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Padre Luiz Zver

Descrição



Por Francisco José dos Santos Braga

I. INTRODUÇÃO
Neste post serão apresentados alguns "highlights" mais expressivos da atuação do C.A.C. - Centro Artístico e Cultural de São João del-Rei ¹, obtidos através da leitura cuidadosa de textos de uns poucos autores credenciados a falarem em nome do C.A.C., especialmente os da lavra do seu primeiro Presidente Pe. Luiz Zver, publicados pelo jornal Diário do Comércio. Normalmente, esses textos são apresentados em coluna específica do jornal, intitulada A Coluna do C.A.C ou simplesmente Coluna do C.A.C., especialmente a partir de 8 de outubro de 1959.
Para o leitor aquilatar a extrema versatilidade do grande educador e escritor esloveno, selecionei alguns textos da sua lavra em diferentes momentos de sua atuação como presidente do C.A.C. Dentro do possível, vou tecer comentários sobre os textos aqui escolhidos para dar ao leitor a inteira dimensão desse projeto cultural intitulado C.A.C., que se tornou realidade, sem recursos financeiros, sem pontos definidos de encontro, sem comodidades e instalações favoráveis, mas com muito sonho e vontade de acertar e de agregar um grupo de intelectuais são-joanenses em torno de uma causa comum: o fortalecimento da cultura são-joanense, alicerçada sobre "a superior compostura moral, cultural e cívica dos responsáveis" pelo empreendimento, constituindo-se "em uma coluna de sustentação da nossa fama, projetando o nosso nome, com justiça, com respeito e com um substrato real de cultura em todos os horizontes da Pátria", nas acertadas palavras lapidares de Adenor Simões Coelho Filho.
Inicialmente, vou apresentar a minha visão de quem era o educador Pe. Luiz Zver e tentar identificá-lo com algum padrão já estudado cientificamente. Na busca dessa identificação, encontrei um texto de Andrew Churches, expert a um só tempo em educação, em TIC-Tecnologia da Informação e Comunicação e na adaptação da taxonomia de Bloom para a era digital, onde constatou a emergência de uma nova classe de educadores que pensam e agem com uma atitude que é radicalmente diferente do típico educador tradicional. É meu objetivo mostrar que Pe. Luiz Zver, com base na maneira como eu o vi atuar no período de 1968-1971, quando seu aluno na saudosa FDB-Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras de São João del-Rei, ou seja, muito antes do advento da utilização massiva dos computadores, se não pode ser considerado pertencente a essa nova classe de educadores a que se refere Andrew Churches, sem dúvida foi precursor dessa tendência moderna, porquanto muito se aproximava dessa nova geração de educadores do século XXI. Assim, Churches identificou e representou em gráfico as oito características que definem essa nova geração de educadores. São as seguintes as características desse novo educador:
 
1) Precisa ser o adaptador, já que deve estar preparado para adaptar um currículo e os requisitos para o ensino de maneira criativa. Se a tecnologia falhar, o professor deve dispensar o aparato eletrônico e dar continuidade ao show. Presenciei muitas vezes o Pe. Luiz Zver manter-se calmo quando algo saía diferente do programado e buscar uma alternativa criativa para se chegar a uma solução satisfatória, em sala de aula. Também como eterno Vice-Diretor da FDB, era capaz de fazer adaptações do currículo de inúmeros seminaristas por exigência do MEC para aprovação e validação de seus diplomas. A tal ponto se especializou nesse ponto que, mais tarde, a FDB foi selecionada pelo MEC para revalidar curso de Filosofia para aqueles seminaristas e pastores que quisessem lecionar. Para isso, a FDB se propôs e realizou com muita eficiência a atualização deles na área pedagógica, para preencher sua grade curricular com disciplinas específicas de Pedagogia, de forma a torná-los aptos a lecionar com proficência as disciplinas de sua formação específica.

2) Espera-se que seja o comunicador, já que deve dominar tecnologias de comunicação e de colaboração, devendo saber como facilitar, estimular, controlar, moderar e gerenciar comunicação e colaboração. Provavelmente, essa área tenha sido o ponto forte do educador Zver, pois todos sabíamos onde ele se encontrava a qualquer hora. Ou seja, podíamos recorrer a seu ensinamento e receber o seu apoio e entusiasmo.
 
3) É preciso que seja o aprendiz, já que deve aprender sempre e adaptar o seu ensino a novos horizontes e mudanças de cenários. Absorvendo constantemente experiências e conhecimento, bem como adaptando o currículo a novas legislações do MEC, Zver fazia atualizações permanentes nos seus planos de aula, o que pode ser facilmente constatado através de suas anotações de aula na FDB. Observa-se também nessas anotações que houve muita exigência da parte do professor na década de 50, tendo ocorrido um paulatino relaxamento, especialmente no Curso de Literatura Latina, a partir de então.
 
4) Marcante é ser o visionário, já que deve estar pronto para examinar e receber novas ideias e ser capaz de imaginar como aproveitá-las em sala de aula. Zver fazia isso com relativa frequência e facilidade. A imaginação era um componente crucial no seu papel de educador: aproveitava as ideias dos outros e usava-as em suas aulas. Podia enxergar através das disciplinas e do currículo. Essa habilidade permitia-lhe fazer elos que reforçava e valorizava o aprendizado em outras áreas.
 
5) Deve destacar-se como o líder, já que liderança é crucial para o sucesso de qualquer projeto. Para seu exercício da liderança, Zver contou com o privilégio de ser muito bom na arte da comunicação e da integração.
 
6) Supõe-se que seja o modelo, já que educadores efetivos modelam o próprio comportamento pelo que eles esperam de seus alunos. Dessa forma, são capazes de modelar a tolerância, a consciência global, a prática da reflexão ou o exame pessoal do ensino e aprendizado. Através do contato pessoal ou de outra mídia qualquer, eles são capazes de observar o comportamento interno e externo de seus alunos. Novamente, Zver foi um expert em perceber as necessidades de seus alunos e muitas vezes explicitava as suas observações com muita franqueza, o que, às vezes, no caso dos mais tímidos, provocava algum constrangimento.
 
7) Há que ser o colaborador, já que, como tal, o educador deve ser capaz de compartilhar, contribuir, adaptar e inventar. Várias ferramentas de colaboração devem ser utilizadas por tal educador para alavancar o ensino e motivar os alunos.
 
8) Deve ser o que aceita riscos, já que assumir riscos para um educador significa muitas vezes render-se ao conhecimento dos alunos e confiar neles, entre outras coisas. Também significa levar os estudantes a ensinarem uns aos outros. De acordo com a pirâmide de aprendizagem, a mais elevada retenção de conhecimento advém de ensinar aos outros. As taxas médias de retenção são: preleção (5%), leitura (10%), audiovisual (20%), demonstração (30%), discussão em grupo (50%), prática pelo fazer (75%) e ensino de outrem para uso imediato (90%).
 
Convém esclarecer que não incluí nas características do educador moderno a utilização e o manejo de tecnologias de ponta como o computador, tal qual ocorre no texto de Churches, porque àquela época não estava disponível essa tecnologia, que se difundiu na década de 90 no Brasil. Meu contato com Pe. Luiz Zver deu-se antes do advento do computador e estou certo de que, se ele ainda estivesse entre nós, dominaria com a maior facilidade essa tecnologia e superaria todos os desafios que ela viesse a oferecer para fins didáticos e profissionais. Com exceção da utilização da tecnologia computacional hoje indispensável ao educador moderno, Zver mostrava aptidão e habilidades para preencher todos os requisitos a fim de pertencer a essa nova geração de educadores do século XXI. Apesar disso, é possível, nos textos abaixo, quase todos da autoria de Pe. Luiz Zver, comprovar como tinha uma visão moderna da educação e conceitos muito pessoais acerca da função social da cultura. ²

II. TEXTOS REFERENTES AO C.A.C. ³

1. A primeira palavra do C.A.C. (E o seu primeiro apêlo),  por Pe. Luiz Zver
1) Desde outubro do ano passado fala-se de uma entidade cultural em vias de organização, que foi vàriamente apelidada pelos seus idealizadores: o primeiro nome foi o de Academia Sanjoanense de Letras; o último, o de Centro Artístico e Cultural de São João del-Rei, ou C.A.C..
2) A mudança de denominação envolve não só uma questão de palavras, mas de rumos, de campo de ação, de fins e de meios; o C.A.C. é incomparàvelmente mais amplo e mais livre.
3) A idéia inicial do escritor e poeta José Bernardino Peixoto foi também vàriamente acolhida:
a) Uns a ridicularizaram, tachando-a de pretensiosa (poucos, felizmente, e êstes, por que não a compreenderam);
b) Outros a olharam com indulgente simpatia e até lhe bateram palmas (indivíduos que pensam ser o mundo um palco, os homens todos uns artistas e êles, a platéia), mas pararam aí;
c) Outros ainda a apoiaram incondicional e acrìticamente (bons rapazes, que aceitam as idéias alheias porque raramente as têm próprias);
d) Houve enfim os que a submeteram à análise ontológica, acharam-na boa, mas a quiseram modificar, a fim de torná-la mais fecunda e prática. Foi esta quarta corrente a que prevaleceu e deu corpo à idéia.
4) É natural que houve também uma quinta categoria: a dos vegetarianos intelectuais, dos indiferentes ensimesmados, amorfos, glaciais, para os quais os valores do espírito não existem, ou acham que não vale a pena que dêles se tome conhecimento. Não merecem censura: a galinha de Esopo não merece censura porque à pérola preferiu o grão de milho.
5) O Centro Artístico e Cultural de São João del-Rei andou aos poucos adquirindo feição definitiva, foi moldando-se e se afirmando. Foram redigidos e discutidos os pontos fundamentais dos seus estatutos, que no dia 28 de junho receberam a aprovação dos sócios fundadores, e no dia 5 de julho foi eleita a sua primeira diretoria.
6) De acôrdo com o plano traçado pelos estatutos, a atividade do C.A.C. se desenvolverá por meio de três departamentos, nìtidamente demarcados: o literário, o científico e o artístico.
7) Os seus fins se enquadram o mais possível na atual realidade brasileira, em pleno surto cultural, e na imediata contingência sanjoanense, que difícil e angustiosamente procura equilibrar-se entre uma tradição gloriosa que a prende ao passado e as fascinantes e tentadoras perspectivas de um futuro, que é impossível e seria desastroso ignorar.
Seria, com efeito, ridículo e ingênuo viver saudosamente do passado num século invadido pelo cubismo, pela poesia neoconcreta, pela ciência eletrônica e pelas viagens interplanetárias. Mas romper completamente com o passado seria renegar a própria fisionomia histórica, renunciar à própria individualidaade e perder o contacto com as raízes, que nos fornecem a seiva vital.
8) O Centro Artístico e Cultural de São João del-Rei é, felizmente, já uma realidade e receberá a sua existência formal e jurídica, pelo emposse do seu primeiro Conselho Diretivo, na solenidade que se realizará hoje, 26 de julho, às 19,30 hs., no salão da sede social do Athletic à Av. Tiradentes, nº 463.
9) Qual é o seu programa? Quais os planos, os meios, os métodos, os ideais? Que utilidade pode trazer à comunidade cívica em cujo meio surgiu? Será uma idéia fecunda e duradoura? Ou será apenas uma dessas explosões de magnésio, ainda, não há muito, usadas pelos fotógrafos, de luminosidade intensa, mas demasiado breve para compensar o incômodo da fumaça que deixa ao se apagar? — A resposta a estas perguntas poderá talvez ser dada durante a própria solenidade de hoje.
10) Os membros do Conselho Diretivo eleito expressam aqui um caloroso convite a todos os sócios fundadores, aos simpatizantes e amigos do Centro Artístico e Cultural de São João del-Rei, para que compareçam, hoje ⁴ às 19,30 hs., à solenidade da sua tomada de posse e dêem o seu apôio à novel entidade.
É esta a primeira palavra e o primeiro apêlo dirigido pelo C.A.C. à cidade de São João del-Rei.
Pe. Luiz Zver

