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Cruzes e Cruzeiros . Luiz Cruz

Descrição

Porto Seguro, sexta-feira, 1º de maio de 1500. Este o local e a data que temos sobre as primeiras notícias da terra descoberta. O registro foi feito pelo escrivão da frota de Pedra Alvares Cabral, Pero Vaz de Caminha, encarregado de relatar a viagem, oficialmente, ao rei Dom Manuel. A Carta de Caminha é um documento importante, que transmite ao rei as primeiras impressões sobre o Brasil, os indígenas e a Igreja, especialmente com a cruz, que foi a primeira obra a ser construída e instalada no solo descoberto pelos portugueses.

No século IV, da era cristã, Santa Helena encontrou um fragmento da cruzem que Cristo foi crucificado e isso fortaleceu e ajudou a difundir o culto à Santa Cruz. O dia 3 de maio foi dedicado à festa da Invenção da Santa Cruz - em razão do verbo invenire = achar. Sendo o símbolo máximo do cristianismo, a cruz está presente nos-diferentes momentos da vida e da morte, em celebrações diversas, como o batismo e a extrema unção. Ao realizar o sinal da cruz, invoca-se o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Como vimos na Carta de Caminha, herdamos de Portugal a longa tradição de culto à Santa Cruz. Segundo a pesquisadora Adalgisa Arantes Campos, em fins dos seiscentos, em Portugal, foi difundido o culto às almas, relacionado com os cruzeiros. Nas imediações de Lisboa foram identificados seis cruzeiros seiscentistas por Souza Viterbo.

Na Terra de Santa Cruz, cruzes e cruzeiros foram amplamente utilizados, nos adros, em largos, sobre as pontes - para proteger a passagem, em esquinas, encruzilhadas e especialmente em pontos de destaque, dominando a paisagem, ou ao longo de caminhos. Indicavam que aquele espaço não era totalmente selvagem, mas dominado, agenciado pelo homem dotado de crença específica. Ou seja, a questão da ocupação e urbanização estava intrinsecamente ligada à instalação da cruz ou do cruzeiro.

Algumas cidades mineiras possuem belos exemplares de cruzes e cruzeiros. Provavelmente Ouro Preto abriga o maior número deles, mas São João del-Rei, Tiradentes, Diamantina e outras localidades possuem vários. As pontes de Ouro Preto têm uma cruz em pedra para proteger a travessia, compõem o maior conjunto de pontes tombadas isoladamente pelo IPHAN. No bairro Alto da Cruz, um morro bem elevado e arredondado, há em seu topo uma cruz, predominando a paisagem e protegendo a população. Ainda em Ouro Preto, existe um Oratória de Santa Cruz, conhecido também como Oratório do Virasaia, que fica localizado na esquina da Rua Santa Efigênia com Barão de Ouro Branco. Esses oratórios, muito comuns no século XVIII, foram utilizados para espantar "fantasmas com pés de pato, asas e chifres", conforme podemos apreciar no Guia de Ouro Preto, de' Manuel Bandeira. Em frente à Capela do Padre Faria, de 1710, temos uma das mais elegantes cruzes do Brasil, uma cruz pontifical, em grande proporção e esculpida em arenito. Na base da cruz foi gravada a data de 1756. No bairro Alto das Cabeças, próximo à Igreja do Bom Jesus, no meio do largo, há uma cruz em pedra arenítica; outra está no distrito de Cachoeira do Campo, também no meio do largo, em frente à Igreja de Nossa Senhora de Nazaré. Essa cruz tem, esculpidos na base, os instrumentos da flagelação de Cristo. No Museu da Inconfidência há um pequeno cruzeiro do século XVIll, .em madeira, com os instrumentos da crucificação primorosamente esculpidos. No Panteão da Inconfidência há uma cruz grande, em duas tábuas, com o corpo de Cristo pintado, lembrando a arte medieval. Há ainda uma cruz franciscana, com detalhes das mãos chagadas de São Francisco e de Cristo.

