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Patrimônio de Pedra . Luiz Cruz

Descrição

O Brasil possui um expressivo patrimônio edificado em pedra e boa parte dele se encontra em Minas Gerais. Logo após as descoberta dos veios de ouro, no final do século XVII, um expressivo contingente de pessoas se aportou no território que pouco mais tarde veio a ser as Minas Gerais. Com menos de três décadas de ocupação minerária, o território já contava com algumas vilas instaladas e com estrutura administrativa, militar, eclesiástica e fisco.

Em território tão vasto e desconhecido, mas com possibilidades imensuráveis de recursos, vamos encontrar lá pelos idos do século XVI o Tratado Descritivo do Brasil em 1587, de Gabriel Soares, que comenta que “na Bahia há pedra de alvenaria e cantaria em quantidade para se poder fazer grandes muros, fortalezas e outros edifícios”. As primeiras edificações pelos Sertões dos Cataguás foram executadas de maneira muito rude, empregando as técnicas indígenas do pau-a-pique e cobertura vegetal. Depois foram empregando outros recursos como a taipa de pilão, o adobe cozido ao sol e a cobertura com telhas de barro. A cada localidade que foi iniciada a partir das atividades auríferas, logo inicia a ocupação, utilizando-se da adequação da situação geográfica para seus arruamentos, largos, templos, chafarizes, pontes e outros equipamentos urbanos. Mas nada realizado na mera casualidade, pois havia uma verdadeira política e urbanização da Coroa Portuguesa, que visava o decoro, a aparência e a formosura, tanto da edificação quanto da localidade.

Os viajantes estrangeiros que passaram por Minas relatam sobre os monumentos edificados em pedra, mas são informações sucintas, embora sejam de grande importância seus registros, especialmente os realizados pelo alemão Wilhelm Ludwig von Eschwege, que percorreu diversas localidades de Minas. Além dos registros em textos, Rugendas e Debret deixaram algumas aquarelas sobre a atividade de extração de pedras a serem usadas nas obras. Depois, teremos contribuições fundamentais para o registro e entendimento das edificações em pedra, em ensaios de Diogo de Vasconcellos, Sylvio de Vasconcellos, Ayrton de Carvalho, Augusto Carlos Silva Telles e outros. Não podemos esquecer da contribuição relevante do trabalho de German Bazin, que fora Chefe de Conservação do Museu do Louvre de Paris, com seu olhar apurado e de larga experiência sobre o patrimônio edificado em Portugal.

Os jesuítas foram os primeiros a construir seus conventos, colégios e igrejas com materiais mais resistentes, utilizando-se de pedra e cal. As edificações mineiras foram de certa maneira prejudicadas, pois os sertões só começam a ser povoados no final do XVII e primeiros anos do XVIII. E, logo em seus primórdios surgiu a Carta Régia de 9 de junho de 1711, proibindo a entrada de religiosos e expulsando “com violência” os que não queriam sair. Os religiosos eram os conhecedores de geometria, física e matemáticas.

Das primeiras construções do início da povoação de Minas, muito pouco sobrou, a não ser as ruínas do antigo Arraial do Ouro Podre, que fora incendiado por Pascoal da Silva Guimarães, em 1720, este local hoje é conhecido como Morro da Piedade e Morro São Sebastião, em Ouro Preto. As edificações foram realizadas com a utilização de tapanhoacanga (que em tupi-guarani quer dizer cabeça de escravo negro), que é conhecida como conglomerado ferruginoso e seu nome foi reduzido para canga. Nessa região existem algumas pequenas capelas que são consideradas as mais antigas de Minas, mas ambas passaram por reformas significativas.

Com o aquecimento econômico, propiciado pela quantidade de ouro produzido pelas vilas mineiras, a ocupação vai ocorrendo acelerada e de maneira mais elaborada e sofisticada, inclusive com a vinda de diversos profissionais vindos da região de Lisboa, Porto e Braga. Dentre estes profissionais mestres de riscos e mestres pedreiros destacaram-se Manoel Francisco Lisboa, José Fernandes Pinto Alpoim, Francisco de Lima Cerqueira, José Pereira Arouca, Francisco Vieira Servas, António Pereira de Souza Calheiros.

