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Serra de São José . Luiz Cruz

Descrição

Josué Trindade chegou a minha casa exatamente às 11:15 h, do dia 3 de setembro, quarta-feira, para avisar-me que havia fumaça no alto da Serra de São José. A serra é uma APA – Área de Proteção Ambiental, desde 1990, e um Refúgio da Vida Silvestre, desde 2004. Portanto, uma área legalmente protegida por abrigar uma rica biodiversidade. Imediatamente comuniquei a central do programa Força Tarefa do IEF - Instituto Estadual de Florestas, através do telefone 0800-832-2332. Além de informar sobre a gravidade do incêndio, falei com a coordenadora do programa, objetivamente, sobre que tipo de apoio precisávamos. Depois, liguei para o gestor da APA, Itamar Silva, informando sobre o fato.

Mobilizamos os Bombeiros Voluntários de Tiradentes e subimos a serra para combater o fogo. A bombeira voluntária Rosimeire iniciou uma campanha para apoio aos trabalhos. A primeira colaboração a chegar foi de  Maria José Boaventura, que nos enviou água mineral, leite, frutas e biscoitos. Depois recebemos muitas doações, que foram da maior importância para o nosso trabalho. Logo ao chegar onde iniciou o fogo, constatamos que ele havia sido colocado em pontos diferentes, povavelmente para limpeza e pastagem, pois havia gado em diversos pontos. Combater o fogo em área de campo rupestre é uma tarefa pesada. São muitos fatores que dificultam: altitude, calor forte, baixa umidade relativa do ar, grande concentração de matéria orgânica e o vento que vai impulsionando o fogo, dificultando e levando-o para áreas de difícil acesso.

No primeiro dia recebemos apoio das brigadas de combate a incêndios de Prados e de Coronel Xavier Chaves, bem como dos Bombeiros Militares. Trabalhamos muito, conseguimos debelar a linha de fogo que seguia por trás da serra. Descemos por volta das 20:00 h, mas o fogo continuava no paredão, onde o combate é difícil. No segundo dia voltamos a falar com a Força Tarefa sobre a necessidade de aeronaves para o combate com água. Mobilizamos a imprensa estadual e passamos a mantê-la informada sobre as providências, conseqüências e os resultados obtidos. Na tarde do segundo dia o gestor da APA chegou ao topo da serra. Chegaram, também, três aviões da Força Tarefa, que fizeram o combate com água. Acreditávamos que seria possível debelar. O fogo resistia. No terceiro dia subimos para o alto da serra e com o apoio dos brigadistas conseguimos manter o fogo somente no paredão. Uma equipe nossa foi para o sopé da serra, passando pela trilha da Pousada Villa Poalucci para abrir uma clareira para a descida dos dois helicópteros. O fogo do paredão havia descido para a mata fechada. Três aviões e dois helicópteros combateram o fogo o dia todo. Em certos pontos o fogo chegou a queimar cerca de trezentos metros da mata, abaixo do sopé da serra. A situação realmente era grave. Havia anos que o fogo não atingia tamanha força.

No quarto dia, sábado, já tínhamos programa familiar e tudo teve que ser cancelado. Diversos focos no meio da mata haviam voltado. Incêndio subterrâneo.  O solo vegetal estava queimado. A solução foi fazer acero e isolar a área, um trabalho pesado e difícil. Para o apoio das ações no meio da mata, os aviões fizeram resfriamento e os helicópteros transportaram águas até a base, no sopé da serra. Por volta das 12:00 h, o trabalho estava concluído. A equipe da Força Tarefa recebeu chamado de Ouro Preto, um incêndio havia atingindo outra unidade de conservação. Nós Bombeiros Voluntários de Tiradentes ficamos na base, o campo do Grêmio, onde fizemos nossa refeição, após três dias consecutivos sem almoço.

Alguns estrangeiros estiveram em nossa sede oferecendo apoio. A comunidade de Tiradentes foi solidária. Tivemos expressivo apoio da Força Tarefa. Mas, o impacto ambiental foi muito grave. O custo do combate foi alto. Foram muitas horas de combate e alto risco de vida para várias pessoas. Tiradentes, Prados e Coronel Xavier Chaves participaram brilhantemente na defesa do patrimônio ambiental. Lamentavelmente os municípios de São João del Rei e Santa Cruz de Minas ainda não criaram suas brigadas. Vamos torcer para que no próximo ano os dois municípios se preparem. Com certeza o IEF dará apoio, com treinamentos e equipamentos.
Com mais brigadistas devidamente preparados, conscientizados da importância de nossa biodiversidade, nosso patrimônio ambiental ficará mais protegido.

*Professor, bombeiro voluntário e presidente do Instituto Voçorocas

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