As pontes da Cadeia e do Rosário de São João del-Rei são encimadas por cruzes. A da primeira é esculpida em xisto verde e a da segunda foi destruída por vandalismo, mas reconstituída em cimento. Os cruzeiros são muitos: do Pau d'Angá, do Senhor dos Montes, do Largo da Cruz, das Mercês, do Bom Fim, da Rua do Ouro e do Pontilhão. O mais antigo é o das Mercês, que já esteve instalado na base da escadaria da igreja e hoje se encontra mais alto, ao lado, no final da escadaria da Igreja de Nossa Senhora das Mercês. O cruzeiro do Pau d' Angá está
sobre um trecho de rocha da Serra do Lenheiro, em um elevado com degraus e uma grade que o protege. O mais curioso é o 'do Largo da Cruz, que fica na parede de uma casa, contendo todos os objetos da crucificação, mas o galo ficou sobre o telhado, por falta de espaço. A cidade possui várias cruzes, sendo que algumas estão na Serra do Lenheiro. A Cruz do Barro está na esquina da Rua Padre Faustino, no nível da rua e sobre a calçada. Nessa cruz se para durante o trajeto da "Encomendação de Almas". Sobre o telhado das igrejas de São Francisco de Assis, Nossa Senhora do Carmo e das Mercês foram instaladas três cruzes de pedra. A cruz do frontispício do Carmo é formada por folhas esculpidas em xisto verde.

Em Tiradentes também podemos encontrar exemplares curiosos de cruz e cruzeiro. No adro da Matriz de Santo Antônio foi instalada uma cruz em madeira com as pontas esculpidas, tendo base em um bloco em pedra lavrada. Essa cruz se destaca no cenário que tem ao fundo a paisagem da Serra de São José, compondo uma das mais belas vistas de Minas. No Alto de São Francisco, em frente à capela, foi instalado um cruzeiro, que apresenta os instrumentos da flagelação de Cristo. Esse já foi substituído algumas vezes, há um registro fotográfico de 1940, de José Belline dos Santos, que nos mostra um cruzeiro bem menor- e mais elegante. O atual foi reconstruído pelo IPHAN. No adro do Santuário da Santíssima Trindade há um cruzeiro e ao lado da Capela de Santo Antônio do bairro Canjica também há outro, de menor porte. Sobre o telhado da Igreja de Nossa Senhora do Rosário foram instaladas três cruzes esculpidas em pedra arenítica.

Quando o viajante inglês Revendo Robert Walsh esteve em São José, hoje Tiradentes, percorreu pela Serra de São José e registrou: "Ao começarmos a descer a encosta, a primeira coisa que vimos foi uma cruz tosca, fincada numa rocha nua, indicando que ali havia sido cometido um assassinato". Trata-se da Cruz do Carteiro, um dos pontos mais curiosos da Serra de São José, pois, segundo a tradição, toda pessoa que passar por lá deve atirar uma pedra. A Cruz do Carteiro permanece no mesmo local até hoje. É o mesmo Walsh quenos informa sobre sua passagem por Lagoa Dourada: “O arraial de Lagoa Dourada consiste numa rua comprida, ladeira abaixo, contando aproximadamente com cinquenta casas e três igrejas. Trata-se de uma proporção muito elevada de prédios religiosos para um lugar tão pequeno, mas seus moradores pareciam muito devotos, pois havia cruzes erguidas diante de um número incontável de portas, dando-nos a impressão de que a cada habitante da cidade correspondia uma cruz". Continuando sua viagem: "os campos pululavam de cruzes fincadas em toda parte, que me pareciam tão numerosas como as que eu encontrara em Wallachia. Verificamos também que ali elas não indicavam locais de assassinato: algumas, erguidas por diferentes fazendeiros, indicavam os limites de suas' terras, já que os devotos brasileiros consideram a cruz o melhor símbolo que poderiam usar em qualquer ocasião".

Mais ao norte de Minas, a cidade de Diamantina tem alguns cruzeiros muito interessantes. Um deles está na parte baixa da cidade, tendo ao fundo a Serra dos Cristais. No Parque Estadual do Biribiri, encontramos uma cruz de homem morto, que indica o local onde morreu uma pessoa. Essa cruz está cercada por pedras que foram ficando polidas e oxidadas pelo tempo e ganharam tons fortes, destacando-se na área. Em Belo Horizonte, na Praça Governador Israel Pinheiro, que é mais conhecida como Praça do Papa, uma cruz feita em aço, com design moderno, mas que tem a mesma função das cruzes das localidades setecentistas: proteger a cidade.

