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Anna Maria Parsons - Pequeno depoimento . Aluízio José Viegas

Em 1974, quando se iniciou um movimento de pesquisas musicológicas em nossa região, motivados pelas pesquisas já realizadas pela notável Maestrina Cleofe Person de Mattos, que resgatou e elaborou o primeiro catálogo temático musical, que é o Catálogo Temático de Obras do Padre José Maurício Nunes Garcia; Pe. Jaime Cavalcanti Diniz com pesquisas de músicos pernambucanos e mais que tudo as pesquisas do sempre polêmico Professor Dr. Francisco Curt Lange, houve um grande interesse em se fazer trabalhos musicológicos de restauração de obras que jaziam esquecidas em muitos arquivos de Minas Gerais e com as descobertas de um expressivo acervo musical da Sé Catedral de Mariana, professores e alunos da Escola de Comunicações e Artes da USP, passaram a vir semanalmente em Minas Gerais “garimpar” músicas.
Nesse período eu já estava em contato com meu primo, prof. Elmer Cipriano Corrêa Barbosa, da PUC do Rio de Janeiro, que também queria fazer algo em favor das artes em São João dei-Rei e começou a publicar artigos em jornais o que motivou apoio na recém-criada FUNARTE, montando um grande projeto que foi o CICLO DO OURO — O Tempo e a Música do Barroco Católico, que resultou no primeiro trabalho de microfiimagem de acervos musicais e de documentos históricos em São João del-Rei, Tiradentes, Prados, Mariana e Diamantina.
Nesse mesmo período em Tiradentes havia um movimento em favor da restauração do órgão de tubos da Matriz de Santo Antônio, liderado pelo casal John Parsons e sua esposa Anna Maria Parsons.
Com isso houve um intercâmbio de conhecimentos pessoais: pessoal da USP; professora Maria da Conceição Resende que iniciava os trabalhos em Mariana a pedido do Arcebispo Dom Oscar de Oliveira; prof. Elmer Corrêa Barbosa; e outros pesquisadores.
Através do Prof. Elmer e do M° George Olivier Toni, fomos apresentados - Aluízio José Viegas e Adhemar Campos Filho - a Anna Maria Parsons, proprietária do Solar da Ponte, em Tiradentes.
Foi um encontro cordial onde se falou principalmente do resgate de arquivos musicais e de documentos históricos; da necessidade de montagem de projetos e a captação de recursos para viabilizá-los; da importância das orquestras sacras da região que nessa época começou a denominar-se Campos das Vertentes. Ressaltou-se a importância da Música em São João dei-Rei com todas as suas entidades musicais, especialmente a Orquestra Lira Sanjoanense e a Orquestra Ribeiro Bastos.
Comentou-se que aproximava-se o ano de 1976 quando a Orquestra Lira Sanjoanense comemoraria o seu bicentenário de fundação e atividades ininterruptas e que tal evento deveria ter a ênfase de ser um ‘carro-chefe” para conscientização da importância da Música não só em São João del-Rei, mas na região e em toda Minas Gerais.
Anna Maria, logo se propôs a ajudar na organização de eventos, estabelecer contatos tanto no meio empresarial como no artístico, elaborar impressos, promover exposição, etc.
Desse primeiro encontro, foi então estabelecido com a direção da Orquestra Lira Sanjoanense, tendo à frente o saudoso Maestro Dr. Pedro de Souza que de imediato aceitou as sugestões do Maestro Adhemar Campos Filho, Elmer Corrêa Barbosa, Aluízio José Viegas e promoveu-se uma primeira reunião na sede da Lira Sanjoanense onde foram sugeridas várias ações.
Adhemar, logo se prontificou a contatar com Luiz Adolfo Pinheiro, seu parente e grande amigo, que exercia alta função na esfera do governo federal como meio de conseguir recursos, o que resultou no projeto encaminhado à FUNARTE e plenamente aprovado, contando com o apoio do Diretor Geral da instituição: Dr. José Roberto Parreira e do diretor do Instituto Nacional de Música da FUNARTE, o maestro Marlos Nobre.