Fonte: Diário do Comércio, Ano XXII, 26 de julho de 1959, p. 1 e 4
2. O mesmo Diário do Comércio noticiou na edição de 28 de julho de 1959, p. 1 e 2, a seguinte matéria: Extraordinário êxito da solenidade de posse da 1ª diretoria do Centro Artístico e Cultural, escrita por Adenor Simões Coelho Filho, presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia, com o seguinte subtítulo seguido pelo texto propriamente dito:
Magistral discurso do Pe. Luiz Zver, presidente da entidade — Dada a posse aos eleitos pelo Dr. Gomide Leite, Juiz de Direito — Presente à reunião a fina flor da sociedade local — Motivo da ausência de vários elementos representativos — Encerrada a solenidade com uma apresentação de autênticos artistas sanjoanenses — Fadado a altos destinos o C.A.C., pela compostura moral e cultural dos que o dirigem — Rara felicidade do Pe. Luiz Zver na escolha dos diretores de Departamentos — Leila Taier, jovem cantora sanjoanense, um capítulo à parte.

Às 19,30 horas de domingo, teve início a sessão solene de posse dos diretores do C.A.C., presidida pelo M.M. Juiz de Direito, dr. Gomide Leite. Visìvelmente emocionado com o comparecimento de personalidades representativas da sociedade local, o Revmo. Pe. Luiz Zver pronunciou o seu discurso de posse, no qual afirmou seus altos propósitos em relação ao C.A.C. e sua indisfarçável confiança nos demais diretores da entidade, a cujo cargo se entregará daqui por diante o aprimoramento da arte, da cultura e da ciência desta cidade. Teceu justos comentários em tôrno do dinamismo e da fé que caracterizaram sempre o snr. José Bernardino Peixoto, inspirador da idéia da criação do C.A.C. e hoje seu vice-presidente, trazendo aos presentes o significado da inabalável confiança que êsse moço conservou durante todos os debates que culminaram com a organização final da entidade. Durante uma digressão de seu magistral discurso, o orador situou com objetividade a posição de São João del-Rei em face da cultura, tendo tido oportunidade de comentar, em crítica serena e construtiva, os desvios e as contradições da nossa sociedade no trato dos problemas culturais. Realmente, dispondo de tantas facilidades, de tantos estabelecimentos de ensino, de tantas organizações apropriadas, de tantos recursos materiais, morais e intelectuais, de tanta fama de cidade culta, São João del-Rei parece anestesiada, parece amortecida quando se trata de incentivar, de apoiar ou de estimular a verdadeira arte, a verdadeira ciência. Contagiada pelas expressões candentes do Pe. Luiz Zver, a assistência recebeu o impacto da fé no futuro do Centro Artístico e Cultural, sendo impressão generalizada que essa corajosa emprêsa do espírito será conduzida a superiores destinos, fato que significará também o aperfeiçoamento paralelo dos métodos, das concepções e dos pontos de vista de São João del-Rei, atualmente estagnados pelo isolamento das personalidades, pelo hermetismo da cultura, pela paralisia e pela falta de fé daquêles que assistiram ao fracasso de outras instituições congêneres. Desta vez, tendo em vista a superior compostura moral, cultural e cívica dos responsáveis, teremos o início de nova era para êsse denominador comum que se chamaria a justificação da nossa celebridade, como comunidade culta e digna das glórias do passado.
 
O eminente orador, Pe. Zver, é o decano dos professores da Faculdade de Filosofia. A escolha dessa personalidade para a direção do C.A.C. é a garantia da manutenção de seus elevados princípios, mas nem todos sabem, pela modéstia que envolve êsse guia espiritual extraordinário, que êle é também a personificação da sabedoria em difíceis e variados setores da cultura universal. Filósofo e professor eminente, mais brasileiro do que muitos que aqui nasceram, o Pe. Luiz Zver é uma presença que honra esta cidade, pelos seus incomensuráveis atributos de pensador e mestre. Dando uma demonstração de sua acuidade psicológica e cultural, não surpreendeu os presentes quando deu publicidade aos nomes que escolhera para dirigir os departamentos especializados do C.A.C. Assim é que atingiu plenamente os objetivos da sociedade quando nomeou a snra. Mercês Bini Couto para o Departamento Artístico, o Revmo. Padre João Bosco de Oliveira para o Departamento Literário e o dr. José Norberto Esteves para o Departamento Científico. Legítima artista e professora de piano, eminente professor de Português, jovem e dinâmico engenheiro, eis três personalidades cuja escolha veio ao encontro dos anseios da arte, da cultura e da ciência de São João del-Rei.
Ao terminar o seu discurso, o Pe. Luiz Zver deixou na numerosa assistência a impressão de profundidade temporal, de irresistível penetração no futuro, para as atividades do Centro Artístico e Cultural. Como já tivemos oportunidade de afirmar nestas colunas, não será surprêsa a transformação do C.A.C., dentro de pouco tempo, em uma coluna de sustentação da nossa fama, projetando o nosso nome, com justiça, com respeito e com um substrato real de cultura em todos os horizontes da Pátria. Em pouco tempo, mercê de Deus, o C.A.C. será a medida dos valores culturais desta terra, com o respeito merecido da crítica especializada e de todos os meios de divulgação do País.
Diante dos programas intensos de domingo, com a presença do snr. Ministro do Trabalho ⁵ na cidade, com o intenso movimento sindical, com a instalação da 3ª Semana dos Estudos Pedagógicos, inumeráveis pessoas não puderam comparecer à Sede do Athletic para prestigiar o C.A.C. Justo motivo, que valoriza ainda mais a presença da numerosa assistência, que seria muito maior se não houvesse a dispersão inevitável por fôrça das demais atividades da sociedade.
Para encerrar a solenidade, foi oferecido ao público um recital de canto, com os conhecidos artistas sanjoanenses, José Costa, Célia Montrezor, Leila Taier, em números de canto, e as pianistas snra. Ligia Cardoso Assis e senhoritas Mercedes e Eduarda Passarini. A programação, escolhida com gôsto e apresentada com expontaneidade, causou a melhor impressão entre os presentes, constituindo-se logo em atestado de vigôr do C.A.C., ao qual já pertencem os talentosos e brilhantes artistas.
Contudo, a apresentação da senhorita Leila Taier se revelou um capítulo à parte, pelos dotes de sua voz, pela sua graça de artista e pela sua autêntica vocação de cantora. Todos os presentes ficaram maravilhados com a arte de Leila Taier, que é uma conquista nova para São João del-Rei e um nome que pode honrar esta cidade em qualquer parte do País. Leila Taier é uma artista autêntica, que canta sorrindo e sem esfôrço, uma artista que, se quiser, elevará o nome de São João del-Rei aos píncaros da glória.
Eis portanto os rumos traçados pelo C.A.C., a sua importância, o seu mérito e o seu futuro nas mãos da sociedade sanjoanense. Ninguém de boa fé poderia atribuir com exclusividade à sua primeira Diretoria o êxito do empreendimento. Logo, cabe à comunidade estimular o C.A.C. e levá-lo, pelas mãos dos seus dirigentes, ao seu brilhante e histórico destino.

3. Além disso, o mesmo Diário do Comércio ainda noticiou na edição de 29 de julho de 1959, p. 2, na coluna Elegância & Sociedade, a seguinte matéria assinada por Osni Silva & Karuk:
 
(...) Também o Centro Artístico e Cultural de São João del-Rei falou alto nesse dia. A sessão solene de posse dos diretores do C.A.C. foi presidida pelo exmo. sr. Dr. João Gomide Leite, MM Juiz de Direito. Anotamos a presença: Senhora Jamil Kalil Zarur, Sr. José do Carmo Barbosa, Prof. José Pedro de Carvalho Leite (representando sua excia. Pe. Prefeito Municipal ⁶), jornalista Mozart Novaes, Prof. José Américo da Costa, Sr. Rubens de Barros, Dr. Paulo Christófaro, jornalista Gentil Palhares, Cap. José Amaurí de Araujo Silva (um dos dez mais), Marília Martins, Senhor e senhora Dr. Orestes Braga, Senhora Oswaldo Magaldi Campos, jovens Geraldo Nascimento, Pedro Alberto, Ari Gomes, Abgar Campos Tirado, Prof. Ebert, Dr. Manoel Esteves dos Santos, Asp. Bertoletti, José Antonio de Almeida, Sr. José Costa, Srta. Leila Taier, Sr. José Bernardino Peixoto, Senhora Mercês Bini Couto, Pe. João Bosco de Oliveira, Srta. Célia Montrezor, Senhora Lígia Cardoso Assis, senhorinhas Mercedes e Eduarda Passarini. O magnífico Pe. Luiz Zver pronunciou um discurso que foi um primor de eloquência. E assim mais um passo em direção à prosperidade e cultura.