Outro aspecto curioso de nossa cultura relacionada com os cruzeiros, vamos encontrar registrado na obra Afrografias da Memória, de Leda Maria Martins, que aborda a questão do preconceito que a Igreja Católica tinha com os Temos de Congado, impedindo-os de entrar na igreja para venerar Nossa Senhora do Rosário. "As relações do Congado com o clero eram conturbadas e a Igreja Católica não permitia que os congadeiros celebrassem suas cerimônias no templo. Os festejos eram assim; realizados nas casas dos reis e capitães e, esporadicamente, ao redor do cruzeiro, no adro das capelas". Na festa do Reinado do Jatobá, em Contagem, que mantém a forte tradição congadeira, levanta-se o mastro e depois vão aos pés dos cruzeiros rezar e reunir as energias para a festa do Rosário. Muitos chafarizes receberam cruzes como elemento decorativo e de proteção. Um dos maiores chafarizes mineiros é o de São José, em Tiradentes. A data de sua construção é 1749. Todo trabalhado em pedra arenítica se difere dos demais por suas características peculiares: na fachada há uma imagem do padroeiro São José de Botas, em terracota. De três gárgulas cai água em grande tanque abaulado, bem ao gosto do barroco. A parte frontal é fechada por mureta com banco. Nas laterais há um tanque para as lavadeiras e outro para os animais. Uma grande cruz encima o Chafariz de São José.

É provável que a cruz seja um dos símbolos mais fortes utilizados no barroco mineiro, que expressa uma reação da Contra-Reforma, ou seja, uma aproximação da devoção ao homem. A colocação de cruzes por todos os pontos, em topos de morros ou no meio de largos, pode nos afirmar isso. Um exemplo curioso é uma cruz afixada na parede lateral da Igreja de São Francisco de Assis, de Mariana. Quando caminhamos à noite e passamos por ela, com a iluminação ganha projeção e nos imprime respeito. Em São João del Rei, na parede lateral da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, encontramos uma cruz feita em argamassa, com base em arenito, alta e elegante, bem integrada ao monumento arquitetônico. Outra cruz de parede está no antigo Colégio do Caraça, na área que não foi atingida pelo incêndio que destruiu boa parte do colégio, é uma bela peça esculpida em arenito.

Como as cruzes e os cruzeiros sempre estiveram presentes no cotidiano das cidades mineiras, em Tiradentes alguns artesãos faziam miniaturas de cruzeiros que eram vendidas para turistas. Antônio Sotero da Costa (1913-1997), antigo morador do Largo do Ó, fazia cruzeiros entalhados a canivete, que eram muito delicados. Antes de falecer, teve o, cuidado de fazer um cruzeiro para cada filho, uma boa lembrança, que todos guardam com carinho. Francisco Vitor Veloso (1928-2000), mais conhecido como Francisquinho, morava no Largo das Forras e fazia cruzeiros minuciosos, também com os detalhes entalhados a canivete. João Trindade Veloso (1922), conhecido como "Passarinho", residente na Rua Padre Toledo também fazia cruzeiros; atualmente, com a saúde abalada, não produz mais. Sebastião Trindade Silva (1948), conhecido como Tião Divino, reside no bairro Mococa, é o artesão que mais se dedica a fazer cruzeiros, já são mais de cinquenta anos que cria as peças. Tião faz miniaturas de cruzeiros, algumas inseridas em lâmpadas, outras em garrafas, tudo com muito esmero.

Mantendo a tradição secular, na véspera do dia de Santa Cruz, os moradores de Tiradentes e outras cidades mineiras, enfeitam as cruzes e colocam nas portas de entrada da casa. Durante a madrugada, segunda a lenda, Nossa Senhora passa visitando a casa que enfeitou a cruz, abençoando a família. As cruzes são enfeitadas com papel crepom, papel de seda, fuxico, flores de papel, feitas de material reciclado, como latinhas, ou mesmo de flores naturais. No dia 3 de maio todas as cruzes ficam enfeitadas.

A exposição Cruzes e Cruzeiros - Objetos e fotografias- de Luiz Cruz, realizada no Centro Cultural Yves Alves/Tiradentes, no período de 03 de maio a 03 de junho de 2012, apresenta peças e fotografias de diversas cidades.

*Luiz Cruz é professor.

