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Manifestações culturais do Tijuco sofrem com a falta de apoio

Descrição

O Tijuco - em São João del-Rei - possui tradição centenária. Apontado como o berço das manifestações culturais da cidade, o bairro guarda inúmeras surpresas: pintores, escultores, artesãos, escritores, bordadeiras e uma infinidade de músicos das orquestras Lira São-Joanense e Ribeiro Bastos e da Banda Theodoro de Faria. Além disso, ainda sobrevivem grupos de Folia de Reis e Pastorinhas. Contudo, essas manifestações lutam para se manterem na ativa. Em sua maioria, não têm apoio da Prefeitura Municipal e carecem de uma política pública que dê amparo contínuo aos seus trabalhos. 

Por suas ruas sinuosas, passaram escravos, trazendo a força e diversidade dos costumes afro-descendentes. As manifestações culturais do bairro são permeadas da força africana e possuem a influência do catolicismo, garantindo a diversidade e riqueza da arte tijucana. 

Cultura popular 
Em um passado saudoso o Tijuco teve muitos grupos de Congada, Folia de Reis, Pastorinhas, além de Blocos e Escolas de Samba. Eles, além de fortalecer a tradição, ajudam com obras sociais, doando o dinheiro arrecadado nas festas. No entanto, segundo o folclorista Ulisses Passarelli, essa diversidade foi, pouco a pouco, se extinguindo. “Existiram vários grupos de Congado, que, inclusive, colaboraram com a construção da Igreja de Nossa Senhora do Operário. Com o passar dos anos, esses grupos desapareceram. Não existem mais no Tijuco”, afirmou o folclorista. 

Os grupos de Folia de Reis se resumem a três, sendo um nas Águas Férreas, um na Rua São João e a Folia do Divino Espírito Santo, no Jardim São José. Por falta de reconhecimento ou mudança nos padrões culturais e sociais, essa manifestação foi sendo praticada por poucas pessoas, a quem Ulisses Passarelli chama de “herois da cultura”. “São pessoas que vem batalhando muito para se conservar. Sobrevivem pelo esforço de cada participante e, de modo especial, pelo responsável pela Folia”, disse. 

Ele fez questão de destacar o Grupo de Pastorinhas, nas Águas Férreas, o único da cidade e um dos últimos do Campo das Vertentes. “As Pastorinhas são originais, não se submeteram às muitas alterações do tempo. São fieis aos seus padrões antigos. Eles se mantêm firmes, com muita luta”, elogiou Passarelli. 

O folclorista indica que um dos fatores que condicionam o desaparecimento dessas manifestações é a falta de uma política pública voltada para a cultura popular, para o folclore. “Quando surge algo, é totalmente esporádico. Não tem nada! Os grupos não têm materiais de necessidade básica, uniformes, transporte para as apresentações e renovação de instrumentos. Isso se arrasta ao longo de anos e anos; o que colaborou para minar toda essa cultura”, argumentou Passarelli. 

Ulisses reconheceu que o envolvimento da comunidade com esses grupos também é fraco. Para ele, é preciso valorizar, moralmente, fisicamente e economicamente, os grupos. “As comunidades estão dissociadas. Se não inserimos conteúdo dentro de escolas, associações, chamando as crianças a prestigiarem e dando aulas de cultura, a tendência é ir se desagregando cada vez mais. Gradativamente, vai se tornando cansativo para os próprios participantes”, disse o folclorista. 

Música 
Não é só de cultura popular que vive o Tijuco. Na Rua Santo Antônio estão as orquestras mais tradicionais do Brasil: a Lira São-joanense, com 234 anos, é considerada a segunda mais antiga do mundo; a Ribeiro Bastos tem 220 anos. Além delas existe a Banda Theodoro de Faria, que completou 108 anos de fundação em junho. 

No entanto, de acordo com o presidente da Theodoro de Faria e trompetista Juanito André Sacramento os incentivos públicos municipais à cultura erudita também são escassos e efêmeros. “Nos mantemos por nós mesmos. Não temos ajuda nenhuma da Prefeitura, nem subvenções ou verbas de nada, apenas doações simbólicas dos alunos. Conseguimos levantar verba quando somos contratados para tocar”, conta Juanito. 

A Banda tem um gasto alto com conserto de instrumentos, material didático e manutenção da sede. Mesmo com pouco incentivo, eles se integram muito bem à comunidade: três professores ministram aulas individuais de música (manhã, tarde e noite) a 42 alunos. “As aulas são gratuitas! Para matricular é só ter mais de oito anos, chegar aqui e falar que quer aprender música”, disse o presidente da Banda. 

Rua São João 
Uma das principais vias do Tijuco, a Rua São João, é um importante centro de cultura, onde moram muitos artistas, pintores, músicos, escultores e artesãos. A riqueza é tamanha que, às vezes, os próprios moradores não conhecem muitos dos artistas. Para o presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Bairro São José Operário, Edson Maciel, o ideal seria montar uma associação, com apoio da Prefeitura, com o intuito de divulgar e fortalecer a cultura do Tijuco. “A mão de obra artística é bem vista somente pelo turista. O povo da comunidade não valoriza os artistas que temos no bairro. Embora o apoio da Prefeitura seja mínimo, no bairro, têm pintores, escultores, talhadores e artesãos de mão cheia, com trabalhos muito bem feitos”, enfatizou Edson. 

O pintor Wagner José Guimarães é um deles. Ele mora na Rua São João e expõe seus quadros no Centro da cidade e em feiras. Wagner pinta há 30 anos e reforça que o Tijuco é o bairro com mais artistas. Porém, o pintor avaliou que muitos passam dificuldades. “O apoio da Prefeitura Municipal aos artistas é nulo. Quase todos os artesãos fazem sua arte com muito esforço”, ressaltou Wagner. O autor do livro Retalhos de uma Sociedade, Antônio Gaio Sobrinho, concordou: “O povo do Tijuco é mais carente e pobre. O bairro foi, por muitos anos, esquecido politicamente”. 

Apesar de todos os contratempos, muitos se esforçam para defender e perpetuar a cultura do bairro. A professora aposentada Vilma das Mercês Lopes juntou livros e, com a colaboração de outros moradores, montou uma pequena biblioteca na Praça Nossa Senhora de Fátima. Ela, ainda ensina, há 16 anos teoria e a prática de flauta doce a crianças do Tijuco. “O artista daqui não tem um reconhecimento das autoridades. Mas tem muita gente boa na arte. O bairro é riquíssimo e não é explorado”, disse Vilma. 

A Banda Theodoro de Faria oferece aulas de música, incentivando o desenvolvimento cultural

A Companhia de Dança Rede do Corpo dá aulas e faz espetáculos de dança aérea e Pernas de Pau

Fotos: Alzira Agostini Haddad . indisponível

Fonte: Folha das Vertentes . 2ª quinzena de agosto de 2010

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