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Jorge Haddad . Entrevistado por Alzira Agostini Haddad e Carlos Magno da Silva

Descrição

Museu da Pessoa . Inverno Cultural São João del Rei . julho de 1999
 
Eu, Jorge Haddad, sou comerciante e nasci em São João Del Rei. Meus pais são descendentes da Síria. Nasceram na Síria tanto meu pai como minha mãe, vieram para o Brasil já com três filhos: Abdo, Joseph (Wilson) e Tuffi, e aqui instalaram inicialmente em Niterói e posteriormente iniciaram suas vidas no comércio para poderem sobreviver.
Origem
Meus pais vieram para São João del Rei mais por acompanhamento de famílias, descendentes de outros países que já tinham vindo para cá . Vieram para Niterói e São João del Rei e depois indicaram ao meu pai a cidade pois talvez tivesse mais progresso, mais possibilidades de sobrevivência .
O tipo de vida deles era completamente diferente. Lá era uma vida muito mais sofrida. Depois eles vieram para o Brasil, sentiram-se muito mais à vontade. Inicialmente eles mascateavam, pegavam mercadorias, punham em cima do burro pra viajar e iam para as fazendas. Vendiam tecidos. Como eu disse no princípio, foi uma vida muito sofrida ,porque não tinham capital, iniciativa , não sabiam nem falar a língua direito, tudo isso dificultava muito iniciarem a vida. Eles lutaram muito e graças a Deus conseguiram romper e educar os filhos.
Educação
Lembrança assim de infância , poucas coisas a gente tem lembrança. Eu sei que eu estudei... naquela época não se tinha nem jardim de infância, pré-vestibular nem nada ,era grupo escolar. Eu estudei no grupo João dos Santos durante 4 anos e tive uma professora que se chamava Zizinha , uma grande professora, Dona Beatriz Leite, que infelizmente morreu a quinze dias atrás. Depois de me formar no quarto ano primário, que já era uma vitória naquela época, há 58 anos atrás, não estudei mais porque a família tinha dificuldades financeiras. Com dez anos comecei a trabalhar no comércio e fui engrenando no comércio e estou até hoje. A minha experiência foi bem diferente da que se tem nos dias atuais. Era um sistema mais antigo, não era igual ao de hoje. Hoje tem muito diálogo (o que eu acho muito bom ). Naquela época, não havia diálogo entre pai e filho, quer dizer, papai era muito rígido, trazia o filho na ponta do laço.
Falava-se muito sírio em casa, e a mamãe quase que praticamente só falava o sírio e a gente tinha que saber um pouco par saber o que ela queria e ela falava pró papai que não queria muito aprender o português porque ela já era idosa e não iria aprender com facilidade , por isso nós tivemos que aprender um pouco de sírio, que se fosse nessa época de hoje , eu ficaria até mais agradecido par aprender mais coisas da Síria.
Trabalho
Eu comecei a trabalhar na Casa Teixeira, onde hoje funciona a Caixa Econômica Federal de propriedade do senhor Edgar Teixeira, também sanjoanense .A loja era do pai dele, seu Joaquim Roque Teixeira , e fui tomando gosto pelo ramo de papelaria e comecei a trabalhar com ele durante uns 4 anos onde aprendi o ramo de papelaria. Ele parou e começou a trabalhar com rádios, radiolas e ele vendeu a papelaria para uma casa que se chamava Casa Santos. Durante um ano eu continuei trabalhando na Casa Teixeira em outro ramo, posteriormente os meus irmãos que eram donos da Primavera, junto com papai, compraram essa casa que era a Casa Santos, outra papelaria e com isso eu passei a trabalhar junto com o meu irmão Miguel, hoje falecido. Começamos a trabalhar, mas não na firma , a firma era ainda a firma do papai no caso. Ficamos trabalhando por muitos anos e posteriormente nós dividimos a loja; eu fiquei com a loja de papelaria e o Miguel com uma outra loja de armarinhos. Nós trabalhamos juntos na Casa Teixeira mais ou menos de 1944 até 1948. Em 1948 eu passei a trabalhar na A Colegial, que é a mesma até hoje. Eu e meu irmão Miguel fundamos A Colegial. Em 1958 desmembramos a loja. Eu fiquei com a Colegial e ele foi comprar uma loja de armarinhos e passamos a trabalhar separadamente.
De 1948-58 o comércio era completamente diferente. Não tinha muito movimento e nós tínhamos poucos colégios em São João. Aos poucos foi aumentando, a cidade foi progredindo. Eu lembro bem; a Avenida Tancredo Neves era a Avenida Rui Barbosa. O calçamento das ruas era da ponte da cadeia e ia até o obelisco só (na ponta do teatro).Dali pra baixo era tudo terra até o Matosinhos e somente terrenos vazios.
Eu lembro de uma passagem interessante: quando nós estávamos trabalhando na loja , não tinha condução nenhuma para que pudéssemos nos locomovermos para os diferentes lugares da cidade. Então teve um senhor que comprou uma lotação, espécie de um micro ônibus , muito bonito . E logo que ele chegou com o ônibus que se chamava jardineira, logo puseram o apelido de Marta Rocha, porque a Marta na época tinha sido Miss Brasil.
Este ônibus não era o famoso Grizú que era de propriedade do senhor Zé Narciso. Fazia uma linha aqui da ponte da cadeia, próximo à loja do Jorge, até a rua das fábricas e com o tempo , com as coisas mudando, chegou até o bairro de Matosinhos.
O começo de A Colegial
Eu me lembro da loja "Ao Cachimbo Turco", de tradição na cidade. A Loja era do senhor Trindade que era um homem muito sistemático e eu comprava lá até com um pouco de receio porque ele era carrancudo. Depois que eu adquiri A Colegial, nós nos tornamos até amigos e agente até conversava, mas ele era de pouca conversa . Naquela época não tinha caderno de 10 matérias, fichário e nada. O que tinha era um caderninho de 10 ou 20 folhas e eu ficava o ano inteiro com ele, pois não podia gastar muito.
A Casa Cristal, que hoje é a A Colegial era uma grande casa de ferragens de propriedade do senhor Manoel Azevedo. A família era muito grande e foi se desmembrando ficando praticamente o Luso Filho, e com isso, o comércio caindo muito, surgindo concorrentes bons, como a Casa Alves Neto e ele acabou fechando a loja.
Eu tinha um ponto aqui na avenida que eu consegui vender para a Caixa Econômica Estadual. Depois de um mês eu comprei o prédio do Luso e foi aí que eu montei na época a minha loja de móveis e papelaria. Tínhamos fregueses da região toda. As cidades de Prados, Dores de Campos, Barroso, Madre de Deus não tinham comércio na época , então eles vinham todos para São João fazer as compras. Na Semana Santa, não se tinha Semana Santa nas outras cidades, era só aqui. Vinham pessoas de Belo Horizonte, Rio e outras cidades, tudo para ver a Semana Santa daqui.
Tem uma história sobre o lança perfume. Há, era uma coisa muito boa porque não era usado como é usado hoje. Era uma coisa que chamava a atenção das meninas. Você usava dois lança perfume e as meninas ficavam toda-toda. Não se cheirava o lança perfume como hoje, tanto que ele era vendido no comércio. Eu mesmo vendi muito lança de 200g por 75 cruzeiros na época. Nos dias de carnaval tinha dificuldade de buscar em São Paulo porque não tinha. Se não chovesse, ia subindo de preço.

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