***

Poderia, se quisesse espichar o assunto, começar este artigo falando da cruz do calvário que Helena acreditou ter achado em inícios do século IV. Do verbo achar em latim -  invenire -  vem invenção, sinônimo de achamento. No antigo calendário litúrgico, havia uma festa no dia 3 de maio que se chamava festa da Invenção da Santa Cruz, distinta de uma outra, que ainda persiste, no dia 14 de setembro, dita Exaltação da Santa Cruz. Poderia ainda falar da primeira cruz fincada na Bahia, em 1500, quando do achamento do Brasil, que se chamou primeiro Terra de Vera Cruz. Mas, para evitar delongas, incabíveis num artigo de jornal, passo à temática sugerida pelo título acima.
Foi após as Cruzadas medievais que, por influência franciscana, a piedade cristã se voltou para os aspectos dolorosos da vida de Jesus, em sua humanidade. Relacionada a esses aspectos, desenvolveu-se uma sentimental devoção à sua Santa Cruz. A partir daí, a cruz se espalhou por todas as partes, podendo ser vista em todos os lugares: nos portais das residências, nas encruzilhadas  dos caminhos, no pináculo das pontes e das igrejas, no cume dos montes e em frente às moradias rurais, nos cemitérios e nos locais onde ocorreram mortes... Por todo lado, criando um universo religioso de dilatadas conseqüências sociológicas, uma cruz sacralizando o espaço, encantando o mundo. Da Europa medieval, o costume de levantar cruzes em lugares especiais chegou ao Brasil, veio para Minas, implantou-se em São João del-Rei.
Muitas vezes, até meados do século XX, no encerramento daquelas famosas, saudosas e arrepiantes missões populares, que Dom Antônio Ferreira Viçoso, em 1863, instituiu permanentes no bispado de Mariana, e que pregavam lazaristas, franciscanos, ou redentoristas, se costumava levantar uma cruz ou cruzeiro. Assim, de fato, ocorreu em 1906 na minha Conceição da Barra, ao final de uma missão ali pregada pelos missionários do Coração de Maria. Normalmente se entende por cruz, a latina, composta de apenas duas peças de madeira,  sem mais detalhes; já o cruzeiro é carregado com alguns ou todos os emblemas da paixão de Jesus, tais como: toalha formando um M, escada, esponja, lança, martelo, torquesa, coroa de espinho, tabuleta, túnica, cálice, dados, cravos, e até o galo. Sobrevivem ainda em São João del-Rei, quase todos desde o século XIX, embora já substituídos ou modificados, algumas cruzes e cruzeiros dos quais desejo citar os seguintes:

1 –  Cruz do Barro, numa esquina da Rua Pe. Faustino, onde faz parada o cortejo da Encomendação de Almas que vem do Quicumbi. Moradores próximos ainda conservam o belo costume de enfeitá-la para o dia 3 de maio, de acender velas e rezar às segundas-feiras.

2 –  Cruzeiro do Pau d’Angá,  assentado sobre uma pedreira, num adro a que se sobe por uma escada de 12 degraus. É deste antigo cruzeiro que mais superabundam referências nos jornais antigos, desde 1877, com esta recolhida por Ulisses Passarelli: No domingo 8 do corrente (mês de maio) os devotos do Cruzeiro do Páo do Angá festejaram a Santa Cruz com Te-Deum e sermão pelo Sr. Padre Joaquim Ignacio Vianna. Da mesma forma, em 3 maio de 1879, houve ali festa, com adoração da cruz e sermão do Pe. Joaquim Máximo Rocha Pinto. Iguais celebrações ocorreriam também em 1898, 1918, 1920 e 1924, quase sempre com a praça iluminada, concurso musical e, nas últimas três vezes, pregação do vigário Mons. Gustavo Ernesto Coelho..

3 – Cruzeiro do Senhor do Monte, estabelecido em frente à capela, veio substituir uma cruz anterior, que, segundo Luiz Antônio do Sacramento Miranda,  foi  transferida para  o lado  de lá  do  Ribeirão, fronteiriço ao  Sítio  da  Alegria.  Ainda no mesmo Bairro, alguma vítima das trapalhadas do Saci Pererê, levantou uma cruz no alto que, por isso mesmo, ficou conhecido como Alto do Cruzeiro.