4. A coluna do C.A.C.,  por Pe. Luiz Zver
Há mais de um ano que nesta cidade
existe
vive
trabalha
uma sociedade civil,
"de direito privado
sem fins lucrativos",
conhecida sob a sigla pouco eufônica de C.A.C.
Por extenso: CENTRO ARTÍSTICO E CULTURAL DE SÃO JOÃO DEL-REI.
Quem é que, nesta cidade, ainda não conhece o C.A.C.?
Por esta ou por aquela razão, 
a cidade teve que travar conhecimento dêle.
Muitos até falam dêle:
uns, com ceticismo;
outros, com ironia e certa compaixão;
êstes, mesmo com paixão,
como se fala de futebol, 
da política 
ou da arte moderna;
aquêles, com indiferença,
como se fala do vento e da chuva,
de Kruschev ou de Lumumba;
outros, enfim, com entusiasmo e aprovação estimulante.
É natural que são sòmente êstes últimos 
os que falam certo,
os que vale a pena ouvir.
Ou alguém acha que não vale?!

Uma das características do C.A.C. 
é que êle se compõe de indivíduos inconformados:
dos que teimam em querer caminhar, 
quando a maioria pensa que é melhor ficar sentado;
dos que insistem em querer enxergar a beleza 
na cultura desprestigiada
na arte primitiva
no céu nublado
nas serras desnudas;
dos que acreditam na capacidade de realização 
e na bondade dos homens.                                                    
 
Com a experiência das realizações passadas, 
o C.A.C. pretende levar à execução, ainda êste ano:
uma II Tarde de Autógrafos
um Festival da Poesia Sanjoanense
um II Salão Sanjoanense de Artes Plásticas.
Mas disto falarei amanhã ou depois.
Porque agora o C.A.C. dispõe de uma coluna neste jornal.
Graças à generosidade da sua direção.
A coluna será possìvelmente diária 
e certamente será muito lida ao menos por três pessoas: 
por quem a escrever, 
pelo tipógrafo compositor 
e pelo revisor.
Obrigado ao "Diário do Comércio"
pela generosa cessão desta coluna.
Pe. Luiz

Após esse texto que é um poema, aparece em negrito a seguinte nota da redação do Diário do Comércio:
A partir de hoje o jornal será honrado com a palavra expressa do C.A.C.. 
Teremos a colaboração de seus elementos representativos na arte, na literatura e na ciência.
A nossa participação é um imperativo do progresso sanjoanense.
E como prólogo dessa nova e atraente coluna é sobremaneira honroso para nós publicar a apresentação do presidente do C.A.C., que nos mandou, como se vê, o seu otimismo e a sua esperança concentrados num verdadeiro poema.
A redação.

Fonte: Diário do Comércio, Ano XXIII, 8 de outubro de 1960, p. 1

5. Tarde de Autógrafos,  por Pe. Luiz Zver
 
Muitos se lembram da festa literária,  
realizada no ano passado, 
quando foi lançado nesta cidade 
o romance de Gilberto de Alencar, 
"Tal Dia é o Batizado".
Que dia foi? 27 de setembro, precisamente.
Muita gente já leu o livro. E gostou!
Poucos, porém, terão sopesado devidamente 
a importância cultural daquele acontecimento 
para São João del-Rei.
O lançamento de um livro novo, numa "tarde de autógrafos"
é fato que só se dá nas grandes cidades, 
no recinto quase místico das grandes livrarias, 
aonde acorrem os bibliófilos, 
os literatos, 
os críticos 
e os livreiros
em trajes solenes, como se fôssem a uma recepção diplomática
ou com o alvorôço de quem se prepara para ouvir 
o primeiro vagido de uma criança: 
o livro recém-nascido!
Ora, numa cidade que não dispõe de nenhuma 
autêntica livraria, 
embora possúa meia dúzia de tipografias
(quase tôdas bastante próximas ainda
dos tempos de Gutemberg),
o lançamento de um livro é um feito quase miraculoso. 
O C.A.C. pode com razão ufanar-se por tê-lo perpetrado.
A audaciosa idéia partira certo dia 
dêsse intelectual polimorfo, jurista e pedagogo, 
professor e literato, 
que é o Dr. Álvaro Viana.
E o C.A.C. "topou a parada", como se diz na gíria. 
E o fêz com honra e competência. 
É êste, por certo, um dos pontos luminosos 
na curta e turbulenta trajetória do C.A.C.                                             
 
Pois, meus caros dois leitores, 
tipógrafo e revisor, 
preparem-se:
Se Deus quiser, teremos em breve uma outra 
"Tarde de Autógrafos".
Esta vez, um livro de estréia, como se diz. 
Um belo livro de poesia autêntica.
"TURBILHÃO DE SONHOS".
De uma jovem e simpática poetisa SANJOANENSE.
Maria Amélia Porto Alegre Amaral
Data da festa: 29 de outubro.
Voltaremos ao assunto.
Pe. Luiz

Fonte: Diário do Comércio, Ano XXIII, 9 de outubro de 1960, p. 1
 
6. Juventude garrida,
Juventude querida!
 
Alto lá, rapazes e mocinhas!
Por favor, não leiam isto!
Impróprio para menores. Exatamente como no cinema.
O que aqui vai escrito, tem enderêço certo:
é para os adultos (chamados assim, porque seu registro
na paróquia e no cartório foi feito alguns anos antes);
é para os grandes (calça mais comprida, número maior
de colarinho e de sapato).
É natural que há outros critérios ainda para se medir a idade [adulta
e a grandeza, mas êstes não vêm ao caso.                                               
 
Um dos estribilhos mais estridentes, repetidos e desagradáveis (como certos anúncios de rádio, cantados em côro) é este:
A juventude de hoje é tão diferente!
A juventude de hoje está perdida!
Os filhos hoje são um desespêro!... 
Pois, no meu parecer, a juventude de hoje não é absolutamente pior do que a juventude de vinte, trinta, cinqüenta anos atrás.
Antes, sob muitos aspectos, é até melhor.
Não me venham dizer que não tenho experiência ou autoridade para afirmar isto. Posso apelar para um quadrante de século de  trabalho no meio da juventude, para a leitura assídua de uma parcela da vastíssima literatura pedagógica existente hoje no mundo e para o contacto continuado e troca de idéias com colegas especialistas na ciência da educação. Isto me daria autoridade no assunto, igual pelo menos à de um pai que educou uma dezena de filhos. (Aliás, os pais de uma dezena de filhos não se queixam da juventude de hoje: queixam-se os de um, de dois ou de três filhos apenas...                                       
 
O que há na verdade é o seguinte:
O mundo de hoje não é o de quinze, trinta ou cinqüenta anos atrás. Transformou-se radical e vertiginosamente.

A juventude de hoje pertence a êste mundo transformado. Os pais e mesmo os educadores são, na maioria, de um mundo ultrapassado. Nem uns nem outros estavam preparados para enfrentar a nova situação. Com a diferença, porém, que os educadores, quase todos, se deram conta, em tempo, de que estavam com a folhinha e o relógio atrasados, e procuram pôr-se em dia, atualizar-se.
E os pais? Ou não têm consciência do seu anacronismo ou teimam em permanecer nele. Salvo louváveis exceções, naturalmente.
Nunca se tratou tanto de educação, como hoje. Multiplicam-se círculos, semanas, congressos, jornadas, cursos e não sei que mais, tudo versando sôbre a educação da juventude. Mas nós sabemos como é difícil atrair os pais e fazê-los interessarem-se pela arte de educar... Quantos sabem que há em São João del-Rei um círculo de pais que se reúne uma vez por mês? Quantos intervêm? Pouco mais de meia dúzia! E os outros? Naturalmente, já são todos especialistas, entendidos, técnicos, doutores na educação!...
E fala-se ainda mal da juventude de hoje!
Juventude perdida? Difícil? Pelo contrário: ela é maravilhosa!
Os pais é que são muita vêz difíceis de serem arrancados do seu comodismo e se acham perdidos no seu saudosismo estéril.
Vamos procurar atualizar-nos? ⁷
Pe. Luiz

Fonte: Diário do Comércio, Ano XXIII, 11 de outubro de 1960, p. 1
 
7. Juventude maravilhosa!
Foi exatamente esta a expressão que empreguei ontem.
Nem tenho razões para retirá-la ou modificá-la. Confirmo-a. Em que pese a carrancudos pessimistas.
O fato de alguns acharem que a mocidade de hoje é desordeira, mal-educada, "transviada", deve-se em grande parte à diversidade de perspectivas ou, antes ao desnível das respectivas posições. Se alguém está sôbre um pedestal, à minha frente, terei que olhá-lo de baixo para cima: — Caramba, como você está alto!
Um trem pára na estação. Um passageiro desce e vai tomar café no bar. O tempo regulamentar expira e o trem se move, enquanto o passageiro, distraído, saboreia com calma os últimos sorvos. E de improviso, ei-lo agitando ameaçadoramente os punhos em direção do comboio que já vai longe e amaldiçoando a pressa do maquinista. E por cúmulo, a calma impertinente do garçon: — Cavalheiro, esqueceu-se de pagar o cafèzinho...
Os "grandes", em geral, estão demasiado absorvidos pelas suas preocupações e ambições. Acham que o trem é só por conta dêles.
Não lhes merecem a atenção os problemas dos moços.
E se êstes os resolvem por sua conta, chamam-nos de nomes feios.
O trem partiu e êles ficaram na estação.                                      

Mas quem dá atenção aos jovens,
quem lhes ausculta as pulsações descompassadas
e lhe interpreta com objetividade as radiografias do espírito,
fica admirado das profundezas a que podem descer 
ou das alturas a que por vêzes se alcandoram.
 
Quem assistiu, há pouco mais de um mês à organização da U.E.C.-União Estudantil Católica de São João del-Rei na séde da União Sírio-Libanesa, (está tornando-se o mais hospitaleiro dos clubes da cidade...), quem presenciou a abertura da I Olimpíada Intercolegial, no sábado passado, ou a instalação do Círculo Estudantil do Colégio Santo Antônio e outras manifestações da indomável fibra juvenil, não pode deixar desesperar da mocidade de hoje.
 