Ressalta-se que quando o projeto foi encaminhado à FUNARTE, já havia recomendação superior para se aprovar e conceder o apoio solicitado.
Assim, foram tomadas as ações e Anna Maria se encarregou de elaborar as providências sempre notificando a Direção da Orquestra Lira Sanjoanense do que fazia.
Houve uma grande reunião na sede da Lira, com a presença de representantes não só da área musical, mas principalmente das autoridades locais e da sociedade, na qual se expôs tudo o que se pretendia fazer para comemorar com grandiosidade o bicentenário da mais antiga orquestra das Américas com atividades ininterruptas desde sua fundação.
Dom Delfim Ribeiro Guedes, Bispo de São João dei-Rei não só apoiou de modo irrestrito tudo o que propunha como se colocou à disposição em tudo o que ele pudesse ajudar e colaborar, colocando a Igreja de São João dei-Rei inteiramente coesa com as programações como um reconhecimento do que a Lira Sanjoanense prestara de serviços musicais na manutenção da Música Sacra em São João deI-Rei. Agradeceu o ter sido chamado a colaborar e reiterou seu apoio incondicional.
O mesmo aconteceu com o Pároco do Pilar, Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva, que também se colocou à disposição para o que fosse necessário.
E assim os presentes à reunião também se colocaram à disposição naquilo que pudessem ajudar.
Em reuniões posteriores foi estabelecido o cronograma de eventos, os modelos de programa para concertos, recitais, palestras, exposição, etc. e que para sua execução ficou estabelecido um largo período de tempo, pois não haveria como promover tantas ações em um só mês.
Anna Maria Parsons, solicitou então uma maior liberdade para suas ações e que para facilitar ela precisava de Aluízio José Viegas como um seu imediato, pois ela residindo em Tiradentes, por telefone, sempre que necessário ela comunicaria o que era necessário providenciar.
As comemorações foram um sucesso não só de público mas da excelência dos participantes como concertistas de renome internacional como: Antônio Guedes Barbosa, Isabel Mourão, Caio Pagano; grupos como Orquestra de Câmera da USP e coro; Grupo Ludwig; Quarteto Guanabara; Coral Municipal de Petrópolis sob a regência do Maestro Ernani Aguiar, Associação de Canto Coral, sob a regência da maestrina Cleofe Person de Mattos; Coral Ars Nova; Madrigal Renascentista; pianista André Luiz Dias Pires; cantora Adalgisa Rosa; Lira Ceciliana de Prados, Sociedade de Concertos Sinfõnicos de São João dei-Rei; grupo de cantores das orquestras sacras de São João dei-Rei, sob a regência de José Maria Neves, e o organista Pe. Edgard Poss, SDB, apresentaram a Cantata Jephté, de Carissimi.
Eventos especiais foram a realização litúrgica das Matinas de Santa Cecília em 21 de novembro e Missa Solene de Santa Cecília em 22 de novembro, na Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, com total apoio de Dom Delfim Ribeiro Guedes e de Monsenhor Paiva. Atuou na parte do canto gregoriano o grupo de Coroinhas que então se iniciava na prática do cantochão.
Pleiteou-se a emissão de selo comemorativo, porém não havendo tempo hábil para os trâmites com a ECT, foi elaborado o Carimbo Comemorativo e havendo pedidos de filatelistas nacionais e estrangeiros junto à ECT para a aquisição de quadras de selos carimbados, com o carimbo comemorativo dos 200 anos da Lira Sanjoanense, tendo havido uma pequena cerimônia dos primeiros selos a serem carimbados, que contou com a presença da diretoria da Lira e da comissão organizadora.
