fizeram cortes transversais no canal, conhecidos por “ladrões”, que roubavam o excesso de água, escoando-o morro abaixo, aproveitado para lavagem dos cascalhos à cata do rico metal.
No Caititu, existe um detalhe notório desse canal: tendo encontrado um enorme bloco rochoso, incontornável, os construtores o perfuraram num túnel, onde um homem pode transpor rastejando. Não é em linha reta; em seu interior a força das águas era quebrada por um ângulo de cerca de 90º. Daí por diante continua em talha aberta.
Ao final do Caititu, descia o rego terminando em dois diques, por aqui chamados “mundéus”, onde se processava a lavagem do ouro, encerrando seu trajeto de cerca de 1,5 a 2 Km.
Este é o canal principal. Dele ou nas suas proximidades, foram construídos mais tarde, canais secundários, ou variantes, que tomaram outras direções, para nutrir de água mais poços e mundéus. Há portanto não apenas um canal, mas um complexo aqueduto, com um conjunto de canais.
Com o tempo a atividade mineradora entrou em decadência, terminando no abandono todas essas benfeitorias.
Em 1825 a Santa Casa da Misericórdia, de São João del-Rei, contratou os serviços médicos do inglês Dr. Jorge Such, que veio aqui clinicar. Junto com conterrâneos, comprou dos herdeiros de João Rodrigues da Silva e sua esposa Maria Josefa da Conceição do Rego Barros, por seiscentos mil réis, a herança que englobava as terras onde se situavam as sobreditas benfeitorias. Os ingleses compradores, fundaram em 1830, a “Saint John del Rey Mining Company (limited)”, para explorar o ouro. Apenas um mês após a fundação, foram enviados de Liverpool (Inglaterra), dezenove homens chefiados pelo Comissário Mr. Chas Herring Jun, para organizarem os trabalhos extrativistas. Reativaram as obras pré-existentes e complementaram com novos investimentos da mesma natureza.
Cinco anos depois, com prejuízos, a companhia inglesa deixa São João del-Rei com destino a Morro Velho (região de Nova Lima), para explorar outra jazida.
A atividade ficou entregue aos faiscadores avulsos, teimando na sorte, sem equipamentos, que não a pá e a bateia.
Em memória desse período de nossa história, ficou a designação “Canal dos Ingleses”, relembrando sua passagem por esta terra e o formidável aqueduto de pedra.
Urge que nossas autoridades criem meios efetivos de proteger esse patrimônio, cujos vestígios ainda muito evidentes, podem ser facilmente constatados. Alguns trechos do canal, foram destruídos por aterros e loteamentos e certos mundéus, desapareceram com a retirada das pedras para construção de alicerces no Senhor dos Montes.

Referência bibliográfica:
GAIO SOBRINHO, Antônio. Sanjoanidades: um passeio histórico e turístico por São João del-Rey. São João del-Rei. 1996.

Fonte: O Grande Matosinhos, São João del-Rei,  n. 75, maio / 2006.


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