Ela tem ideais que não se reduzem aos divertimentos e prazeres.
É capaz de gestos generosos, que assustam o comodismo dos [adultos.
Tem arrojos que perturbam a paz confortável e sossêgo burguês.

É preciso ouvir como os moços falam,
entender o que dizem,
ler o que escrevem,
aceitar o que pensam.
Em seus cérebros novos se aninham idéias admiráveis.
Em seus corações germinam nobres ações.                                     
A mocidade de hoje (ainda que "transviada") merece a admiração dos adultos, pela simpatia que inspira, pelos feitos que realiza na política, nas artes, na ciência, nas letras, no apostolado também.
No ano passado o C.A.C. patrocinou o lançamento do livro de um quase-ancião, veterano nas letras, Gilberto de Alencar.
 Êste ano vai lançar o livro de estréia de uma poetisa quase-menina, e no entanto já largamente conhecida, Maria Amélia Porto Alegre Amaral.
Lá, a sabedoria de uma mente encanecida.
Aqui o viço, a frescura, a fôrça ascencional de um talento que desponta. E tenho certeza de que não haverá menor aceitação dêste botão que se abre do que houve daquele fruto sazonado.
Ah, juventude maravilhosa do terceiro quartel do século vinte! ⁸
Pe. Luiz

Fonte:Diário do Comércio, Ano XXIII, 12 de outubro de 1960, p. 1 ⁹

8. Palmas para o Sr. Patativa,  por Pe. Luiz Zver
 
Chegou também às minhas mãos uma cópia do boletim distribuído pelo popular motorista, sr. Patativa, no qual se sugere que do programa de comemorações da vitória eleitoral de 3 de outubro se risque "o bárbaro costume de fazer-se ouvir o ribombar dos rojões e o pipocar irritante dos foguetes".

Eu nada tenho a ver com a política.
Não porque me desinteresse.
Acho que ninguém deve desinteressar-se da comunidade e do modo como se governa o que os gregos chamavam de "Pólis",
os romanos, de "Civitas",
e o que nós chamamos de "Estado".
(Não pode deixar de constituir assunto de preocupação para ninguém ¹⁰), tanto mais que êsses conceitos são fundamentalmente distintos do conceito de "Nação",
de "Gens"
e mesmo de "Demos".

Sei, todavia, reconhecer o lugar que me cabe e acato com prazer o direito dos outros ao meu silêncio em assuntos que não são da minha alçada.
É partindo de outro ponto de vista que eu bato palmas ao originalíssimo e louvável apêlo do sr. Patativa. (E convido a todos os membros do C.A.C. a fazerem o mesmo).
Aproveitando a idéia apresentada pelo sr. Patativa, sugiro que o "bárbaro costume" se risque não só dos programas das comemorações políticas, mas também do das esportivas e ... ainda mais das festas religiosas. Transformar "dezenas de milhares de cruzeiros em auxílio às instituições de caridade", "converter cada rojão em um cobertor para quem tem frio e cada foguete num prato de comida para quem tem fome", constitui um programa de que nada pode haver de mais sensato.
Daríamos prova de muita falta de inteligência e de muita dureza de coração, se não compreendêssemos o valor dêsse apêlo e não lhe déssemos o nosso apoio incondicional.
Mas se, ainda que tarde, reconhecemos, por boca de um motorista inteligente, que a orgia do foguetório é um "costume bárbaro", aproveitemos a ocasião para iniciarmos discretamente uma reformazinha nos costumes dos nossos festejos e regozijos populares: que aos poucos se vá abolindo a atrasada, a horrorosa, a dispendiosa mania dos foguetes.
(O Sr. Patativa pede que seja gasto em favor dos pobres o dinheiro que se destinaria às despesas com foguetes. Nada de mais belo, de mais justo e de mais sensato. E daríamos demonstração de muita falta de inteligência e de muita dureza de coração, se não compreendêssemos o valor humanitário e cristão do apêlo do Sr. Patativa.
Mas eu quisera que se aproveitasse a oportunidade para se iniciar uma pequena reforma nos costumes dos nossos festejos e regozijos populares: que aos poucos se fôsse abolindo a atrasada, a horrorosa e a dispendiosa mania de foguetes.)

Por quatro razões: o foguete é anti-higiênico
anti-estético
anti-econômico
e também ... anti-litúrgico.
 
Direi amanhã alguma cousa sôbre cada qual dêstes "anti", se mo permitirem ¹¹. Por hoje, sr. Patativa, eu hipoteco à sua iniciativa tôda a solidariedade minha e a do C.A.C.
Seria quase para se desejar que se criasse um "clube anti-foguetes", cujo código teria apenas dois artigos:
a) Nunca soltarei uma bomba nem um foguete, nem um rojão, nem cabeça-de-negro nem busca-pé, nem ...
b) Para foguetes, em festas ou em qualquer circunstância, não darei nem um tostão (digo mal, um cruzeiro, pois o tostão é tão raro que já deve valer mais que um cruzeiro).
Minha gente, essa mania de foguetes para qualquer coisa é índice de mentalidade atrasada, cultural e socialmente falando.
São João del-Rei não é roça: é quase Paris...
E o Brasil não é Congo, Sudão ou Guiné; é ... Brasil, mesmo.
Pe. Luiz
 
Fonte: Diário do Comércio, Ano XXIII, 14 de outubro de 1960, p. 1
9. Obrigado, Sr. Lincoln!,  por Pe. Luiz Zver

Os latinos antigos diziam com o seu jeito sentencioso e cheio de bom sendo: É nas horas incertas que se discernem os amigos certos ("Amicus certus in re incerta cernitur").
Acredito e sinto que o C.A.C. tem no jornalista Lincoln de Souza um amigo certo e leal de tôdas as horas.
Toda vez que o desânimo tenta penetrar no coração, como o cupim numa viga do telhado, a defesa contra o inimigo invasor se apresenta espontânea sob a forma de um tônico revitalizador e benéfico e as névoas se dissipam ao sôpro do otimismo e da esperança.
A incompreensão de uns (difícil de explicar),
a hostilidade de outros (difícil de admitir),
e sobretudo a indiferença de muitos (difícil de suportar)
são contrabalançadas pela adesão entusiástica,
pela amizade calorosa,
pela lealdade incondicional de poucos.

O Sr. Lincoln de Souza está no número dêstes poucos.
 
Logo, ao tomar conhecimento da existência do C.A.C., simpatizou com êle. É que, sanjoanense apaixonado pela sua terra, viu no C.A.C. um movimento  que se endereçava todo em benefício dos valores culturais de sua cidade. (E quanto a isto, eu lhe garanto, Sr. Lincoln, que acertou cem por cento). E a sua amizade pelo C.A.C. se manifesta de tôdas as formas. Desta natureza e origem é também a sua preocupação diante das dificuldades de ordem financeira em que nos metem por vêzes nossas iniciativas culturais e artísticas, que custam dinheiro e nada ou pouco rendem.
Foi isto o que moveu nestes dias o sr. Lincoln a vir do Rio de Janeiro, sobraçando rolos de filmes que (embora com reduzido resultado financeiro) foram exibidos em duas sessões no Teatro Municipal. As dívidas do C.A.C. não foram canceladas desta forma, mas não há dúvida de que diminuíram um pouco.
Não menos útil para o movimento cultural do C.A.C. foi o donativo feito pelo sr. Lincoln de Souza de quatro livros sôbre literatura, com que se acresce a pequena biblioteca em formação, para pábulo intelectual dos sócios do C.A.C.
Esta coluna quer registrar hoje o meu agradecimento e o de todos os "caqueanos" ao sr. Lincoln de Souza e juntamente o desejo de que o seu exemplo encontre imitadores entre os cidadãos prestimosos e amigos autênticos desta cidade de São João del-Rei.
Pe. Luiz

Fonte: Diário do Comércio, Ano XXIII, 18 de outubro de 1960, p. 4

III. NOTAS DO AUTOR

¹  No livro Efemérides de São João del-Rei, volume I, 2ª edição, p. 112, CINTRA [1982] informa que, "em 8 de março de 1959, se deu a fundação do C.A.C.-Centro Artístico e Cultural de São João del-Rei, cujo 1º Presidente foi o Prof. Luiz Zver (SDB). Durante 10 anos prestou o C.A.C. relevantes serviços à cultura sanjoanense. Podemos considerar a citada instituição como precursora da Academia de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, desta cidade."
O próprio lançamento da 1ª parte das Efemérides (janeiro a junho) ocorreu em 3 de dezembro de 1963, às 20 horas, no Salão Nobre da Prefeitura e fez parte do programa das festividades do 250º aniversário de elevação de São João del-Rei à categoria de vila (1713-1963) promovidas com o apoio do C.A.C..

²  -->Fonte: http://edorigami.wikispaces.com/21st+Century+Teacher

³  Não sei dizer que razões levaram Zver a conservar, em meio a seus pertences, os textos de nº 4 a 9, escritos à mão pelo seu autor, hoje preservados no Centro Salesiano de Documentação e Pesquisa de Barbacena. Interpreto que os conservou em razão de sua relevância. Os outros três primeiros textos referem-se ao convite feito à sociedade são-joanense pelo seu presidente Zver para comparecer à solenidade de posse da primeira diretoria do C.A.C., ao relato da solenidade de posse da 1ª diretoria do C.A.C., escrita por Adenor Simões Coelho Filho, e, por fim, aos fatos mais relevantes percebidos pelo colunista social, presente ao referido evento.
 
⁴ Domingo, dia 26 de julho de 1959

⁵ Fernando Nóbrega, ministro do Trabalho, Indústria e Comércio no governo de Juscelino Kubitschek.

⁶ Pe. Osvaldo da Fonseca Torga

⁷ O texto, segundo os escritos de Pe. Luiz Zver, disponíveis no Centro Salesiano de Documentação e Pesquisa de Barbacena, continuava como os seguintes parágrafos:
"Quem assistiu há um mês à instalação da União Estudantil Católica de São João del-Rei, quem presenciou a abertura da I Olimpíada Estudantil sábado passado e o desfile de anteontem, que ausculta o descompassado pulsar do coração juvenil e compartilha a efervescência tumultuosa dos seus pensamentos, sente orgulho da juventude de hoje.
 
