Agenda Cultural - Evento

Exposição "Minas/Itália: Construção da Modernidade" . Leonardo Castriota . De 07 dez a 31 jan 2021 . Centro Cultural Banco do Brasil . 2020

Data
18 Dez 2020  
Cidade
BH  
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"Minas|Itália: Construção da Modernidade" traz detalhes de edificações icônicas da cidade que reverberam a influência de imigrantes e descendentes do citado país


Estamos em tempos de olhares desatentos, lembra o urbanista, arquiteto e pesquisador de arquitetura Leonardo Castriota. “As pessoas passam pela cidade e, talvez pelo excesso de informação, não só na vida presencial, mas considerando a virtualidade em que a sociedade vive, estão com o olhar pouco propenso a se debruçar sobre as coisas, a observar detalhes”, analisa ele. E foi justamente essa constatação que fez com que, ao receber, no ano passado, o convite do Consulado Italiano para pensar uma exposição que colocasse em relevo a influência italiana na arquitetura da cidade, optasse por imprimir, nela, um viés mais estético que histórico. “Ou seja, chamar a atenção principalmente para certos detalhes da arquitetura de origem italiana, e, a partir desses detalhes, com uma percepção estética, ao verem como aquilo é bonito, como é importante, se interessarem por ter mais informações a respeito do edifício aos quais eles pertencem”, elucida. 

É com esse objetivo, pois, que a mostra  “Minas|Itália: Construção da Modernidade” adentrou em cena no último dia 7, no Centro Cultural Banco do Brasil, com a perspectiva de seguir em cartaz até o dia 31 de janeiro.  Realizada, pois, pelo Consulado da Itália em Belo Horizonte e com curadoria de Castriota junto a Augusto Nunes-Filho, é composta por 20 fotografias em grandes formatos de detalhes arquitetônicos de construções e prédios que retratam a influência italiana na arquitetura da capital mineira. Em P&B, as fotos são assinadas por Daniel Moreira. “A exposição, então, tem esses dois níveis, o dos detalhes e o dos edifícios, geralmente inseridos na cena urbana”, prossegue Castriota. Ressalte-se que a iniciativa foi pensada para este período tanto pelo aniversário da cidade quanto pela comemoração dos 300 anos de Minas Gerais. 

Um dado curioso é que o próprio equipamento que está abrigando a mostra, o prédio do CCBB-BH, integrante do Circuito Turístico e Cultural Liberdade, traz, em seu cerne, a influência da arquitetura italiana. “O projeto, do final do período eclético, é do Luiz Signorelli, um arquiteto de origem italiana”, conta Castriota. “Signorelli, é bom lembrar, passou pelo eclético, pelo déco e chegou até a projetar um edifício moderno, que, aliás, está na mostra também: o teatro Francisco Nunes. Mas, voltando ao prédio do CCBB, nós inclusive quisemos aproveitá-lo no contexto da mostra. Consideramos que a edificação era, por si só, um objeto expográfico. Por isso, pensamos, na montagem, em uma alternativa na qual que você observasse também o ambiente no qual as fotografias estão expostas. Sendo assim, no centro da sala, criamos uma estrutura autônoma, com andaimes e tapumes, que chamam atenção em um edifício muito sofisticado, que é o Centro Cultural Banco do Brasil. Com esse recurso, o visitante não fica alijado da percepção dos detalhes arquitetônicos do próprio espaço, seja o teto, a iluminação original da sala... E foi por isso também que a gente trabalhou com esse tema ‘Construção da Modernidade’, para mostrar exatamente o papel dos arquitetos não só na projetação, mas na construção”, prossegue Castriota. 

Signorelli, vale dizer, foi o primeiro diretor da Faculdade de Arquitetura da então Universidade de Minas Gerais. Mas muitos outros italianos e/ou descendentes atuantes nessa época deixaram sua assinatura na construção da cidade: Hermínio Gauzi (Edifício San Marco, na avenida Augusto de Lima, 510); Raffaello Berti (Prefeitura, Cine Metrópole e Palácio Arquiepiscopal) e Romeo di Paoli (que, além de conceber o edifício do Hotel Imperial Palace, projetou o Centro de Chauffeurs e o Colégio Santo Agostinho); para citar alguns. 