Palestras e Conferências sobre a Música e sobre a história musical de São João dei-Rei, foram realizadas por: Carmélio de Assis Pereira, José Maria Neves, Gerardo de Souza (filho de João Feliciano de Souza); Pedro de Souza; Adhemar Campos Filho etc.
Enfim, para tudo o que se apresentou nas comemorações do bicentenário da Orquestra Lira Sanjoanense, Anna Maria Parsons teve um papel primordial, demonstrando sua liderança inata, competência, organização alto conhecimento em editoração, que à época ainda era totalmente tipográfica. Elaborou um modelo único de programa para todas as apresentações; uma artística capa em papel especial para se colecionar os impressos das palestras e conferências e programas.
Posteriormente conseguiu estabelecer um contato com a Fundação Roberto Marinho, através do Dr. José Carlos Barbosa de Oliveira então diretor da referida fundação, e obteve-se apoio financeiro para restaurar e ampliar a sede da Orquestra Lira Sanjoanense, com patrocínio do Banco do Brasil e da Xerox do Brasil e total apoio da Fundação Roberto Marinho.
Nesse mesmo período, a Orquestra Ribeiro Bastos, também solicitou o apoio de Anna Maria Parsons para captar recursos para a sua entidade e ela ficou mais absorvida em atender a Ribeiro Bastos, que tinha interesses em viagens para apresentação de concertos. Passou então a integrar o coral da Orquestra Ribeiro Bastos.
A Orquestra Lira Sanjoanense, entretanto não pode esquecer o quanto Anna Maria Parsons foi atuante em ajudar a entidade, pelo que será perene a gratidão por tudo o que ela ajudou e promoveu em favor da Orquestra Lira Sanjoanense.

Por Aluízio José Viegas . Março de 2011

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Mais informações:

Curriculum Anna Maria Parsons

Anna Maria Noêmia Lopes Parsons nasceu em Belo Horizonte em 1934.
É licenciada em Filosofia pela PUC/Petrópolis e em Jornalismo na antiga Escola Casper Libero, quando esta ainda pertencia ao jornal “A Gazeta” em São Paulo e não fora incorporada a USP.
Tendo vivido na Europa por muitos anos, ao retomar ao Brasil, mais precisamente a Minas Gerais onde nasceu, desejou aplicar os conhecimentos adquiridos à questão cultural em Minas.
Com o seu marido John Parsons chegou a esta região e fixando residência em Tiradentes tornaram-se pioneiros do turismo de qualidade, orientados pela crença de que a interiorização da cultura aliada ao turismo é um forte agente de transformações sócio-econômicas. Assim nasceu o Solar da Ponte, cujo o desempenho econômico e cultural é conhecido internacionalmente.
Em Tiradentes com um grupo de admiradores da herança cultural e tiradentinos convictos, fundaram a Sociedade de Amigos de Tiradentes. Entidade existente há quase trinta anos ainda trabalhando na cidade.
Foi presidente da Banda Ramalho levando-a a Brasília em 1984 para um registro no CNRC (Centro Nacional de Referência Cultural).
No ano de 1975 em São João del-Rei, convidada pelo Maestro Pedro de Souza, Aluisio Viegas e Ademar Campos Filho, integrou o grupo que se propunha às comemorações do Bicentenário da Lira Sanjoanense, e com eles idealizou as comemorações de 1976. Era necessário ampliar os recursos obtidos em Brasília pela Lira, no que se empenhou, para a execução do programa proposto. Naquela ocasião, na Gráfica Lombardi cujo gerente era o violinista Milton Couto e João Simas era o gráfico, executou a papelaria para o Bicentenário. Contatou, recebeu e hospedou grandes músicos brasileiros que vieram homenagear a Lira, dando concertos em São João del-Rei. Os arquivos da Lira guardam essa informação.
