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Um projeto de fomento a bandas . Francisco José dos Santos Braga

Em fins de agosto de 2006, em viagem a São João del-Rei, tomei conhecimento de que a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo estava recebendo os projetos a serem desenvolvidos no ano seguinte como parte da comemoração da Capital Brasileira da Cultura 2007, o que me incentivou a redigir o projeto “Fomento às Bandas Civis de São João del-Rei e Região Circunvizinha".
O presente artigo tem por objetivo pinçar alguns trechos do referido projeto e torná-los públicos, uma vez que são passados dois anos, sem que fosse implementado e recebesse o apoio que merecia ter.
Em sua “Introdução”, tratei inicialmente da importância da Educação Musical, responsável por assegurar ao aprendiz uma melhor acuidade perceptiva e organização mental, tornando mais fácil a absorção de outros conhecimentos e, se associada à participação num conjunto instrumental, como é o caso das Bandas, os benefícios se ampliam também socialmente, além de haver a conservação de valores culturais nacionais.
No que se refere às áreas do conhecimento afetadas pela Educação Musical, identifiquei a motora (representada pelo domínio do instrumento, através de movimentos automáticos do corpo, e só adquirida mediante treino e exercícios técnicos diários), a cognitiva (simbolizada pela percepção, podendo ser obtida num piscar de olhos e ser útil no aprendizado de outras disciplinas do currículo escolar) e a da sensibilidade (em grego: aesthetikós; relacionada com a esfera do espírito e, portanto, fugindo ao campo da experiência sensível, podendo ser considerada de uma ótica passiva - em que a música é capaz de impressionar o musicista - ou uma ótica ativa - em que o musicista é capaz de suscitar a sensibilidade do público.
As Bandas, nas palavras de Vicente Salles, são verdadeiros “Conservatórios do Povo”, exercendo em suas sedes, apesar de todas as dificuldades, a função de centros de formação e integração sócio-musical, onde o aprendizado dos instrumentos é gratuito, e o importante papel de fomentadoras artísticas da comunidade. Devido a suas estratégias de aprendizado musical e de aproximação da teoria com a prática, as Bandas são verdadeiros pólos educacionais, com resultados muitas vezes superiores e mais significativos do que os das Escolas de Música e Conservatórios, sem, contudo, serem consideradas  "escolas de verdade" em formação musical.
A Banda de Música representa uma instituição já inserida na realidade cultural brasileira desde os tempos do Brasil-colônia. Em São João del-Rei, desde o século XVIII, nenhuma festividade social, política, cívica ou religiosa se realizava sem o concurso da “divina arte de Euterpe”, sempre promovida e patrocinada pelo Senado da Câmara e pelas Irmandades religiosas.
O referido projeto visava operacionalizar um sistema integrado de gestão de Bandas civis, sediadas em São João del-Rei e entorno e que tivessem o interesse de fazer sua adesão ao Projeto, com a finalidade de abrilhantar as festividades da Capital Brasileira da Cultura 2007.
As atividades propostas pelo Projeto incluíam:

  1. implantação de projeto-piloto a ser desenvolvido com a Banda Theodoro de Faria (set/dez 2006)
  2. contratação de professores e assistentes para ministrarem os cursos e supervisionarem o trabalho desenvolvido pelas diferentes Bandas (set 2006)
  3. oficinas pedagógicas em que seria ministrado curso de reciclagem e aprimoramento musical aos regentes (out/dez 2006)
  4. oficinas técnicas instrumentais, em que seria ministrado curso de reciclagem e aprimoramento musical aos músicos de Banda (out/dez 2006)
  5. encontro regional de Bandas com produção de CD comemorativo (abr 2007)
  6. encontro estadual de Bandas com produção de CD comemorativo (nov 2007)
  7. apresentação das Bandas ao ar livre, em palanques, nos teatros e em procissões, cobrindo todo o ano de 2007
  8. ampliação das sedes das Bandas, exigindo reformas e benfeitorias precedida por levantamento de necessidades das Bandas (out/nov 2006 . nov 2006/dez 2007)
  9. informatização e digitalização das partituras das Bandas, para o intercâmbio dos respectivos arquivos (out 2006/fev 2007)
  10. aquisição, manutenção e/ou reparo dos instrumentos musicais, precedidos por levantamento de necessidades das Bandas (out/nov 2006)
  11. modernização e/ou aquisição de mobiliário, precedidas por levantamento de necessidades das Bandas (out/nov 2006)
  12. quantificação dos recursos materiais e financeiros para ampliação do atendimento a educandos. As Bandas dispunham, quando da apresentação do Projeto, de aproximadamente 1.500 musicistas e 500 educandos, pretendendo-se, ao final do Projeto, atingir o quantitativo de 2.500 musicistas e 3.500 educandos. Constatou-se igualmente um gargalo a ser superado: faltava espaço físico para ministrarem-se aulas e recursos financeiros para manter professores que pudessem aumentar o quadro de alunos. Tanto os professores dos cursos, quanto os assistentes de supervisão das Bandas deveriam buscar a melhor técnica gestual dos regentes e a superação das dificuldades técnicas dos instrumentistas.

