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Aquele tempo de colégio . Rogério Medeiros Garcia de Lima

Descrição

Neste segundo semestre de 2009, acompanho a movimentação de parentas próximas para comemoração do cinquentenário de formatura no Curso Normal do Colégio Nossa Senhora das Dores. Não revelo nomes para não revelar idades. Isso causaria ressentimentos.

Flagrei-me a rememorar saudoso os tempos colegiais. Eu já conto 31 anos desde a conclusão do segundo grau, mas parece que foi ontem.

Quando estamos em idade escolar, frequentemente ouvimos dizer que figuras famosas, como Napoleão Bonaparte e Einstein, foram maus alunos na infância e depois se tornaram célebres no campo da política ou da ciência. Essa cantilena é repetida inclusive como justificativa do mau desempenho de discípulos vadios.

No entanto, a vida me ensinou que as raras exceções não podem ser tomadas como regra. Desde a infância os bons alunos exibem tendências de virem a ser pessoas notáveis.

Para tanto, precisam contar com excelentes professores. Ai de nós sem o paciente trabalho dos docentes! Platão exaltava Sócrates. Pedro Nava, famoso médico e memorialista mineiro, celebrou os mestres em suas festejadas obras literárias. Para ele, o professor decente infunde sua decência nos jovens discípulos. Com Rubem Alves, afirmamos que os professores não morrem jamais: são eternos nas gratas lembranças dos alunos.

Destaco ainda a influência dos pais, demais familiares e bons amigos na formação do aluno. Juscelino Kubitschek, escreveu autobiografia onde exaltava a mãe, dona Julia. Jovem viúva e professora, vendeu suas poucas jóias para propiciar ao pequeno filho "Nonô" o estudo nas melhores escolas da região de Diamantina (MG). A esmerada formação forjou o grande médico e renomado estadista.

Finalmente, sobressaem o papel do próprio aluno e seu dom para aprender. É a "inteligência emocional" identificada por Daniel Goleman: o controle das emoções desenvolve a inteligência do indivíduo.

Tive os melhores mestres, em todas as fases da vida escolar. Minha família e meus amigos incentivaram-me positivamente nos estudos. Meus pais estimularam-me à leitura de jornais, revistas, enciclopédias e variados livros. Lembro a benéfica influência, na minha formação, do "Jornal do Brasil", revista "Manchete", enciclopédia "Tesouro da Juventude" e coleção "Clássicos Juvenis Abril Cultural".

Sempre estudei nos melhores estabelecimentos: Colégio Nossa Senhora das Dores e Colégio São João, em nossa cidade, e Escola Preparatória de Cadetes do Ar, mantida pela Força Aérea Brasileira, em Barbacena (MG).

Lembro especialmente uma brilhante mestra, a saudosa D. Conceição Gonçalves. Ela ministrava todas as disciplinas para uma única turma: português, matemática, geografia, história, ciências e religião. Professora à antiga, enérgica e maternal a um só tempo. Esmerava-se em aprimorar a caligrafia dos alunos. Suas aulas de história eram inesquecíveis. Jamais apaguei da memória suas lições sobre o Segundo Reinado; o pequeno imperador Pedro II, órfão e solitário; as façanhas do Duque de Caxias; a Guerra do Paraguai; e o movimento Abolicionista. A saudosa mestra vivificava as aulas. Tudo parecia ter ocorrido ainda ontem e ela discorria como se houvesse sido personagem presencial dos fatos. Era despida de preocupações acadêmicas com materialismo histórico e outros dogmas.

De resto, o tempo me mostrou que boa dosagem de ordem e disciplina não faz mal a ninguém. Nosso pobre Brasil, imerso em crônica corrupção e crise de valores, que o diga...

* são-joanense, desembargador do Tribunal de Justiça-MG e professor universitário

Fonte: Gazeta de São João del-Rei . 12/09/09
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