Como os moços falam! Como escrevem! Como agem! Como sonham!
 
O C.A.C. ano passado lançou um livro de um quase-ancião; êste ano lançará o de uma quase-menina. Num a sabedoria e arte consumada; no noutro a beleza viçosa, a frescura e a fôrça ascensional. E hão de ver como êste livro não agradará menos do que aquêle.
 
O C.A.C. quer prestigiar, apoiar a juventude e vibrar com ela.
Afinal de contas, a solução do problema — se algum problema há — não consiste em lamentar-se e amaldiçoar, mas em compreender e ajudar.
Que é que estamos fazendo pela nossa querida juventude, nós que nos arrogamos títulos de superioridade, e nos chamamos adultos (porque o nosso registro civil foi feito alguns anos antes) ou nos consideramos grandes (porque vestimos calça maior)?"
⁸ No lugar desta sentença final, nos escritos de Pe. Luiz Zver, disponíveis no Centro Salesiano de Documentação e Pesquisa de Barbacena, encontrei o seguinte parágrafo (que pode ter sido considerado pelo revisor muito erudito ou pedante, ou, por outro lado, muito agressivo e duro aos adultos):
'Nunca será demasiado o que tivermos feito pela juventude. Ajudemo-la a subir; não menosprezemos as suas realizações, nem nos enciumemos das suas glórias, se os novos fazem coisas que nós não pudemos ou não tivemos coragem de fazer. O velho ditador romano Sila, opondo-se às ambições do jovem general Pompeu, cuja glória lhe causava ciúmes, ouviu dêle esta finíssima resposta: 
"Cuidado, Sila! O sol que nasce tem sempre mais adoradores que o sol que se põe."'
⁹  Na edição do dia 14 de dezembro de 1960, p. 1 e 4, foi estampada uma Carta aberta ao Padre Luiz Zver, escrita por um rapaz de dezessete anos, expressando sua concordância quanto ao conteúdo dos dois artigos de Pe. Luiz, intitulados Juventude garrida, Juventude querida! e Juventude maravilhosa!, vazada nos seguintes termos:"Reverendíssimo Pe. Luiz,
Antes de qualquer outra coisa, desejo pedir-lhe que me perdoe esta grande audácia de tomar a liberdade de servir-me de nosso tão grande "Diário do Comércio" para dirigir-lhe algumas palavras:
Vossa Reverendíssima nem ao menos conhece a mim, que, no entanto, — posso afirmar — sou um de seus mais sinceros e fervorosos admiradores.
Sendo natural dessa bela São João del-Rei e residindo em Belo Horizonte, seu leitor assíduo do nosso jornal; e foi através dêle que me fui tornando, entusiasmado com seus maravilhosos artigos, o grande "fã" de V. Revma., que hoje sou.
Na verdade, aprecio deslumbradamente todos os seus artigos; mas dois, principalmente dois dêles, me deixaram realmente maravilhado. Refiro-me aos dos dias 11 e 12/10/60.
Como demonstrou o senhor, permita-me que o assim o trate, saber conhecer e compreender os jovens dessa geração, dêsse século!
Ah! padre Luiz, como seria belo se todos soubessem compreendê-los como o senhor o sabe! Não haveria, evidentemente, tantos desajustamentos e disparates como há.
Como o senhor disse: "os pais e mesmo os educadores são, na maioria, de um mundo ultrapassado" e não são os jovens que são os errados, os incompreensíveis e até os "transviados", como muitos dizem.
Se há algo que êles fazem e que não deviam, a culpa é exclusivamente dos pais e educadores. A êsses deveriam ser dirigidas as repreensões que os jovens recebem.
Pois, qual filho, atualmente, pode ter a liberdade e se sente à vontade para expôr a seus pais os problemas, tristezas, aspirações e até mesmo os conflitos íntimos de seu coração? Na realidade, quase nenhum. É por culpa dos filhos? Não. A culpa é dos pais que não sabem, não conseguem e nem ao menos procuram compreendê-los. O que sabem é sòmente humilhá-los, dizendo que antigamente era dêsse ou daquêle jeito. E isto chega a ferir a alma sensível dos jovens. Que importa "antigamente"? Estão vivendo o "agora". Os seus problemas são atuais, presentes e não passados.
São estas coisas, padre Luiz, e o sr. as compreende melhor que eu, que levam os jovens a tomar atitudes e praticarem ações não muito recomendáveis.
Qualquer criatura humana necessita de compreensão e estímulo. Sem estas duas coisas o desespêro pode entrar em qualquer alma, por mais pura que ela seja.
Poderia prolongar-me por muito mais; mas já lhe tomei bastante de seu precioso tempo.
Desculpe-me se algo por mim foi dito que não corresponda à verdade; mas sou ainda um simples adolescente de 17 anos e até mesmo não deveria haver tomado a presente atitude; mas fiquei tão contente em saber que ainda há pessoas como o senhor, por exemplo, que conseguem entender a nós jovens, que não me contive e resolvi dirigir-lhe estas humildes, mas sinceras palavras.
E por fim um apêlo: continue a procurar entender-nos, padre Luiz, também ensine aos outros esta grande capacidade que lhe foi dada por Deus.
Vivamos num mundo presente, que está repleto de coisas belas. Deixemos o que é obsoleto ficar enterrado com os anos passados.
Atenciosamente,
Carlos Fernando de Almeida" 

¹⁰ Neste texto, o que está entre parênteses só aparece nas anotações de Zver, no Centro Salesiano de Documentação e Pesquisa de Barbacena. 

¹¹ Infelizmente, no outro dia já havia outros temas a reclamarem a atenção do Pe. Luiz Zver. Por isso, Zver não mais voltou ao tema do "bárbaro costume" de se soltar foguete por qualquer razão. Entretanto, tive a sorte de localizar anotações de Zver no Centro Salesiano de Documentação e Pesquisa de Barbacena, onde se pode ler as seguintes razões para os "anti", que originalmente faziam parte do corpo do texto, a saber:
"A higiene desaconselha e condena êsse estrugir apocalíptico de rojões e de bombas que arrebenta os tímpanos, produz curto-circuito nos nervos e abala tôda a carcassa humana. Não sei porque não protestam os médicos especialistas em doenças de ouvidos, do sistema nervoso e os cadiologistas. Será por medo de perder clientes? Sem falar nos casos de freqüentes estouros nas mãos e do cheiro acre da fumaça da pólvora que embriaga até os cavalos.
 
A Estética igualmente é irreconciliável adversária das bombas. Já a palavra "bomba" é anti-estética (perguntem aos estudantes...). Se a música é arte divina, celestial, de tão bela que é, o foguetório é diabólico e infernal, de tão feio que é. No mundo dos sons não há nada tão feio como êste chiar furioso, de gato enfezado que sopra ou de cobra que silva, e dêste explodir ensurdecedor que espanta os pássaros e abala provavelmente até as nebulosas da Via Láctea.
 
Note-se, todavia, que não entendo envolver na condenação do foguetório, em nome da Estética, os fogos de artifícios, ou como se dizia antigamente, a pirotécnica. Aqui pode haver e muitas vêzes há real beleza e autêntico gôzo artístico. Assim, por exemplo, Roma há pouco encerrou os jogos olímpicos com maravilhosos fogos de artifício. Mas entre êstes, ainda que modestos, e certo foguetório, que se parece com a batalha de Itororó, a diferença é tão grande, quanto entre uma Orquestra Sinfônica e uma bateria de bumbos do exército congolês.
 
Quanto à Economia, a coisa é mais do que clara e mesmo clamorosa. Com o dinheiro queimado nos foguetões nos últimos dez anos nos campos do Athletic e do Minas poderíamos ter construído um discreto Maracanãzinho nesta cidade. E se as nossas igrejas são bonitas, bem conservadas e não necessitam de reformas urgentes e dispendiosas, com o dinheiro dos fogos queimados nas procissões, missas, quermesses, recepções, comícios e festas políticas ou cívicas, poderíamos ter resolvido o problema da mendicância, da falta de escolas, e até poderíamos deixar de pedir de esmola ao govêrno um colégio estadual, pois poderíamos construí-lo e mantê-lo com nossos próprios recursos. Não se diga que estou supervalorizando os foguetes. Ponha-se alguém a contar quantos foguetes se soltam aqui durante um ano e verificará que são verdadeiras fortunas as que assim se esbanjam.
 
E concluirei dizendo que não me parece menos condenável, como gritantemente anti-litúrgico o espoucar de foguetes durante as funções sagradas do culto. Os sinos, o órgão e a voz humana podem ser considerados instrumentos litúrgicos, mas de modo algum o foguete. É de péssimo gosto e de muito pouca formação litúrgica fazer explodir verdadeiras bombas na hora da consagração nas Missas solenes, em certas festas; o mesmo se diga quanto à bênção do SS. Sacramento.
 
Nenhum costume justifica e nenhuma liturgia permite êsse estourar que parece vir das vísceras das montanhas, distraindo o padre, ameaçando de colapso cardíaco os velhos e provocando o chôro das crianças um momento em que a fé e a piedade nos convidam a uma adoração reverente e silenciosa.
 
Os fabricantes de foguetes, os organizadores de comemoração e recepção, os fãs do futebol e os festeiros me desculpem, mas há tantas outras maneiras de ganhar a vida e de manifestar a própria alegria, que seria muito útil pensar em abolir aos poucos êsse costume semi-bárbaro e insensatamente dispendioso."


Meu mestre inesquecível Padre Luiz Zver . Francisco José dos Santos Braga

O pensamento do "incomparável" Pe. Luiz Zver, notável pedagogo e cultor das humanidades, neste Blog do Braga, o dignifica. Mas não basta que se diga sobre os méritos de alguém: é preciso desvendá-los, para que, à luz do dia, se possa admirá-los.
O leitor lusófono desse blog passa agora a beber de fonte limpa o conhecimento profundo que emanava dos lábios desse santo sacerdote que dedicou, de corpo e alma, 51 anos de sua vida à vida cultural de São João del-Rei.

Agradeço aos deuses o fato de ter convivido com esse portento e calo-me, pois "que outro valor mais alto se alevanta".
Tomando de empréstimo ainda outras estrofes de nosso maior poeta épico, julgo ainda caber à memória do epigrafado as seguintes:
"E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte."