Além das atividades mencionadas, previ a abertura (01/01/2007) e o encerramento (31/12/2007) comemorativos da Capital Brasileira da Cultura 2007 com a apresentação coletiva das Bandas que aderissem ao Projeto, em tablado a ser colocado sobre os cais e acima do córrego do Lenheiro com a extensão desde o Centro Cultural do 11º Batalhão de Infantaria até a Ponte da Cadeia. A regência seria conduzida pelo Maestro Helvécio Rodrigues, de cima de palanque a ser erigido sobre a referida ponte.
Entendia então, e hoje ainda acredito na relevância do Projeto pelas razões que seguem:

  1. relação custo-benefício. Com um dispêndio relativamente exíguo, teria sido possível obter excelência na execução das peças musicais, de 2007 em diante, atendimento a um enorme quantitativo de educandos e aumento de capilaridade das Bandas no seio da comunidade.
  2. a mobilização de um contingente gigantesco de público local e de turistas para a apresentação das Bandas
  3. incentivo ao intercâmbio das Bandas de São João del-Rei e entorno entre si, que hoje operam sem integração e isoladas umas das outras, e suas congêneres do Estado de Minas Gerais
  4. capacitação das Bandas a fim de se transformarem em pólos indutores de Educação Musical nas comunidades.

Também tenho a crença de que é possível, a partir de sua vivência local, desenvolver e enriquecer a experiência musical das Bandas no seu próprio local de origem, mediante a oportunidade que lhes for oferecida de aprimoramento, vivência participativa de atividades conjuntas, envolvimento na obtenção de um único objetivo coletivo e motivação para o progresso.
Procurei distribuir cópias a pessoas ilustres que acreditava terem o poder de interceder a favor do Projeto, autorizando, ainda que ele fosse desenvolvido ao amparo da Lei Rouanet, o que acabou não acontecendo.
Além disso, acompanhado do musicista Sr. José Estevão do Carmo, dirigi-me a Ibituruna e constatei o péssimo estado de conservação do acervo da banda local, tendo recomendado à UFSJ-Universidade Federal de São João del-Rei a criação de um Museu Bandas de Música  das Vertentes para acondicionamento, arquivo e digitalização das partituras para Bandas que se encontram nas respectivas sedes em processo de decomposição.
Na ocasião, alertei a todos para o perigo que corria nosso patrimônio cultural e musical: estrangeiros estariam visitando as Bandas do interior de Minas Gerais, microfilmando as partituras, levando para seus países de origem, certamente omitindo a autoria das peças musicais, conscientes de nossa desorganização e despreparo na custódia de nossos valores culturais.
A sociedade e suas lideranças precisam de ações concretas a fim de salvarem - enquanto é tempo - essas obras do nosso patrimônio cultural com sério risco de extinção.

 

NOTAS   BIOGRÁFICAS   DO   AUTOR

Francisco José dos Santos Braga nasceu em São João del-Rei, em 1949. Freqüentou o curso primário no Grupo Escolar João dos Santos, fundado em 1908,

e o curso secundário no Colégio Santo Antônio, no prédio que hoje sedia a UFSJ-Universidade Federal de São João del-Rei. Ao mesmo tempo, fez os cursos de Solfejo, Ditado,Teoria Musical e Piano no Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier. Graduou-se em Letras pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras (atual UFSJ).

