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Patrimônio de São João del-Rei . Jota Dangelo

Pelas Esquinas/Gazeta de São João del-Rei em 06/09/2013

O Centro Histórico de São João del-Rei corresponde apenas a 7% do espaço ocupado pela cidade. Os são-joanenses devem se conscientizar de que há um preço a pagar por residirem numa cidade que vai completar 300 anos de elevação a Vila em 8 de dezembro deste ano. O Arraial Novo, que deu origem à Vila, é mais antigo, data de alguma coisa entre 1702 e 1704. Diferente de Ouro Preto, São João del-Rei não foi somente uma cidade mineradora no século XVIII: era o entreposto comercial mais importante da capitania, e nos seus arredores a agricultura e mesmo a pecuária existiam em proporção apreciável. No final do século XIX, a instalação da Estrada de Ferro Oeste de Minas e logo depois a das Indústrias Têxteis, impulsionaram o desenvolvimento urbano da cidade. Este surto de relativo progresso, como era de esperar-se, demoliu muito do nosso patrimônio colonial. Em Ouro Preto ocorreu o oposto: com a mudança da capital para Curral del-Rei, que seria a Belo Horizonte de hoje, em 1897, a antiga Vila Rica, que nunca foi um entreposto comercial e sobrevivia como capital do Estado, foi abandonada às moscas. Boa parte de sua população, funcionários do governo do Estado, transferiu-se para a nova capital. Assim, Ouro Preto escapou da especulação imobiliária e seu patrimônio colonial edificado permaneceu, em sua maior parte, intocável. Não foi muito diferente o que ocorreu em Tiradentes. Caindo em decadência, em virtude da falência dos veios auríferos de São José del-Rei do Rio das Mortes, seu centro histórico era, até 30 anos atrás, uma sequência de ruínas. A única festa que levava expressivo número de visitantes a Tiradentes era a da Santíssima Trindade, visitantes, diga-se de passagem, na sua maioria, de São João del-Rei. Os maiores responsáveis pelo boom turístico ocorrido em Tiradentes, não eram tiradentinos, embora a Associação Amigos de Tiradentes, que desempenhou importante papel naquele processo, contasse entre seus membros com empresários e comerciantes nativos.

O que se perdeu em São João del-Rei de arquitetura colonial, ganhou-se em arquitetura protomoderna e eclética e mesmo em alguns exemplares déco. Mas destruiu-se, lamentavelmente, exemplares coloniais e neoclássicos de expressão. Em 1938, no Estado Novo, com a criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), que agora se chama IPHAN, tombou-se o centro histórico de del-Rei, mas dez anos depois, por pressão dos sempre presentes especuladores imobiliários, o tombamento foi flexibilizado e perdemos boa parte do nosso patrimônio arquitetural. Um bom exemplo desta perda está na Rua Marechal Deodoro.
Hoje, volta e meia, vemos a destruição do nosso patrimônio ser tentada e, não raro, concretizada. Ainda que a criação do Conselho Municipal do Patrimônio tenha sido uma iniciativa absolutamente necessária, o Conselho não conseguirá exercer com propriedade suas funções se não contar com a parceria direta e atuante do Poder Público. Nenhuma construção, no perímetro do centro histórico e áreas conexas pode ter o aval da Prefeitura sem passar pelo exame e aprovação do CMP. No momento que for protocolado na Prefeitura o projeto de construção ou modificações essenciais na arquitetura urbana do centro histórico o poder público, antes de qualquer decisão, deve alertar ao interessado que o projeto, obrigatoriamente, tem que ser aprovado pelo Conselho Municipal do Patrimônio. Quem desejar fazer construções mirabolantes, que o faça fora dos limites do centro histórico. É o preço a pagar pelos que habitam em uma cidade de 300 anos, mesmo que não sejam são-joanenses. Estes últimos, desculpem-me, estes, no meu entender, muito mais que o preço, têm obrigação de zelar pela preservação de nossa riqueza patrimonial.

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Patrimônio . Jota Dangelo

 

Nos últimos anos, mestrandos e doutorandos da Universidade Federal de Campinas – SP (Unicamp) estão se dedicando a pesquisa sobre a história de Minas para elaborarem suas teses de mestrado e doutorado. São vários os temas abordados, alguns justamente sobre o ciclo do ouro, a sociedade mineradora, as manifestações eruditas e populares dos séculos XVIII e XIX nas cidades históricas, inclusive São João del-Rei. Uma dessas teses trata, entre outras coisas, do episódio de funesta memória que resultou na demolição do casarão que hoje abriga o Museu Regional da cidade no Largo do Tamandaré. A pesquisa mostra, com detalhes, como se deu a demolição e, felizmente, a reconstrução do antigo casarão. A tese mostra como pessoas de alto conceito na cidade escreveram artigos nos dois jornais da cidade (Correio e Diário do Comércio) preconizando a demolição, não só daquele prédio, mas de todos os casarões e casas antigas que “estariam impedindo o progresso da cidade”. Se tivessem prevalecido as idéias defendidas por estes “progressistas”são-joanenses, o centro histórico de São João del-Rei seria hoje um amontoado de caixotes, como acabou ocorrendo num dos trechos da rua do Comércio. Pensem um  pouco: os que queriam a demolição do Museu Regional pretendiam fazer ali um hotel de 12 andares! Mancomunados com a Prefeitura que, da sua parte, construiria, no Largo do Tomandaré, bem em frente ao hotel, a Rodoviária da cidade! Voltarei ao assunto.

Fonte: www.gazetadesaojoaodelrei.com.br, 28 de Maio de 2011

 


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