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Mercearia tradicional em Itabirito . No interior de Minas, uma mercearia mantém vivas antigas tradições, como o escambo

Descrição

Bom dia! Bom dia, seu Juca, bom dia, Roninho. Seu Juca é pai do Roninho. Eles tocam uma mercearia das antigas na cidade de Itabirito, Minas Gerais.
Seu Juca, que é José Augusto de Almeida, herdou o negócio do pai e do avô, que começou as atividades no fim do século XIX. Era e é aquele tipo de loja que vende os chamados secos e molhados. A reportagem é uma aula de história. Nela. nós vamos ver o contato direto, cheio de confiança, entre o negociante e os agricultores. É a prática do escambo, da troca de uma mercadoria por outra, aquilo que hoje, em outras regiões do país, se chama de rolo ou de catira. Você vai notar que não tem um personagem nessa história que não esteja satisfeito e feliz.

Tem um tipo de negócio que existia muito antigamente: você se lembra daqueles armazéns cheios de coisas que atendiam a tudo quanto era necessidade? Pois se você se lembra, vai matar as saudades, e se nunca viu, vai conhecer agora um que está resistindo ao tempo.

Em Itabirito, Minas Gerais, em uma mercearia que mantém vivas antigas tradições: lá, por exemplo, ainda se faz troca de produtos. E os pequenos agricultores da região tiram proveito da parceria.

Itabirito é terra de mineração. O município fica a pouco mais de 50 km da capital Belo Horizonte. Dizem que não se pode deixar a cidade sem experimentar o pastel de angu, que é patrimônio cultural.

O pastel de angu não reina sozinho em Itabirito. A Mercearia Paraopeba também é uma das grandes atrações da cidade, e é difícil encontrar lugar que se encaixe tão direitinho na expressão “um pouco de tudo”.

Azeite de mamona para curar umbigo de menino. Fubá de moinho, feijão roxinho. Do teto ao chão, de um lado a outro, não tem canto que não esteja ocupado. É coisa para casa, para comer, trabalhar, decorar, tudo ali, à mão do freguês!

“A minha história está toda aqui, a minha vida, a fazenda do meu avô, é umbigo de bananeira, é queijo, é doce, isso é história de mineiro. É raiz da gente, então, dá uma felicidade que você não pode imaginar”, afirma a médica Heloisa Vidigal.

“Eu vi muitas coisas da minha infância que não via mais, tipo mandiopan, aqueles doces que você corta, assim, aquelas talhadas, como diz o povo da roça”, afirma a aposentada Almerisa Lino Tanure.

Paulo Vicente da Silva não dispensa um bom fumo de rolo. E é na mercearia que ele também encontra a macela, aqui chamada marcela, uma florzinha bonita usada pra fazer travesseiros.

O sucesso da mercearia é resultado do trabalho dos homens da família que há quatro gerações toca o negócio, sem nunca confundir pato com ganso.

Hoje, quem está à frente da Paraopeba é Roney de Almeida, o Roninho, que herdou a mercearia e o talento para o comércio do pai, José Augusto de Almeida, o seu Juca. O movimento é tão grande que, para conversar com calma com Roninho e com Juca, nós tivemos que esperar a mercearia fechar. São oito da noite e agora nós vamos conhecer essa história.

Juca está com 74 anos, e quase todos dedicados a essa mercearia. A Mercearia Paraopeba foi inaugurada em 1876 e pertencia ao avô de Juca. Os primeiros livros que registram as vendas da época são guardados como relíquia pela família.

A troca de tábuas por produtos naquela época ilustra uma prática comum até hoje na mercearia: um tipo de escambo, que beneficia quem produz e quem compra. Em muitos casos, a Paraopeba até fornece a matéria-prima para garantir algumas de suas iguarias, caso da goiabada cascão.

Para ajudar a incrementar ainda mais a renda de seus "parceiros" agricultores, Roninho compra tudo o que eles tiverem no quintal, e o pagamento nem sempre é feito só em dinheiro. Um dos produtos que chama atenção nessas trocas é justamente a macela que faz o tal travesseiro.