Ouçamos, portanto, o que tem Pe. Luiz Zver a nos dizer:

Grandezas e Benemerências do Magistério *
Pe. Luís Zver . São João del-Rei . Minas Gerais

1. "Ordem geral: Apagar os faróis!"

Um poeta moderno, num belo poema recente, descreve a situação angustiosa que se apresentou para certas regiões da Europa, quando, durante a última guerra, por motivos estratégicos, o comando geral aliado expediu certo dia uma ordem que devia ser cumprida em todas as costas, portos, fortalezas do Atlântico, do Mediterrâneo e do Mar do Norte: "Apagar os faróis!"

Deixai, senhores professores e senhoras professoras, que vos recite alguns versos do poema:

"Apagar os faróis!"

Noite escura.
Hórrida ruge a tempestade.
Uiva lúgubre o vendaval,
Geme o vento e o temporal
Se mistura,
Em feérica claridade
Dos relâmpagos, com o troar
De mil vagalhões do mar.

Singra as ondas, minha nau!
Rompe, vence o vento mau!
Já está aceso ali o farol:
Ele é o norte, ele é o sol.

— Como assim?
"Todos os faróis se apaguem!»
Esta é a ordem do general.
Ele quer o "black-out" total.
Ai de mim!
E os abismos que nos traguem?
Que nos amortalhe o mar,
Sem uma luz a nos guiar?

Era assim como se Deus
Apagasse os astros seus,
Sol, estrelas, o arrebol,
Quando se apagou o farol.

2. O Centro de Estudos Pedagógicos.

Foi com o maior interesse, ilustrados ouvintes, que acompanhei o nascer e o robustecer-se deste Centro de Estudos Pedagógicos que congrega a elite intelectual de São João del-Rei e os maiores expoentes da sua cultura. Foi uma ideia feliz do Revmo. Sr. Pe. Ralfy Mendes, que o concebeu como uma irradiação da Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras e lhe traçou as diretrizes básicas; idéia que se concretizou graças ao "habitat" favorável em que a semente foi lançada. E' um "verbo que se fez carne" e que fazemos votos se perpetue entre nós, para o bem de cada um dos batalhadores da instrução, do elemento discente e, por ele, de toda a população da "urbs" e do município, de acordo com as altas finalidades para as quais o Centro foi fundado.

Terei grande satisfação, senhoras professoras e senhores professores, se as minhas palavras tiverem o poder de enamorar-vos um pouco mais da vossa vocação, de estimular-vos ao seu apreço e ao seu desempenho sempre mais perfeito, apesar dos inegáveis e ingentes sacrifícios que o magistério impõe aos que lhe consagram a vida.

Não temo ser desmentido ao afirmar que o Centro de Estudos Pedagógicos dá a São João del-Rei uma posição pioneira entre as cidades de Minas, e quiçá do Brasil, visto que não nos consta da existência, até o momento da sua fundação, de instituição similar alhures, embora quem quer que a considere com um pouco de penetração, deva reconhecê-la de indiscutível utilidade.

Não somos um sindicato, nem uma simples associação de classe; somos isto e muito mais: somos sobretudo uma instituição especificamente cultural e formativa, para aperfeiçoamento e pesquisa no campo educacional.

Num estudo recente publicado pela UNESCO, sobre a "Preparação do Pessoal Docente" se diz que "os educadores têm tendência para trabalhar isoladamente; raramente têm ocasião de se verem no trabalho uns aos outros, de colaborarem e de compararem suas experiências". Por isso se sugerem alguns meios que se julgam aptos para desenvolver o senso de compreensão social entre os mestres no exercício das suas funções. Entre tais meios se aponta a "Criação de Centros de estudos em que se organizarão conferências, cursos especializados, mesas redondas para trocas de idéias e participação de experiências".

Creio que não seria fora de propósito que a UNESCO tomasse conhecimento da existência do Centro de Estudos Pedagógicos de São João del-Rei.

3. Vocação e profissão.

Cientemente e de propósito empreguei há pouco, referindo-me ao magistério, a palavra vocação e não profissão. Creio que há profundas diferenças entre o profissional de qualquer ofício ou arte liberal e o mestre ou professor, nem há termo ou medida comum para a avaliação das respectivas grandezas e conceitos. Para servirmo-nos da linguagem matemática, podemos afirmar que magistério e profissão, quer técnica quer liberal, são grandezas incomensuráveis.

Quando há três anos se tratou da majoração do salário mínimo na indústria e no funcionalismo, houve quem inconsideradamente propusesse que fosse estabelecido também o salário do professor e se fixasse o "preço" de uma aula. E foi com justa indignação e mordaz ironia que um jornalista perguntou se havia bom-senso em tabelar o ensino como se tabela o feijão, o toucinho, uma corrida de táxi ou a lavagem de um automóvel. Há algo de comum entre a prestidigitação de uma datilógrafa, a força muscular de um carregador portuário, a perícia de um motorista de caminhão ou mesmo a eficiência de um técnico-agrônomo, de um lado, — e, de outro, o desvelo materno de uma professora primária ou o labor científico de pesquisa de um professor de universidade? Se quiséssemos igualá-los no mesmo plano, cometeríamos o mesmo disparate daquele, que entrou numa livraria perguntando pelo preço de cinco quilos de livros científicos ...

4. Paternidade e sacerdócio.

Não, o professor não é propriamente um profissional, apesar da raiz comum dos vocábulos. Em certo grau e modo ele participa tanto da condição de pai como de sacerdote, visto que o magistério não prescinde do que constitui o elemento essencial de um e de outro. Com efeito, o elemento essencial da paternidade, e especialmente da maternidade, é o amor, e o do sacerdócio é o sacrifício. Ora, o ensino, especialmente da base, exige amor e sacrifício em grau não menor que ciência e técnica.

E é por isso que o Papa Pio XII aconselha que o ensino primário seja preferivelmente confiado a mulheres, porque são elas mais capazes de amar e de sacrificar-se do que os homens, sem que com isto queiramos diminuir o mérito destes.

Eis as palavras do Papa: "Tratando-se da primeira infância, é conveniente que a educação seja confiada à mulher, a qual deve portanto esforçar-se por enriquecer seus dons inatos de intuição e de sentimento por uma importante bagagem de conhecimentos e de experiências oriundas das ciências pedagógicas. Formar uma professora para a infância é como formar espiritualmente uma mãe, com a diferença apenas de que esta última se torna educadora em virtude da própria natureza previdente, enquanto que a educadora por profissão deve desenvolver em si, por seu esforço e boa vontade, a alma maternal".

5. A questão do salário.

Se o magistério participa da natureza da paternidade, se o professor é verdadeiro pai, como a professora verdadeira mãe, então podemos afirmar que, se o artífice, o profissional dá ao seu cliente algo do seu e em troco recebe a conveniente paga, o professor e a professora, à guisa de pais, dão aos seus alunos algo de si, uma parte do seu próprio ser, um pedaço da sua própria alma, se ela pudesse ser repartida em pedaços. E é por isso que o ensino não pode ter salário nem preço justo. Por quanto, com efeito, venderia alguém um braço, um olho, um litro de sangue ou alguns anos da própria vida? Movidos por um grande amor, poderíamos dar todas estas coisas, não porém vender.

Mas não é verdade que o porteiro ou o varredor analfabeto de um banco são, às vezes, mais bem pagos que uma professora primária? Mas isto acontece justamente por estar o trabalho magisterial e educativo muito além de qualquer preço. Ainda que o varredor quantitativamente recebesse muito menos, haveria sempre mais adequação do seu salário com o seu trabalho, do que entre estes mesmos dois fatores em se tratando da professora. Aliás, um dos maiores educadores do Brasil, Everardo Backheuser, diz a respeito: "Quem aspira a retribuições generosas não deve procurar o magistério. Aí o máximo que se obtém são as recompensas da glória, das honras que a sociedade tributa (quando tributa ...) às suas nobres funções. As pessoas com real vocação para educadores suportam com galhardia essa situação, sorriem da miserável retribuição que lhes chega a troco de tão grandes dispêndios de forças. E quantas vezes ainda tiram do magro bolso quantias para melhoria do ensino nas respectivas classes e escolas. O desinteresse pela riqueza, acaso pelas comodidades da vida, ou seja o espírito de sacrifício, precisa ser pois um dos adornos do educador".

6. Rafael e Tobias.

Notai bem que é uma situação extremamente humilhante e embaraçosa, não já para o professor, mas para a comunidade cívica e para os poderes públicos (quando estes e aquela são capazes de avaliar o fato) ver os professores, seus guias, seus mentores espirituais, fazerem fila diante dos guichês da pagadoria para reclamar seus vencimentos, à guisa dos servidores da limpeza das ruas, dos operários do serviço de calçamento de estradas ou dos guardas do policiamento noturno ... A comunidade civil e os seus regidores deveriam sentir-se sumamente honrados em poder oferecer-lhes uma parte do que lhes devem, pois tudo o que lhes devem jamais poderiam dar.

Dever-se-ia repetir a cena descrita na Sagrada Escritura do Antigo Testamento:
Quando Tobias, filho, voltou da sua aventurosa viagem e contou aos pais quantos benefícios lhe dispensara durante a mesma o seu estranho companheiro, o velho Tobias pai puxou o moço pela capa a um canto da casa e entre os dois se travou uma discussão em cochichos, para que não fossem ouvidos pelo arcanjo:
Tobias pai: "Que poderemos dar a ele em recompensa?"
Tobias filho: "Pois é isto o que também eu pergunto: Que lhe poderemos dar? Veja quantos favores me fez: levou-me e trouxe-me são e salvo, juntamente com o dinheiro que fui buscar; salvou-me das fauces do tubarão, que queria devorar-me; ao senhor restituiu-lhe a vista e a mim ainda me fez achar uma linda noiva, da qual prudente e caridosamente antes expulsara o demônio ...
Tobias pai (suspirando como de alívio, ao pensar no que poderia ser a sua velhice, tendo em casa uma nora endiabrada...): "Já por isso só o nosso amigo merece uma grande recompensa".
Tobias filho: "Tenho uma idéia, meu pai: poderíamos oferecer a ele metade de tudo o que eu trouxe ..."

E então ambos foram ter com o anjo Rafael e começaram a rogar-lhe insistentemente, e quase a forçá-lo, que se dignasse aceitar a metade do tesouro trazido de Rages ...

