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Retratos da Semana Santa . Antonio Emilio da Costa

Pequena releitura da mais importante celebração são-joanense

Não existe dúvida:a Semana Santa de São João Del-Rei é uma das mais expressivas, ricas e complexas manifestações da cultura brasileira, quando são considerados aspectos como religiosidade, tradição e estética. É um exemplo de linguagem singular, que resistiu a influências de toda ordem e sobreviveu quase intacta à evolução socioeconômica e cultural de quase trezentos anos, graças a, basicamente, três fatores – a fé, o amor ao passado e a dedicação à arte. Por seu primor, grandiosidade e pela força de sua comunicação dramática, talvez não seja exagero afirmar que, semelhante a ela, só a Semana Santa de Sevilha, na Espanha.

Poucos são-joanenses percebem que os primeiros sinais da Semana Santa acontecem em plena Terça-feira Gorda, quando, às 9 horas da noite, o sino da matriz do Pilar toca Cinzas. Quem consegue ouvir, em meio à frenética batucada que ecoa de todos os largos e becos, entende o aviso que está sendo transmitido: aproveitem bem esse fim de festa porque – logo que o galo cantar – vai ter início um tempo de introspecção, sacrifício e penitência. Pelo menos ritualisticamente, em São João Del-Rei, é isto o que acontece.

Incontáveis Via Sacras, nas ruas e nas igrejas, procissões, razouras, horas santas, adorações, tudo tem a finalidade de tornar ainda mais vivo e presente um estigma que foi marcado a ferro quente no peito dos são-joanenses, juntamente com o espírito barroco. A fugacidade da vida e a eternidade da morte. Em cada cerimônia e ritual se celebra a própria morte, simbolizada na Paixão de Cristo.

Encomendações de Almas, por exemplo, podem ser entendidas como um contato físico com o “outro mndo”, uma vez que as orações fúnebres e os cantos sacros são entoados em encruzilhadas, cruzeiros de penitência, portas de igreja e portões de cemitérios. Para os místicos, são locais de passagem, início e fim, pontos de união e de separação entre caminhos, reinos, domínios e universos.

Quando o Diabo está solto...
Seja na crendice das pessoas simples, seja na memória oculta dos cidadãos esclarecidos, algo diz que a quaresma é um período mágico onde tudo – principalmente de mal – acontece. Acredita-se que nesta época todos estão mais passíveis de tentação e atitudes negativas, a ordem universal se torna frágil, ameaçada, e a realidade pode ser assaltada por uma série de coisas que fogem ao controle humano. Tudo porque o Diabo está solto na Terra, desestabilizando equilíbrios e perturbando os sentidos, o que só pode ser contido com sacrifício, penitência e oração.
Partindo também deste pressuposto, mas em contrapartida a esta crença, na Quaresma todo o ofício litúrgico é desenvolvido para aguçar tragicamente a sensibilidade dos fiéis, pela provocação sistemática de todos os sentidos. A audição, pelo toque dos sinos, matracas e músicas barrocas; o olfato, pelo cheiro do incenso e das ervas aromáticas; a visão, pelas imagens dos santos e representações bíblicas, e até o paladar, pelo cardápio do que se come nestes dias especiais. Tudo conduz à contrição, à complascência, à culpa, ao desejo de viver morrendo para se salvar e reviver.

Rompendo tempo e espaço
As procissões dos Passos e da Saudade de Nossa Senhora, os ofícios de Ramos, de Trevas e da Paixão, a Adoração da Cruz e o Enterro do Senhor Morto, expoentes da Semana Santa são-joanense, representam a união profunda e transcedente do sensorial com o religioso. Por isso, levam os fiéis quase a um encantamento, criando espaços e tempos divinos, livres de geografia ou cronologia – pura memória.

Quando o Senhor de Passos é des-velado na igreja de São Francisco, quando os pés batem no chão surdamente na Matriz do Pilar, quando o crucifixo agonizante é avidamente acariciado pelo povo arrependido ao som do Miserere ou quando a Verônica abre o Sudário sangrento na grande noite de lua cheia, a multidão presente não está em cidade alguma. Tampouco vive em qualquer século. Ocupa, momentaneamente, um tempo e um lugar sagrados, inidentificáveis. A fé e a arte, quando se unem em longo abraço, são capazes de milagres que ninguém imagina.

Ofício de Trevas

Em qualquer parte do mundo, o eclipse lunar do dia 03/04/1996
foi apenas um fenômeno astronômico. Menos em São João Del-Rei.
Lá, a treva cobrindo a Terra foi parte de um ofício sagrado.
A Lua, escondida por véu preto, repetiu no céu
o que acontecia na nave escurecida da Matriz do Pilar.
Matinas e Laudes. Responsórios. Cântico de Zacarias.
Christus factus est. Velas, violas, trompetes e vozes.
Os anjos assistiram tudo, mas no final, puro espírito,
não puderam bater os pés.

** Jornalista, gerente cultural do Arquivo Público do Distrito Federal.
*Publicado em A Voz do Lenheiro – Ano 2 Nº 9 – abril/maio/1996


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