Para a construção do Palácio dos Governadores de Vila Rica, por ordem do Governador Gomes Freire de Andrade, foi contratado o engenheiro José Fernandes Pinto Alpoim. Foi nessa obra em que a pedra Itacolomi foi utilizada pela primeira vez na arquitetura (1735/1738). O quartzito Itacolomi foi retirado da Serra do Itacolomi. A partir da obra de Alpoim no Palácio dos Governadores, a atuação de diversos mestres portugueses e o início dos trabalhos do Mestre Aleijadinho, empregando as mais diversas técnicas portuguesas de edificar, somadas às tradições herdadas dos indígenas, Minas vai criar o seu próprio estilo e sua identidade construtiva. E o Mestre Aleijadinho foi criando verdadeiras obras-primas nas fachadas das capelas do Carmo, São Francisco de Assis e Bom Jesus das Cabeças de Ouro Preto e em Sabará, São João del-Rei, Barão de Cocais e Tiradentes. Na cidade de Congonhas, o Mestre Aleijadinho e sua oficina trabalharam no conjunto de Matozinhos, com suas Capelas de Passos e Profetas entalhados em pedra-sabão, retirada das proximidades. As rochas empregadas são heterogêneas de composição, cor e textura. O conjunto de Congonhas é um Patrimônio da Humanidade, reconhecido pela UNESCO.

O modus operandi de lidar com pedra é muito antigo, lá dos tempos egípcios, quando se construíram obras que nos encantam até o presente momento. Mas para tais edificações necessitava-se de um enorme contingente de mão-de-obra escrava, tanto lá no Egito quanto aqui no Brasil, além de muitas juntas de bois para puxar os blocos pétreos. Os arrematantes de obras tinham que tirar os blocos e fazer os primeiros desbastes in loco, para adiantar os serviços, seguindo os riscos dos mestres arquitetos. Com o uso de pedras, as edificações ficaram mais elegantes e com maior longevidade. Igrejas com suas escadarias, adros, portadas, torres recebiam novos elementos em materiais pétreos. Pontes de pedras em arcos romanos facilitavam a circulação com segurança. Casas de Câmaras e Cadeias eram construídas com grande solidez, mas sobretudo com elegância esmerada pelos mestres arquitetos e mestres pedreiros. Os chafarizes e aquedutos levavam água potável para os habitantes. As ruas recebiam calçamentos. A urbanização ia se consolidando, melhorando a qualidade tanto das construções quanto da qualidade de vida dos moradores, comprovando que havia um comprometimento com a política de urbanização portuguesa, com o “decoro” e com a “formosura”. Ouro Preto, São João del-Rei, Tiradentes, Mariana, Diamantina, Caeté, Sabará, Serro, Santa Bárbara, Catas Altas e outras cidades setecentistas mineiras possuem verdadeiros tesouros edificados em pedra, especialmente os quartzitos, a pedra sabão e os xistos azuis e verdes. A maioria dos quartzitos e xistos utilizados nos monumentos da nossa região foram retirados da Serra de São José. Vale uma visita para apreciar as diversas rochas aplicadas nessas obras que compõem o patrimônio nacional brasileiro.

As pedras, além de empregadas na arquitetura e urbanismo, foram amplamente usadas para a escultura de imagens de santos devocionais, ex-votos e carrancas. Também para a confecção de utensílios domésticos como panelas, potes e pratos. O Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte, possui uma preciosa coleção de objetos feitos em pedra, até um fogão à lenha, o que era muito comum antigamente.

No dia 05 de agosto, no Sesi Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes, foi lançado o livro Rochas e Histórias do Patrimônio Cultural do Brasil e de Minas, de autoria de Antônio Gilberto Costa, da Editora Bem-Te-Vi. Esse trabalho sobre as rochas é o mais completo já publicado. Em uma edição muito bem cuidada e ricamente ilustrada. É uma verdadeira viagem ao universo das construções que utilizaram os diversos materiais pétreos de Minas. A pedra e sua solidez e a pedra de fingimento, os marmorizados que foram amplamente utilizados pelos italianos e logo integrados pelos portugueses. Esses marmorizados dão grande graça e leveza, especialmente nos templos em estilo rococó. Além de vasta pesquisa sobre monumentos brasileiros que utilizaram estes recursos para os mais diversos fins, aborda ainda as pedras que vieram como lastro de navios portugueses e foram empregadas em algumas cidades litorâneas brasileiras. A origem das rochas, a formação, a degradação natural, a reconstituição, as intervenções mal sucedidas e o vandalismo que colocam em risco os monumentos pétreos são abordados.

*Professor e Diretor Cultural do Centro Cultural Yves Alves

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