Mas, como indica o material informativo da exposição, já na construção de Belo Horizonte alguns engenheiros de origem italiana se destacavam entre os muitos europeus que por aqui estavam, como doutor Burlamaqui, Gustavo Farnese e Adolfo Radice. Os empreiteiros Afonso Massini e Carlos Antonini, por sua vez, destacaram-se na construção do ramal ferroviário que ligava as estações Minas e General Carneiro, e que facilitava a vinda de pessoas do Rio de Janeiro para Belo Horizonte. No ramo da exploração calcária, sobressaiu-se o descendente de italianos J. Orlandini, proprietário da pedreira Acaba Mundo, a partir de 1895. Outro italiano que despontou nas artes e arquitetura da nova capital foi Luis Olivieri. Formado em Florença, integrou a comissão construtora como desenhista e, em 1897, criou o primeiro escritório particular desse ofício na cidade. 

No entanto, Augusto Nunes-Filho, o outro curador, esclarece: “Procuramos, na mostra, não seguir uma cronologia, pensamos muito mais numa narrativa poética. Não teve aquele norte de ‘ah, nessa sala ficarão todas as obras de tal arquiteto’. Fomos tentando estabelecer um diálogo entre as obras e o lugar e, no final, confesso que ficamos satisfeitos com o resultado”. 

Ele confessa que uma característica que não foi intencional, mas que acabou acrescentando interesse à mostra, foi que há fotos que, da maneira como foram colocadas para apreciação (deitadas), viraram praticamente objetos. “Cito como exemplo uma foto de um lustre icônico da época. Então, quando o visitante dá uma volta ao redor desse espaço expositório, a foto tanto pode parecer uma luminária de mesa quanto de parede ou de teto. Tem também umas fotos de escada muito interessantes”. 

Nunes-Filho, porém, acaba citando a foto do Francisco Nunes como a que considera mais surpreendente no conjunto. E explica: “Pensando como uma mostra de arquitetura, é a que acho mais surpreendente. O Francisco Nunes um projeto também do Signorelli, por incrível que pareça. E na foto que está lá, na mostra, é impressionante como ele (arquiteto) conversa, na verdade, vira quase um discípulo do Oscar Niemeyer. Porque ele fez com o Chico Nunes o que o Niemeyer queria fazer com o Palácio das Artes, que era colocar o teatro no meio do parque. E achei que o fotógrafo foi muito feliz, porque ele tirou a foto de uma distância na qual aquela árvore que existe em frente ao teatro, e que já é bem grande, acabe aparecendo imensa. Como a gente, da rua, da Afonso Pena, está mais acostumado a ver o Chico Nunes muito ‘colado’ naquele movimento de carros, foi saboroso constatar isso (a comunhão do edifício com a natureza)”. 

Em tempo: como contraponto ao caráter efêmero de uma exposição, Castriota e Nunes-Filho estão em negociações com o consulado para que seja lançado um livro-catálogo, que incluiria mais material informativo e, claro, mais fotos.

"Minas|Itália: Construção da Modernidade"

Onde: CCBB BH (praça da Liberdade, 450). Térreo.


Quando: Até 31 de janeiro, de quarta a segunda-feira (às terças, o espaço está fechado), das 10 às 21h. O recesso de final de ano ainda não foi divulgado.

Quanto. Gratuito, mas exige-se retirada prévia de ingresso para controle do número de visitantes em função das limitações impostas pelo novo coronavírus. Os mesmos devem ser emitidos pelo site ou app Eventim, com apresentação do QR Code na entrada do CCBB  - não se recomenda a impressão do ticket. Neste momento de pandemia, não há bilheteria física. O bilhete dá direito a conferir também a mostra de Ivan Serpa, no 3º pavimento.

Observações: O uso de máscara é obrigatório. O local oferece álcool em gel, conforme determina o Decreto da Prefeitura Municipal.

Fonte: Por Patrícia Cassese, Jornal O Tempo 

 

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