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A moral e o trânsito caótico . José Maurício Carvalho

Recentemente o governo aprovou o retorno do ensino da Filosofia nas escolas. Esta é uma medida educativa importante porque filosofar é construir explicações sobre como as coisas são, o que amarra o nosso modo de pensar com o que realmente existe. Porém a Filosofia se ocupa também de outras dimensões da realidade e além do modo como conhecemos também cuida da forma como escolhemos fazer as coisas, isto é, de como coisas, situações e pessoas têm peso diferente no momento em que temos que fazer nossas escolhas. Nós percebemos que temos que escolher sempre. As coisas são não só para serem conhecidas, mas também avaliadas e o homem deve aprender a fazer as duas coisas. Se a ciência resolve parte da primeira questão, quase nada diz da segunda.
Considerando que o ensino da filosofia coloque o jovem diante destes dois desafios, o de pensar o mundo e o de avaliá-lo, estaremos dando um passo importante para formar o cidadão. Uma análise simples revela os motivos. Se o jovem pensar na ação corriqueira da maioria dos políticos e do que assiste à sua volta logo se dará conta que o comportamento humano não se orienta magicamente para a ação mais correta. Dizemos que o homem não é naturalmente moral. E quando ele age moralmente? Quando escolhe construir o futuro pensando nas conseqüências que afetam a todos. O que os moralistas tentam dizer é que se fizermos uma sociedade onde todos respeitam a vida, uma sociedade que não admite o assassinato, a tortura e a exploração, por exemplo, teremos uma comunidade melhor para todos, ainda que o indivíduo biologicamente esteja equipado para atacar quem lhe ofenda ou cometa contra ele alguma injustiça. Chegamos assim ao problema ético, resumido por Miguel Reale em Introdução à Filosofia (1989) da forma seguinte: “O problema do valor do homem como ser que age, ou melhor, como o único ser que se conduz, põe-se de maneira tal que a ciência se mostra incapaz de resolvê-lo. Este problema que a ciência exige, mas não resolve, chama-se problema ético, e marca o momento culminante em toda verdadeira filosofia, que não pode deixar de exercer uma função teleológica, no sentido do aperfeiçoamento moral da humanidade e na determinação essencial do valor do bem, quer para o indivíduo, quer para sociedade” (p. 25).
Uma sociedade cujos membros são capazes de pensar nos resultados de suas ações começará a se comportar de forma mais segura para todos. Vejamos uma situação corriqueira hoje em dia, o caos no trânsito das cidades como a nossa. O enriquecimento das pessoas multiplicou enormemente o número de veículos nas ruas de cidades que em nosso país crescem sem planejamento. No caso de cidades como São João a situação está próxima do caos. Há certos momentos do dia que andar de automóvel é motivo de profundo stress e risco de acidente. É grande o número de veículos, mas o maior problema não é de quantidade. O que observamos nas ruas são motocicletas trafegando acima da velocidade permitida e ultrapassando por todos os lados, bicicletas que trafegam na contra-mão, pedestres que param ou atravessam as ruas onde não deviam, motoristas descuidados e apressados. Toda esta gente se locomovendo em ruas estreitas, mal sinalizadas, com fiscalização insuficiente forma o caos nosso de cada dia. Precisamos de melhor planejamento das ruas, de mais fiscalização, de sinalização mais eficiente com certeza. No entanto, só estas medidas não produzirão o resultado esperado se os cidadãos não agirem de forma responsável no trânsito. A simples proibição de beber e dirigir levada mais a sério pelo governo e polícia já diminuiu os acidentes de trânsito, o quanto mais poderemos melhorar se cada cidadão for responsável no trânsito? Com certeza bastante. Esta melhora começa por educar as pessoas mostrando que elas são responsáveis pelo resultado do que fazem e a Filosofia meditada nas escolas pode ajudar muito nisto.

* Professor do Departamento de Filosofia da UFSJ – Universidade Federal de SJDR


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