Interessante é notar como esse jeito de comerciar vai movimentando, modificando a vida dos pequenos produtores envolvidos no processo. Naná e Luzia, por exemplo, são trabalhadoras rurais. Nunca nem tinham pensado em colher macela para vender, ideia do Roninho. Hoje, o dinheiro da flor ajuda a colocar comida em casa.

Todo mundo fala que fubá bom é fubá de moinho. Moinho d´água, moinho de pedra. E o fubá famoso que vende lá na mercearia já existe há mais de cem anos. Quem ainda comanda todo o trabalho é uma senhora de 86 anos, Virginia Toledo, que, com a ajuda da filha Julia, faz um fubá que é considerado um dos melhores da região. “É porque nós temos capricho com o fubá, cata o milho, peneira, e tudo é limpinho”, afirma Virginia.

A força da água movimenta a pedra que mói o milho. O velho moinho produz cerca de 45 quilos de fubá por dia. Toda semana, Virginia e Julia entregam parte da produção na Mercearia Paraopeba.

Rejane Braga é uma das fornecedoras do queijo que Julia e Virginia gostam. Ela, por sua vez, também é fã do fubá de moinho produzido pelas duas. Além do queijo, Rejane e o marido entregam e outras coisinhas mais, como café, ovos, galinha, e, na época, figo, pêssego e copo de leite.

Essa parceria com a mercearia contribuiu para que o casal decidisse viver na zona rural. O engenheiro José Magno Braga, marido de Rejane, trabalhava na mineração, e, quando se aposentou, decidiu investir mais no sítio da família.

O leite das seis vacas faz o queijo tipo muçarela da mercearia. O casal entrega o queijo, alguma coisa da horta, copos de leite, galinhas, ovos, mas o xodó deles é o café. Da lavoura com oito mil pés, quem cuida é Braga. “É um café em que eu não tenho produto químico nele, é um café orgânico”, diz.

A média anual de produção é de 40 sacas. O café é beneficiado aqui mesmo na propriedade, e pela Rejane. Torrar, resfriar, um capricho só! Rejane também mói, e empacota o café que vai para a mercearia. Claro que um pouco sempre fica para os visitantes, que podem se deliciar com os produtos preparados pelas mãos habilidosas da Rejane.

“É a melhor coisa que nós conseguimos, porque abriu um horizonte com que antigamente nós esbarrávamos, que era comercialização, e o Roney tem uma habilidade grande para comércio. Ele tem uma gama de produtos imensa, e tudo de qualidade, de maneira que a gente é muito satisfeito com isso, e pretendemos cada vez mais ter esse laço”, afirma Braga, sobre a parceria com a mercearia.

Para fazer um "agrado" a mais para seus clientes agricultores da zona rural, Roninho ainda se compromete a entregar na casa deles a compra do mês. Aurora Braga não abre mão do serviço. É claro que Roninho faz render a viagem. Deixa as compras e aproveita para levar dois galos, três galinhas e 22 dúzias de ovos do sítio de Aurora e Zé Pereira, marido dela.

Roninho também tem um sítio muito bonito na zona rural de Itabirito. Foi lá que conhecemos a Adriana, esposa dele, e Marta, sua ajudante, fazendo o almoço. Elas preparam um umbigo de cacho de bananeira para colocar na carne moída, outra tradição local. “Ele lembra um pouco o palmito, porque fica mais clarinho. A gente descasca bastante, usa só a parte da polpa dele”, diz Adriana.

Depois de descascar o umbigo, Marta rala a parte branca. As lascas já vão caindo numa vasilha com água e limão. O umbigo ralado vai para o fogo; água e limão novamente acompanham. Para tirar bem o "amargo" do umbigo, depois que levanta fervura, Marta e Adriana escorrem a primeira água e repetem a operação, só que dessa vez acrescentam um pouco de sal. Escorrem tudo novamente e misturam o umbigo à carne.

À mesa, estão também os três filhos do casal. Arroz, feijão sobrancelha de moça e angu acompanham nossa carne moída com umbigo de bananeira. Pimenta biquinho decora o prato, que só tem produtos da mercearia.

“A gente fica sensibilizado porque é um trabalho que a gente faz com gosto, com as pessoas, fregueses, nossos amigos, fornecedores nossos. Isso para nós é muito gratificante”, afirma Juca.

Fonte: Globo Rural . Veja o vídeo

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