São João del Rei Transparente

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Antônio Agostini

Descrição

Identificação

Meu nome é Antônio Agostini, nasci em São João del-Rei, Minas Gerais no dia 11 de fevereiro de 1912, lá no bairro Senhor dos Montes no atual sítio da Alegria, que antigamente chamávamos de Ribeirão. O nome do meu pai é Benedetto Agostini, e minha mãe Angelina Trere Agostini que vieram da Itália no final do século passado das regiões de Verona e Ravena e aqui se instalaram na colônia do Bengo como lavouristas.


Origem/Família

Eu tive quatro irmãs e três irmãos: Alberto, Lino, Helena, Sterina, Angelina, Luiz e Margarida. Todos respeitavam muito a família. O namoro era vigiado. Tinha um irmão, Alberto Agostini que era muito inteligente, fez uma espingarda sem ter as peças necessárias, exigindo dele muita criatividade e improviso para fabricá-la.
Os italianos que vieram com meu pai já morreram, tem os filhos deles, os netos e bisnetos. O papai quando veio para cá, ele foi inicialmente para a colônia do Bengo, depois ele foi para um local mais perto, onde hoje é o Albergue, então eles venderam e foram morar no Ribeirão. Quando os meus pais chegaram aqui, acharam o Brasil um paraíso. Você sabe, muita coisa ruim que tem em outros países como esses terremotos bravos, aqui não tem.. Aqui tem tudo de bom: água com fartura, terra boa. O papai conta que quando eles chegaram ao Brasil foram muito bem recebidos por todos.
O papai e a mamãe ainda falavam italiano, porém não se entendiam às vezes pelo fato de falarem dialetos diferentes.
Meu pai era muito trabalhador e honesto, com ele não tinha moleza e mesmo sem estudo obteve bens materiais como uma fazenda, apenas com o poder da enxada. Minha mãe era muito querida pelas baronesas, foi uma mulher muito boa sempre disposta a ajudar os outros. Onde ela via sofrimento ela estava ali para acudir.


Infância no Ribeirão

No Ribeirão, no sítio em que morava papai ,tinha um moinho que moía fubá. A horta de nossa casa tinha duas moitas de marmelo e papai usava a vara do marmelo para passar nas nossas pernas. Ele não deixava muito bambo não, às vezes a gente mesmo é que buscava a vara e o coro comia. Nós tínhamos um medo! Quando éramos meninos, todos tínhamos obrigação de limpar o milho, limpar aquele moinho, porque papai queria um milho bem peneiradinho, aí não tinha conversa não.Com seis, sete anos, nós íamos com o papai limpar pasto, a mamãe , fazia uma broa e levava para nós. Hum, que beleza! Era uma verdadeira ginástica. Depois que folgava um cadinho, eu e meus irmãos íamos pro campo e levávamos dois cachorros e um enxadão. Derrubávamos o cupim lá do morro. O cupim descia morro abaixo e os cachorros corriam atrás junto com a gente, isso era a maior alegria para nós. O nosso brinquedo era isso. Todo mundo acreditava em assombração, mula-sem-cabeça e por causa dessas histórias levávamos vários sustos.


Família

Eu me casei em 1936 com Gabriella Cerqueira. A minha esposa tinha uma misturazinha, pois o avô dela era napolitano. Neste casamento tive 10 filhos, e só um deles está solteiro, este comprou uma fazenda há 10 anos. Ele comprou lá porque tem penhasco. Quase todos os meus filhos trabalham na serraria, na indústria de construção de carrocerias e na loja de material de construção.


Profissão

Além de ter trabalhado na lavoura, desde criança sonhava com tudo que tenho hoje, uma importante serraria. Quando solteiro tocava viola e fazia versos. Também morei em Belo Horizonte como carpinteiro e ferreiro. Eu e meus irmãos morávamos perto do quartel e presenciamos a revolução de 1930. Meu trabalho como carpinteiro foi por escolha própria. Sou realizado na profissão que escolhi o resultado é a importante serraria Agostini, que justifica a nossa luta de todos os dias. Hoje divido com os meus filhos, netos e os duzentos e tantos funcionários essa alegria.