Em São Paulo, deu continuidade a seus estudos acadêmicos e musicais. Obteve o grau de Mestre em Administração pela EAESP-Fundação Getúlio Vargas, com a dissertação "Aspectos Operacionais e Análise do Desempenho de Três Fundos Mútuos - Estudo de Caso". Simultaneamente, prosseguiu seus estudos musicais com o Maestro Souza Lima (piano) e Sérgio O. de Vasconcellos Corrêa (composição).

De 2002 a 2006, participou dos Cursos Internacionais de Verão promovidos pela EMB-Escola de Música de Brasília, tendo como professores os compositores Oscar Edelstein (Argentina), Christopher Bochmann (Portugal) e Jorge Antunes e Gilberto Mendes (Brasil), além do professor de piano Sergei Dukachev (Rússia).

Desde seus tempos de Conservatório até o presente, Francisco tem-se apresentado em recitais como solista e co-repetidor em várias cidades brasileiras,

tais como Brasília, São Paulo, Goiânia, Anápolis, Belo-Horizonte, São João del-Rei, Juiz de Fora, Santos Dumont e Divinópolis, entre outras.

Em 2008, já liberado de suas atividades profissionais, finalmente obteve o seu Bacharelado em Composição pela UnB-Universidade de Brasília. Durante o curso, duas de suas obras tiveram especial projeção: Tema com Variações para piano (executada em 14 de outubro de 2007 pelo Prof. Daniel Tarqüínio, como parte das comemorações da CBC-Capital Brasileira da Cultura-2007, no Teatro Municipal de São João del-Rei) e Lírica Espacial  (peça eletroacústica divulgada em CD da Petrobrás em 2008).

Entre suas principais atividades acadêmicas e profissionais, destacam-se as de ter sido professor da EAESP-Fundação Getúlio Vargas (1976-1980 e 1985-1986), Agente Fiscal de Rendas do Estado de São Paulo (1983-1988), Fiscal de Tributos Federais (atual AFTN) (1980-1983), Secretário da Fazenda do Estado de Rondônia (1987) e Consultor do Senado Federal (1988-1998).

Orgulha-se de ter cooperado com o Ministro Hélio Beltrão na Modernização da Receita Federal (1980-1983) e com o Presidente José Sarney na Modernização do Senado Federal (1994-1996). No contexto dessa última, teve o privilégio de ser o redator do Ato nº 11 da Comissão Diretora do Senado Federal, que criou o Coral do Senado Federal, do qual é o fundador.  

Traduziu muitos livros nas áreas de Finanças e Contabilidade, merecendo destaque "Princípios de Administração Financeira", de Lawrence J. Gitman, cuja tradução à primeira edição fez para a Harper & Row do Brasil (1977). Além disso,

é autor, em parceria com o Prof. Jacob Ancelevicz, dos livros "Contabilidade Básica - Um Estudo Programado" (1979) e "Contabilidade Básica - Exercícios" (1981).

Na seara literária, escreveu em 1992 - ano em que se comemorava o bicentenário da morte do Alferes Joaquim José da Silva Xavier - dois artigos para a Revista de Cultura Vozes, um dos quais ("São João del-Rei: A Terra Natal de Tiradentes") deu origem a um discurso do Senador Alfredo Campos (PMDB-MG) em Plenário (11/03/1992) e a um opúsculo intitulado "Tiradentes, Cidadão Sanjoanense (uma contribuição ao restabelecimento da verdade histórica acerca do local de nascimento do Tiradentes)".

Além disso, para o Jornal de Brasília e o Correio Braziliense escreveu artigos que abordam desde temas genealógicos e musicais, até propostas de modernização do Legislativo e do Estado brasileiro.

Recentemente escreveu para a Academia Valenciana de Letras um artigo denominado "Gênio Mozart, por Norbert Elias", a ser trazido a lume brevemente por revista comemorativa dos 60 anos daquela nobre Instituição.

Participa, quer como Membro quer como Sócio Correspondente, de várias instituições no País e no exterior, cabendo destacar as seguintes:

- Académie Internationale de Lutèce, Paris, França

- Familia Sancti Hieronymi, Clearwater, Flórida, USA

- SBME-Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica (2º Tesoureiro)

- Colégio Brasileiro de Genealogia, Rio de Janeiro

- Academia de Letras de São João del-Rei

- Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei

- Instituto Histórico e Geográfico de Campanha

- Instituto Cultural Visconde do Rio Preto (Valença-RJ) 

Francisco José dos Santos Braga é membro da Associação Amigos de São João del-Rei


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