Convidada pela diretoria da Orquestra Ribeiro Rastos passou a envidar esforços juntamente com José Maria Neves e Maria Stela Neves Valle para uma reestruturação da igualmente centenária Orquestra Ribeiro Bastos. Ao tornar-se membro da Orquestra Ribeiro Bastos teve inicio uma parceria que realizou muitos trabalhos desde cursos realizados com verba da FUNARTE, aos périplos de viagens da Orquestra, numericamente já maior, do Amazonas ao Rio Grande do Sul, em vária etapas, divulgando a riqueza musical são-joanense.
Honrada pelo convite do Instituto Histórico Geográfico de São João del-Rei para integrar seu quadro, só lhe foi possível participar por breve período pela incompatibilidade de horário entre as reuniões dominicais do Instituto e os compromissos assumidos com a Orquestra Ribeiro Bastos, a Sociedade Amigos de Tiradentes e outros trabalhos culturais.
Na década de 80 reingressou na vida universitária em Ouro Preto como diretora do Instituto de Artes e Cultura da Universidade Federal. Diretoria que exerceu realizando os cursos de pós- graduação latu senso “O barroco Mineiro”, atualmente vigente.
Ainda na Universidade Federal de Ouro Preto, por inspiração do Embaixador Sérgio Rouanet, iniciou os seminários para a criação e fundação do Centro de Estudos do Século XVIII visando o estabelecimento na antiga Escola de Minas de um Centro da Memória Técnica e Cultural da entidade. Acrescido de um complexo de Museu de Ciências, atualmente figurando em todos os roteiros turísticos culturais de Ouro Preto, o que provocou a retirada do prédio dos cursos de graduação para um novo campus, preservando o antigo Palácio. Em todas essas ações várias equipes foram constituídas para alcançar objetivo aspirado.
Regressando às atividades em São João del-Rei, depois da prematura morte de José Maria Neves, idealizou e criou o Centro de Referência Musicológica José Maria Neves, para o qual fez o projeto conceitual aprovado pelo Ministério da Cultura e beneficiado com um único financiador: a COPASA, numa primeira etapa ou seja a obra física da casa.
O Centro foi construído em menos de um ano em terreno cedido em comodato “sine die” por Maria Stela Neves Valle, com projeto do arquiteto André Neves e a construção da Baccarini.
Na segunda etapa de formação do CEREM, submeteu um projeto à Fundação Banco do Brasil, que uma vez aprovado possibilitou a compra dos equipamentos de alta tecnologia que o CEREM possui.
Na terceira etapa do CEREM, com os recursos obtidos pela Lei Estadual de Incentivo a Cultura e apoio do governo de Minas, o Centro prosseguiu com a instalação da sua da Sala Expositiva direcionada à visitação pedagógica e turística. O investidor neste projeto constitutivo do CEREM foi a USIMINAS.
A contrapartida social da abertura do pequeno Museu da Música foi a distribuição de muitas centenas de cadernos para a rede municipal de ensino e Conservatório Estadual de Música e Bandas. Foram também impressos 3000 cartões postais para o projeto “Coroinhas da Matriz do Pilar”.
O CEREM é agora parceiro da UFSJ, Departamento de Música com o qual vem realizando várias ações didáticas e culturais. Recentemente, o CEREM, trabalhou ativamente no projeto ‘Bandas de Cá” em parceria com a FIEMG/SESC. Projeto este que criou uma banda especial de São João del-Rei, itinerante por inúmeros municípios do sudeste de Minas.
Ensaísta, ocasionalmente articulista para o Estado de Minas e Folha de São Paulo, é autora de três títulos publicados no Paraguai sobre o entalhador português Souza Cavadas, que partiu para a província do Prata depois de Minas Gerais.
Além do trabalho no CEREM realizado já há nove anos, colabora com algumas entidades dedicadas à preservação da herança cultural e patrimonial de Minas Gerais.
Todo este trabalho não teria sido possível sem a inspiração e participação de pessoas extraordinárias em São João del-Rei e sua região.

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