Colônia Italiana

Quando os meus pais vieram para cá, a maioria dos italianos que estavam no vapor com eles não tinham cultura e viviam pobremente na Itália, mas todos trabalharam muito para alcançar uma situação melhor. Cada família recebia um pedaço de terra, morava numa casinha ajeitadinha, tudo de tijolo. Plantavam cebola, repolho, batata, frutas, legumes e saíam para vender os produtos produzidos na colônia trazidos em dois balaios suspensos por uma vara de pau, que chegava a pesar 80 quilos. Um dia experimentei carregar, me balançou pra lá e pra cá , quase eu fui no chão, mas tinha força. Saía de casa às 4 horas da manhã para vir vender verdura aqui na cidade. Nós, os filhos, também trabalhávamos, não era só os meus pais que pelejavam .
Os primeiros imigrantes ficaram morando em diferentes colônias. Na colônia onde papai morou inicialmente tinha um italiano, o Emídio do Bengo que era muito respeitado por todos. Ele dava consulta, fazia remédio de raízes e folhas. Vinha gente de muitos lugares, até do Rio de Janeiro, para consultar com ele.
Nossa gente era muito festeira e amiga. Lá na Colônia o Giarola Velho fazia muito vinho, tinha plantação de uva grande. Os italianos tinham uma fábrica de cerveja só para eles. A fábrica ficava lá no Matola, onde é a Cemig hoje. O dono da fábrica de chamava Felipe Marcheti e ele foi maquinista de trem. O trem ia e vinha das Águas Santas cheio de gente com muita alegria e barulhada!


Fazendo versos:

Eram três irmãs: Catarina, Terezinha, Conceição/
Todas três com boa formação,/
Tinha seu pai velhinho, mas nunca o deixou na solidão/
Antes das sete, já tinha comida, sua sopa de macarrão
Fazia sempre uma caminhada depois da refeição
Nunca teve preguiça, sempre gostou de contar caso do ribeirão
Elas trabalhavam noite e dia e no fim do mês tinha seu dinheiro e passava para o seu bancão
Tinha pouca religião, mas ia a missa por obrigação
Levava em suas bolsas, sempre um dinheirão,
No fim da missa o padre via o sacolão,
E quando foi ver tinha pouco dinheiro na mão.
A Maria leu com muita atenção, mas achei que todas três iriam com um pau na mão.

Esse verso foi uma homenagem às filhas do seu irmão Alberto, Catarina, Terezinha, Conceição, que cuidaram muito do seu pai que faleceu recentemente aos 91 anos.


Outros versos:

Atravessei o rio a nado para brigar com os italianos
Bebi chumbo derretido que lancei os nove anos.

Não tinha medo do galo e nem do frango de topete,
O galo eu corto com a faca e o frango com canivete.

Morena bonita dos meus agrados.
Quando eu passo ao seu lado,
Eu fico todo atrapalhado.


Origem do sobrenome

O nome da família Agostinelle é classificado como tendo origem em um nome pessoal. Tais nomes de família podem ser derivados do primeiro nome de um pai ou avô, ou de fato, de um ancestral mais remoto do portador do sobrenome. Com respeito ao nome da família Agostinelli, a sua origem reside no nome pessoal Augusto, do nome italiano Augustus "favorecido de Augúrius". Variantes do sobrenome Agostinelli incluem Agosto, Agosti e Agostini. Uma das mais antigas referências a este nome é o registro de Leonardo Agosti, filósofo e escritor mencionado em 1250.
Durante a Idade Média, quando sobrenomes italianos, como o da notável família Agostini, estavam se formando as tradições italianas. Uma dessas tradições foi aquela de se colocar uma carga sobre o escudo que a um certo evento histórico. Por exemplo, aqueles membros da família Agostini que podem ter tomado parte no conflito Guelfos e Gibelinos, devem portar uma faixa indicando o lado apoiado. Portanto, membros da família Agostini não só portam um nome distinto, mas também o que cada qual significa, a história, a coragem e os feitos dos que orgulhosamente o portaram nas gerações passadas.


Uma mensagem

Nessa cidade nasci, a ela dei tudo que pude conquistar e dela tenho recebido todas as demonstrações de apreço, de consideração e confiança muito além do que podia imaginar. Sou um homem rústico por não ter freqüentado as grandes escolas e universidades, mas nem por isso me vi impedido de realizar o meu trabalho que começou em uma pequena carpintaria onde desempenhava o trabalho de carpinteiro e ferreiro, isso já a algumas décadas.
Procurei sempre em minha vida seguir e respeitar três caminhos inseparáveis: o trabalho, a honestidade e a humildade.
Essa mensagem é um trecho que foi retirado do discurso feito por Antônio Agostini, quando recebeu o troféu Del-Rei, pelas realizações de sua empresa.

Fonte: Museu da Pessoa
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