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Bloco dos Caveiras: debochando da miséria pra sair dela . Antonio Emilio da Costa

Descrição

O que é capaz de fazer o Diabo, personificado, passear amistosamente pelas ruas lotadas e ser saudado carinhosamente em uma cidade tão católica quanto São João Del-Rei? Duvido que algum cristão, saindo da missa das sete ou a caminho da Adoração ao Santíssimo Sacramento em um sábado de Carnaval resista à tentação de parar na Avenida Tancredo Neves e apreciar, entre riso e assombro, a passagem do Bloco dos Caveiras. Sem que se perceba, o avesso da alegria carnavalesca tradicional, entronizado por essa agremiação, cumpre papel religioso: seu desfile é uma procissão conceitual, que questiona valores superficiais e destrói falsos mitos.
Mas para melhor entendermos o significado do Bloco dos Caveiras é preciso que analisemos o fenômeno do carnaval são-joanense desde as primeiras horas do Sábado Gordo. Agrupados no Bloco da Alvorada, os foliões despedem-se da Estrela Dalva e buscam o sol, celebrando-o pagamente com fogos e clarins na Ponte da Cadeia. Em sua maioria vestidos – ou travestidos – com pijama e camisolas, jovens e velhos, ao metaforicamente acordarem do sono que é o cotidiano, despertam para o prazer das coisas simples. Sem qualquer ordem, pretensão ou compromisso, este bloco chega a ser inocente e respeitoso; cordão que a todos arrebata e que pode ter a participação, sem nenhum constrangimento, de qualquer senhora desacompanhada. É exatamente neste aspecto que surge a dúvida se o Bloco da Alvorada faz parte do Carnaval, com todas as expectativas e permissões que esta festa causa e proporciona.
Mal a noite cai e o Bloco dos Caveiras faz ver, aos olhos ‘abertos pelos raios da Alvorada’, o mundo de sombras em que vive qualquer sociedade, inclusive a são-joanense. A Avareza, a Gula, a Ira, a Inveja, a Luxúria, a Preguiça, a Vaidade, a Lascívia, a Vingança, a Indiferença, a Prevaricação e tudo o que de pior há na alma humana tomam forma e desfilam diante da comunidade, despertando pavor, perplexidade e zombaria. O que sentem, é de si mesmos...
Três temáticas pontuam sempre o cortejo dos Caveiras: a Morte, o Diabo e os Vícios. Cada um destes temas, intuitivamente tratado, transmite uma mensagem completa, mas a trama ou o relacionamento dos três revela, e ao mesmo tempo questiona, os conflitos existenciais, religiosos e sociais da sociedade são-joanense.
Por sua própria natureza, a representação do Diabo nesse desfile é a subversão do conceito que se tem do Senhor das Trevas. No Carnaval de São João Del-Rei, não é o Demônio que comparece, mas o pobre-diabo, que não tem onde cair morto, fraco, sem poderes ou domínios. Quem tem medo do diabo que roda o rabo, mais debochado do que o estereótipo que se tem da prostituta nas esquinas, caçando clientes? Será que esse diabo quer alguma alma e, caso a consiga, sabe o que fará com ela, já que não pode sequer consigo mesmo?
A Morte, principal elemento da cultura local, é também o de maior significado nesta manifestação cultural. Nela reside o cordão umbilical que une esta agremiação são-joanense, exclusivamente masculina, a outras que, em tempos coloniais, promoveram eventos semelhantes e com a mesma finalidade. No Bloco dos Caveiras, a Morte não é cultuada, mas desafiada, violentada e transgredida. Não a Morte como confirmação da existência, mas a mediocridade com que a sociedade a reveste e tudo o que a envolve, como o falso luto, o lucro e a ostentação.
No cortejo sombrio, entre tantas surpresas, uma figura se destaca. A personificação da Morte, imensa caveira preta, com uma foice maior ainda, insinuando sua lâmina brilhante no pescoço dos que assistem atônitos. Aviso de mau presságio ou agouro, brincadeira de mau gosto ou humor negro? Talvez, mais do que isso, o recado pode ser outro: não será uma proposta de que a sociedade morra para tudo o que ali está criticado e ingresse, pelo menos por três dias, na eternidade luminosa e efêmera do Bloco da Alvorada, que dura menos do que um amanhecer e só vai voltar no ano que vem?

*Antonio Emilio da Costa, são-joanense, é jornalista
Artigo publicado no Jornal do Carnaval 1992, editado pela Secretaria Municipal de Cultura de São João del-Rei

Mais informações

. Exposição de fotos "Memórias do carnaval de São João del-Rei . Acervo: Foto João Ramalho

Caveiras
por Gazeta de São João del-Rei, 23/02/2013

O bloco caricato Os Caveiras desfilou revitalizado. Quem não assistia há muito tempo se surpreendeu com o grande número de componentes, os efeitos sonoros, as motos e triciclos como abre alas, a presença de crianças e muita gente conhecida, desfilando anonimamente, é claro.  Um dos integrantes, o são-joanense e superintendente interino do Ibama em Minas Gerais, Marco Túlio, que desfilou ao lado da filha Olga, 11, acha que  se o bloco alternasse samba à receita fúnebre, ficaria ainda mais original. Único do gênero no Brasil o bloco típico que há décadas desfila no Carnaval são-joanense foi homenageado pela Atitude Cultural.

Mais Caveiras
Nas palavras do jornalista são-joanense  Antônio Emílio da Costa (blogs Tencões e Terentenas) “…. o Bloco dos Caveiras é inquietante. Mesmo desprovido de sua dramaticidade e seriedade anterior, fruto dos tempos modernos, mais voltado para o escracho e para o deboche, em meio à cerveja, à cachaça com mel, à batucada e ao som eletrônico que são agora o Reino de Momo, o Bloco dos Caveiras ainda traz flashes de um universo misterioso e sombrio: o outro lado da vida, o mundo obscuro da imaginação, o hades, o limbo, a des-ordem, o caos, o avesso, o antes, o que pode vir depois”. Parabéns aos organizadores, ao presidente Alan Rios e ao veterano integrante, Péricles Pereira de Lima (Neném Meinha), hoje na organização. Entre muitos, estavam lá, Júlio César Rizzutti e o filho Luca, Marcos El-Corab e o e o filho Gabriel, Marcelo Valadão, Emanuel Martins, Márcio Carvalho e o filho Paulo Vitor, José Carlos Neves, Juninho Cordeiro, Alfredo Guimarães e até o prefeito Helvécio Luiz Reis.

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