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Centenário . Grupo Escolar João dos Santos . Jota Dangelo

Descrição

Que me desculpem os eventuais leitores desta coluna, mas hoje vou capitular ao sentimentalismo e nem me incomodo de ser tachado de piegas, talvez um tanto quanto gagá, apegado às coisas do passado. É que meu grupo escolar está fazendo 100 anos e eu, João Sabão, com muita honra, não poderia deixar de reverenciá-lo numa homenagem modesta, mas que brota do mais recôndito das minhas emoções.

Esta é uma das vantagens de nascer em cidades históricas: se não é possível manter todos os pontos de referência de nossa infância e adolescência, pelo menos a maioria deles se conserva, malgrado a fúria da especulação imobiliária e a interpretação equivocada do que seja o progresso. O meu João dos Santos está ali, ancorado na Hermílio Alves, ladeando o Lenheiro, como estava quando eu, menino, recebi em suas dependências as primeiras letras, as primeiras lições, as primeiras diretrizes culturais. Naquele tempo tudo ali parecia ter dimensões colossais: as salas de aula, o pátio interno, o terreno do fundo, emoldurado por árvores onde os bichos-da-seda fabricavam seus casulos.

Estudei ali no tempo do Estado Novo, em cadernos que traziam a efígie de Getúlio Vargas na capa, ou um soldado empunhando um fuzil: eram os cadernos "Avante". Havia um culto nacionalista exacerbado, como é próprio dos governos chegados ao totalitarismo. Todas as manhãs, antes do início das aulas, havia uma saudação à Bandeira. Muitas vezes recitei poemas triunfalistas nestes eventos e, certamente, foi assim que comecei a tomar gosto pelo teatro, pela arte do ator e do dramaturgo. Esta incipiente vocação foi amplamente estimulada pelas professoras Loló e Josefina Carvalho, duas pessoas que guardo nas minhas lembranças com afetuoso carinho. Eram, as duas, responsáveis pelas festas de fim de ano do João dos Santos. Há, na verdade, um séqüito de personagens que não saem de minha memória quando falo do João dos Santos: D. Amélia Ferreira, D. Lourdes Chagas, D. Beatriz Leite, D. Elza, minhas tias Margarida e Zizinha, minha prima Bolia, todas professoras, além dos meus colegas contemporâneos, como o Odair (que gostava de desenhar), Gilmara, Terezinha, Wilson Galinha-Preta, todos devidamente instruídos para responder à altura se algum Maria Torresmo (os alunos do Maria Tereza) nos chamasse de João Sabão...

Vez ou outra, sonho com aqueles tempos, a gente atravessando a Ponte do Suspiro balançando os arames que protegiam os lados da ponte, abrigados do frio de junho pelas Capas Ideal, nosso agasalho mais comum. É bom saber que o João dos Santos está ali, do mesmo jeito que o conheci. Assim, posso imaginar que atravessando seus portões, volto a ter meus sete anos de idade...

Fonte: Gazeta de São João del-Rei

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