Sim, meus senhores, o magistério traz à sociedade benefícios tão grandes que para ele não há salário, nem mínimo, nem máximo, que se possa dizer proporcionado ou justo, por ser ele, não uma profissão, mas uma vocação, uma paternidade.

7. Ensino, função sacerdotal.

Disse há pouco que o magistério participa também da natureza do sacerdócio. Informa-nos a história da educação que por muito tempo o magistério foi função exclusivamente sacerdotal. E hoje continua sendo um dos três grandes ofícios de que é revestido o sacerdote católico: sacrificar, oferecendo a Missa; santificar, administrando os sacramentos; e ensinar, pelo ministério da palavra.

O professor e a professora, leigos, não podendo dizer Missa nem administrar sacramentos, participam do sacerdócio ensinando. E aí está mais uma razão que corrobora e confirma o que disse há pouco: assim como não se paga uma Missa, que é de valor infinito, nem há preço que corresponda ao benefício de uma confissão ou do batismo, não há também paga adequada para o ensino.

O magistério é na verdade um sacerdócio sublime; e isto nos leva a uma outra ordem de idéias que realçam ainda mais as grandezas da vocação magisterial.

8. Magistério e sociedade.

Pergunta S. João Crisóstomo: "Que há de mais sublime do que governar os espíritos e formar os costumes da juventude?"

Na ordem natural somente a maternidade se pode dizer mais excelente do que o magistério.

Na sociedade organizada e civil nenhuma classe de pessoas é mais benemérita do que a dos professores, pela simples razão de que sem ela nem pode haver sociedade organizada e civil, por dependerem dela todas as demais classes. Não há médico, nem engenheiro, nem técnico, nem padre, que pela própria personalidade intelectual e profissional não seja devedor ao magistério, o qual unicamente é auto-suficiente, dependente somente de si.

Um médico não faz outro médico, a não ser que seja médico-professor e ainda assim, servindo-se de "material" já trabalhado pelo professor simplesmente tal. Do mesmo modo um engenheiro não faz outro engenheiro; mas um professor faz outro professor, como faz ou fornece elementos para todas as demais profissões.

9. Fins remotos do ensino.

E' fácil de perceber por aí que é tremendo o poder que os professores têm em suas mãos, embora dele usem sem ter muita vez inteira consciência disso.

Em primeiro lugar, completam, de certo modo, a obra de Deus Criador, desenvolvendo pela arte educativa as faculdades que Ele infundiu no ser humano. O homem se torna mais homem, quando se instrui; ora este — tornar-se mais homem — depende dos mestres. Com São Paulo podem eles dizer com santa ufania: Somos os ajudantes de Deus. "Dei enim sumus adiutores" (1 Cor 3, 9).

Em segundo lugar, aumentam o número dos conhecedores do próprio Deus, dos Seus adoradores e possuidores da bem-aventurança eterna, quer se trate da ministração da ciência da religião, quer dos demais ramos do conhecimento, os quais, se ministrados honesta e conscienciosamente, não podem deixar de estreitar as relações do homem com o seu Criador, se é verdadeira a célebre sentença de Bacon, que pouca ou falsa ciência pode às vezes afastar de Deus, mas que uma ciência profunda dele só nos pode aproximar.

Em terceiro lugar, o professor e a professora asseguram um futuro melhor para o indivíduo, visto que os conhecimentos adquiridos nos verdes anos não são como a roupa que usou em pequeno e abandonou, por estreita e curta, quando o corpo se alongou e engrossou; mas formam parte inalienável da sua bagagem definitiva, ou melhor, da sua personalidade. Não se diz lá no livro dos Provérbios que o homem, mesmo quando envelhecer, não se apartará do caminho que trilhou na juventude?

Nos joelhos maternos, antes de tudo; à sombra da Igreja, depois; e finalmente nos bancos escolares é que se formam os heróis, os santos, os benfeitores da humanidade.

Simón Bolívar declarou que a Grande Colômbia era devida, não ao seu talento militar, nem ao seu tino político, mas ao seu velho professor, que tinha instilado nele ideais de liberdade e de amor pátrio.

E sobre este assunto quanta coisa se poderia dizer! Poderíamos colher material abundante para uma outra conferência na qual se poderia dissertar do influxo da escola na formação dos grandes homens e dos indivíduos comuns, em geral.

Ao pé de todos os monumentos erguidos em honra dos sábios e dos heróis, deveríamos colocar sempre uma estátua que representasse a professora primária, como a dizer: Tu não serias o que és, se eu não tivesse sido o que fui: tua primeira mestra!

10. Arquitetos de um mundo melhor.

Em quarto lugar, finalmente, na escola os professores forjam o futuro das nações e da humanidade em geral. E' este um fato de tão transcendental importância, que nem podemos avaliá-lo em toda a sua extensão.

No dia 24 de outubro do ano passado, o Papa Pio XII, num discurso dirigido a normalistas, afirmava: "Para assegurar à Igreja e à sociedade um futuro mais sereno, nada pode ser mais decisivo e eficaz do que inclinar-se sobre os tenros rebentos das novas gerações, desde a sua primeira infância, para orientar o seu desenvolvimento na direção da verdade e do bem".

Eis o que fazeis especialmente vós, professoras primárias: inclinais-vos sobre os tenros rebentos das novas gerações para orientá-las na direção da verdade e do bem. Quando estas gerações deixarem de ser novas, poderá — graças a vós — haver mais serenidade para a Igreja, mais paz para a sociedade humana.

E' estribilho rebatido e requentado que o futuro pertence à juventude. Ora, a juventude está nas nossas mãos; é massa que nós estamos amoldando. Logo o futuro está nas nossas mãos. Este fato tem significação profundíssima e deve ter uma repercussão tremenda na nossa própria vida.

11. Consertar o Brasil.

As jeremiadas sobre a situação precária e os males que afligem o mundo em geral, e o Brasil em particular, se avolumam de tal maneira, que já abarrotam as redações dos jornais, sufocam os microfones das estações de rádio e envenenam com o seu amargor todas as conversas. Tudo vai mal e nada há que preste, especialmente o governo . . .

E quando deveríamos todos — para usar uma expressão vulgar — cuspir nas mãos, arregaçar as mangas e pegar rijo na ferramenta, pondo-nos a trabalhar para por um dique à inundação dos males que lamentamos, perdemos o tempo e as energias em críticas estéreis, aguardando um mágico que venha salvar a humanidade periclitante.

E, afinal, quem há de consertar o Brasil, se é que ele precisa e é suscetível de conserto? Serão os políticos? Mas são quase sempre eles os que o enterram. Serão os técnicos? Quem, senão eles, lhe entrava burocraticamente a marcha, em vez de impulsioná-lo para o progresso? Se há quem pode e deve por um remédio eficaz aos males lamentados, estes são os educadores da juventude. Hoje não, amanhã também não, mas depois de amanhã, sim, o Brasil poderá ser tal qual nós hoje quisermos que seja, formando agora os governantes, os legisladores, os magistrados, o povo de amanhã.

Somos nós, os professores, que — talvez inconscientemente — damos feição própria a cada povo, a cada século, a cada civilização.

Se nas primeiras décadas deste século tivesse havido um professorado numeroso, competente e sacrificado, hoje os horizontes da pátria seriam menos carregados.

Se o findar do século presente for para o Brasil próspero e tranquilo, a nós, professores de hoje, caberá, em grande parte, o mérito. Mas não nos serão poupadas acerbas críticas e a execração, quiçá, dos filhos dos nossos alunos, se por nossa ineficiência, males semelhantes aos que hoje afligem a humanidade, infelicitarem também os cidadãos do porvir.

12. Lições da História.

Consultai a história e me dareis razão. O período de maior esplendor da Grécia antiga é assinalado pela atuação de admiráveis mestres, como Sócrates, Aristóteles, Platão. Foram eles que fizeram o século de Péricles, e não vice-versa. Quando, porém, nas escolas gregas as cátedras foram ocupadas pelos cínicos, os céticos, os sofistas, a Grécia deixou de brilhar, e uma nação, que se tinha coberto de glória dispersando os incontáveis exércitos de Ciro e de Dario, caiu sem combate aos pés de Roma, cujas legiões fizeram empalidecer todo o esplendor de Salamina, das Termópilas e de Maratona.

A própria Roma assinou o decreto da sua ruína, quando a educação dos seus filhos foi confiada aos escravos e não mais aos eruditos e austeros retores dos tempos da república. Como poderia o professor escravo e estrangeiro, de uma nação vencida, incutir sentimentos de honra e de justiça nos ânimos juvenis, daqueles cujos pais lhe tinham destroçado a pátria e feito a maior das injustiças, tirando-lhe a liberdade?

Que é que deu tanta glória ao Sagrado Império Romano-Germânico, senão as admiráveis escolas conventuais e as excelentes universidades da Idade Média, onde pontificavam mestres extraordinários, como Alberto Magno, Alexandre de Hales, Duns Scot e Tomás de Aquino? Bem compreendera a importância do ensino um imperador como Carlos Magno, que era analfabeto, mas fazia questão de visitar as escolas, assistir às aulas, castigar pessoalmente os alunos preguiçosos, prestigiando assim o mestre.

Foram os mestres de escola, especialmente, e os professores os que prepararam a Revolução Francesa, e vós sabeis que foi nas universidades de Coimbra e de Paris que os Inconfidentes se imbuíram dos ideais de liberdade e de independência.

Quem preparou o advento do nazismo alemão e do fascismo italiano foram os professores que no final do século passado e no começo do presente enfararam a juventude do seu tempo com as megalomanias de Nietzsche e com as loucuras do seu Zaratustra e com o chauvinismo nacionalista de Gioberti e de Mazzini.

Por outra parte, visitemos os países mais adiantados, cujo progresso admiramos e talvez invejemos, os Estados Unidos, Canadá, os Países Escandinavos, Finlândia, Suíça, França, Inglaterra, e verificaremos que a causa do seu adiantamento está precisamente na sua perfeita organização escolar, no preparo técnico e no prestígio de que gozam os seus mestres, os verdadeiros artífices das transformações sociais que nestas nações se operaram no decorrer dos últimos séculos.