4 – Cruzeiro do Largo da Cruz é de todos o mais curioso e muito antigo, pois que a ele se referiu o poeta conterrâneo Oranice Franco dizendo-o carunchado de saudades, o que já não é mais, pois, foi substituído por nova madeira. É também o mais repleto de emblemas e está afixado na parede de uma residência, tendo o galo sobre o telhado. Sua existência ali deu nome à primitiva Rua da Cruz e, desde 1918, ao atual Largo da Cruz.

5 – Cruzeiro das Mercês, ao qual já, em 1877, se referia Severiano de Resende. Ficava, então, abaixo da escadaria, próximo ao passinho do encontro, circundado de viçoso jardim e guarnecido de elegante gradil. Fora erguido, tempos antes, pelo padre francês, Miguel Sípolis, diretor do Caraça até 1867, quando se transferiu para o Rio de Janeiro. Daí se infere a antigüidade do mencionado cruzeiro, junto ao qual também se realizavam piedosas festas no dia da Invenção da Santa Cruz. Em 1913, a pedido da Câmara Municipal, a Fábrica da Matriz, à qual pertencia, o transferiu para o alto, onde permanece soberano até os dias atuais. Em sessão da Câmara, no dia 13 de outubro de 1869, se fez menção a este cruzeiro, em frente à casa do capitão Pedro Alves de Andrade.

6 – Cruzeiro do Bonfim, na Praça Guilherme Milward, levantado, em 1899, por José Maximiano do Carmo e outros, junto ao qual, como informa O Combate,  na manhã do domingo 1º de março de 1903, houve missa campal, e música da Banda do Asilo de São Francisco, e, à tarde, houve Te-Deum, tocando a esplêndida orquestra Ribeiro Bastos, seguido de leilão de prendas. Junto à capela do Bonfim, em 1938, por ocasião do centenário da cidade, foi erguido um outro cruzeiro, de mau gosto estético, que ali vemos à noite iluminado eletricamente a partir de dentro.

6 – Cruzeiro da Rua do Ouro, já no pé da Serra do Lenheiro, toda ela, aliás, cheia de cruzes, sendo delas a mais imponente a do Zé Poeta, no alto onde ele se teria enriquecido de ouro;

7 – Cruzeiro do Pontilhão, o mais recente, sem o emblema da toalha, erguido por iniciativa de Ulisses Passarelli, lá onde existia o pontilhão da linha férrea, ramal do sertão. Ao lado foi construída uma gruta do Divino e de Nossa Senhora do Rosário.

6 – Cruzeiros erradicados: O do Betume, a que alude Lincoln de Sousa em Contam que, erguido em 1898 por Antônio Tibúrcio da Costa, próximo à atual igreja de São José; o do Zé Chato junto à ponte das Águas Férreas, retratado no Diário do Comércio, em abril de 1955, com a seguinte legenda: antigo cruzeiro erguido no final da rua General Osório, vendo-se ao fundo o Oratório Festivo São Caetano. Consta que um desses cruzeiros foi transferido para junto da capela de Santa Rosa de Lima, nas Águas Gerais. Houve um cruzeiro também no Buraquinho e na Rua das Flores.

A maioria dos nossos cruzeiros foram fincados na segunda metade do século XIX, coincidindo, portanto, com a época em que D. Antônio Viçoso foi bispo da vasta diocese de Mariana. E assim, numa cidade assinalada de tantas cruzes, só me resta, para terminar, saudá-las a todas com a primeira estrofe do Vexilla Regis: Do Rei avança o estandarte, Fulge o mistério da Cruz, Que fere a Vida de morte, Morte que à Vida conduz!

NOTA

O pitoresco nome de Pau d’Angá é muito antigo, pois já aparece no Astro de Minas, em 27 de novembro de 1827. Sebastião Cintra, em Nomenclatura de Ruas de São João del-Rei, escreveu que em suas Noites de Insônia, de 1892, Modesto de Paiva versificou a lenda A sombra do enforcado, em que diz: Jesus, que casa assombrada! – Coitado de quem for lá – Junto à subida chamada – Ladeira do Pau d’Angá. E continua Cintra: Ignoro se há correlação entre as assombrações supra citadas e a construção do Cruzeiro do Pau d’Angá.


Antônio Gaio Sobrinho
Fonte: Jornal da Asap

 

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