Por aí compreendereis como ninguém jamais fez um mal tão grande ao Brasil, quanto o Marquês de Pombal, quando expulsou de nosso país os jesuítas, que tinham sido seus mestres quase exclusivos nos séculos XVI, XVII e XVIII. Com aquele mal-aventurado gesto Pombal empurrou a nossa história e a nossa civilização de um século para trás.

Sim, prezados ouvintes, nós que ensinamos a história e às vezes, lhe escrevemos os compêndios, talvez não tenhamos reparado que quem faz a história são os nossos alunos, imbuídos de nossas idéias, e somos nós que lhes fornecemos o material e até lhes traçamos os planos.

13. Os do outro lado.

Os comunistas, que são astutos e perspicazes, compreendem, talvez melhor do que nós, o fato da total dependência do porvir de uma nação dos mestres de hoje. Tive oportunidade de verificar as coisas de perto: os governos dos países dominados pelo comunismo, cientes de que não lhes é possível amoldar de acordo com a sua mentalidade a população toda, cujos 90% lhes são contrários, contentam-se e exigem que sejam verdadeiramente comunistas estas três classes de pessoas: os funcionários do Estado, pois, em fim de contas, são eles os que governam; os oficiais do exército e da polícia, pois são eles os que sustentam o governo; os mestres de escola e os professores secundários, pois são eles os que formam os futuros governantes e as futuros oficiais, garantindo, assim a continuação do regime. E um sagaz e eficiente chefe de Estado comunista disse certa vez: "Admito que um sapateiro faça bons sapatos, apesar de não ser comunista, e que um engenheiro monte com perfeição uma usina hidrelétrica, ainda que não pertença ao partido. Mas não me entra na cabeça como um mestre-escola possa formar bons cidadãos do Estado socialista, se ele próprio não for completamente penetrado do pensamento e convicções socialistas".

14. Responsabilidades maiores.

Caros colegas de magistério, tudo o que vos disse até aqui nos faz pensar na nossa enorme responsabilidade, quer perante a nação e a humanidade, quer perante as próprias crianças e os jovens, sobre os quais exercemos uma tremenda, incoercível influência. Se a juventude é moralmente sadia e intelectualmente bem orientada, — não inteiramente — mas em grande parte o mérito é nosso. Em boa parte é nossa a culpa, se se dá o contrário. Flávio Silveira Lobo escreveu há pouco num jornal carioca: "Cada vez que um menino se perde, há um adulto que falhou". Nem sempre, mas muitas vezes esse adulto é o professor ou a professora.

Mas este fato nos comunica também estímulo, para termos na devida conta o magistério e nos compenetrarmos bem da excelsitude da nossa missão.

São os professores os anônimos construtores das grandezas de uma nação, os artífices silenciosos da sua glória, os operários ignorados que na oficina da escola forjam o seu porvir.

Na base de toda a estrutura de um povo está uma escola e no topo da pirâmide dos valores nacionais se encontra uma professora, um educador. Por isso nenhuma instituição cultural de um país é tão importante como a Escola Normal e as Faculdades de Filosofia, quartéis que fornecem à pátria estes soldados sem armas, estes artistas da instrução e da educação, que, segundo São Gregório de Nazianzo, são a arte das artes, a ciência das ciências.

15. O dever dos outros.

Um derradeiro pensamento: de tudo isto se deduz o dever que cabe aos poderes públicos e à comunidade de prestigiar o mestre. Mas para que isto se dê, é preciso que o próprio professorado tome a iniciativa de uma campanha de âmbito universal para a própria valorização. E' que nós somos uma classe social "sui generis": é nossa missão e nosso dever ensinar tudo a todos; diretamente às crianças, indiretamente aos pais e aos próprios governantes. Entre as coisas que lhes devemos ensinar, são os deveres que têm para conosco ...

A publicação da UNESCO, a que me referi no começo desta palestra, diz a este respeito: "A função docente será honrada, se ela for exercida por mestres dotados de uma personalidade irrepreensível, bem preparados para a sua tarefa e altamente qualificados. A comunidade julgará a função docente pela conduta e valor técnico dos que a exercem. E poderá igualmente ser tentada a adotar a idéia que se faz o mestre da sua própria função. Julgamos que as Escolas Normais muito podem fazer para realçar o prestígio da carreira magisterial, fazendo compreender aos seus alunos o grande valor social dos serviços que são chamados a prestar à humanidade".

16. Voz dos alunos agradecidos.

Felizmente, seria injustiça dizer que a função, ou antes, a missão de mestre e professor não seja devidamente apreciada e que não haja ricas poliantéias de hinos de louvor, que a humanidade agradecida ergueu, especialmente nos tempos recentes, a quem lhe serve de guia, carregando à sua frente o brandão do saber. Basta folhear as numerosas páginas da literatura de qualquer país.

Se há na antiguidade um poeta como Horácio Flaco, que se lembra com pouca saudade do seu professor Orbílio Pupilo, a quem chama de Terrível, "plagosum... Orbilium", a causa está principalmente na "ferŭla"¹ e na "scutĭca"², que, segundo o testemunho de um condiscípulo, Domício Marso, o velho mestre romano manejava com excessiva facilidade... Mas em compensação quantos homens há que se recordam com comovida gratidão dos seus preceptores e lhes dedicam páginas de admirável beleza literária!

Paul Renaudin nos fala de Mademoiselle Duret, como um filho falaria da própria mãe, e Rétif de la Bretonne traça um belíssimo retrato do seu velho professor, "le respectable Berthier". E quem é que não leu o poema "L'instituteur"³, de Vítor Hugo, em que o poeta apostrofa os meninos, "gentis algozes", que crucificam o velho mestre mártir cujo cavalete de tortura é a cátedra, à maneira de São Cassiano, o mestre-escola de Roma, a quem mataram na sala de aula os seus próprios alunos a golpes de estilete de escrever?

«Saint et grave martyr changeant de chevalet,
Crucifié par vous, bourreaux charmants, il est
Votre souffre-douleurs et votre souffre-joies».

17. «Cornélias, mães de cem Gracos».

E com que respeitosa ternura descreve Humberto de Campos a figura "frágil, doce, triste e silenciosa" da sua professora, a "mestra Marocas"!
"Ao evocar neste momento a sua figura discreta e melancólica, em cuja face dolorida se refletia um drama interior, acodem-me algumas reflexões oportunas, que podem ser ajustadas à história e à vida de quase todas as ... educadoras sem títulos ou recompensas oficiais, Cornélias, mães de cem Gracos, que foram para o serviço da Pátria, dando-se em holocausto cotidiano, centenas de cidadãos. E' de imaginar o que padecem esses corações afeiçoados, tendo de perder, pelo afastamento, cada ano uma dezena desses filhos adotivos ... Os moços em geral são como os pássaros: emplumada a ave, abandona o ninho, que a aqueceu e o bico que a alimentou. E nunca mais, no espaço imenso, reconhece a ave que, quando implume, a agasalhou e protegeu. A professora primária, que nos fez digerir a primeira semente do alfabeto, é essa ave generosa e magnânima, reveladora da imensidade e do mundo"⁴.

Cordélia Gross, professora primária de Nova York, descreve este estado de alma, da mestra que se separa dos alunos aos quais instruiu, educou e amou como filhos. Seu artigo, publicado recentemente por uma popularíssima revista, já é só por si uma epopéia e um programa: "Ensinar é amar".

18. O "Mestre"

Mas o maior estímulo para o bom desempenho da missão de ensinar, minhas senhoras e meus senhores, recebemo-lo daquele que disse: "Todo aquele que receber em meu nome um desses pequeninos é a mim que recebe" (Mc 9, 36).

Daquele que é o caminho, a verdade e a vida.
Daquele que é o Mestre por antonomásia: "Magister", como O chamavam simplesmente os que dele se aproximavam.
Ele nos disse um dia: Ide e ensinai!
Quando transpomos a soleira da porta de uma sala de aula, a Sua sombra nos acompanha.
Quando pacientemente nos debruçamos sobre a carteira de uma criança, o Seu olhar complacente nos observa.
Quando desvendamos a luz do saber às mentes tenras dos pequeninos, o Seu amor nos inspira e a Sua mão nos abençoa.
No programa-convite de formatura do ano passado, da Escola Normal Nossa Senhora das Dores, desta cidade, as professorandas colocaram este delicado pensamento: "Senhor, Tu que ensinaste, perdoa que eu ensine, que leve o nome de mestre, que tiveste sobre a terra".

Um educador do século XVII, comentando a palavra de Jesus, "Um só é o vosso mestre, Cristo", diz que todos nós que ensinamos somos uns sub-mestres, "hypodidáscaloi"; diríamos hoje, professores auxiliares ou professores assistentes, de Cristo, que é unicamente mestre catedrático.

19. Toda escola é um farol.

Termino, reportando-me aos faróis do início desta conferência: Nas trevas da ignorância, nas procelas desta vida, no mar borrascoso deste mundo, de que somos navegantes, cada escola é um farol, que espadana luz e aponta um roteiro. Nós somos os seus custódios, os seus zeladores. Não deixemos que o farol se apague. Mantê-lo aceso ou acendê-lo onde não houver é cumprir a mais bela tarefa que nos possa ser confiada na vida: é executar aquela missão, é cumprir aquela ordem que das plagas palestinenses fez chegar aos nossos ouvidos Cristo, o Mestre, o qual, para conservar-nos humildes e para fazer-nos compreender a excelsitude da mestrança, não quis que usássemos títulos pomposos: "Vós, porém, não vos chameis mestres, porque um só é o vosso mestre, Cristo"; mas que, apesar de tudo, se dignou associar-nos ao Seu magistério, dizendo-nos: Ide e ensinai!

Notas do autor do blog:
¹ Vara (para castigar as crianças e os escravos)
² Chicote feito de correia
³ Poema intitulado "Le Maître d' études" do livro "Les Contemplations" de Vítor Hugo.
⁴CAMPOS, Humberto de. Memórias, p. 160-63. São Paulo: Opus, 1983.

*) Conferência pronunciada no Centro de Estudos Pedagógicos de São João del-Rei pelo Pe. Luiz Zver, Professor de Filologia Românica na Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras.
Publicada pela Revista de Cultura Vozes, Ano LII, fevereiro de 1958, p. 109-123, Petrópolis, RJ.

Fonte: Blog do Braga
Francisco José dos Santos Braga é membro da Associação Amigos de São João del-Rei

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