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Wangui: o impressionista colonial . Marcelo Alves

Descrição

Galeria Virtual de Wangui



Wanderley Mario Guilherme, mais conhecido por Wangui, é um dos artistas plásticos são-joanenses que trabalha com a reciclagem de materiais por meio da arte. Ele mora com sua irmã e com uma cadelinha chamada Susi, numa pequena casa no centro da cidade. Wangui conta como formou seu estilo, o começo difícil da carreira de um jovem artista, sua paixão pelas pequenas coisas e a tendência da fabricação e reprodução na arte.

Na apertada sala, o visitante se depara com as obras na parede, muitas delas feitas sobre inusitados taquinhos de madeira, desses que se põe no chão. Há uma vitrine de doces, que sua irmã, Cida, vende à meninada da vizinhança. O que ocupa a maior parte do local tem nome controverso. Uns chamam de lixo, outros, de materiais recicláveis, Wangui, de futuras obras de arte.

Intimismo Colonial
Wangui pinta o Intimismo Colonial. Com cores marcantes e formas imprecisas, ele retrata os casarões e a realidade de sua tão amada São João del-Rei. As matizes contrastam e dançam ao olhos do admirador, mas não o agridem, tem um balanço eficiente. “Não consigo realizar o trabalho sem o céu e a montanha de fundo. Lembrando as Minas Gerais”, diz o perfilado.

O artista quando jovem
Ele conta que sempre teve uma ligação muito forte como desenho e com a natureza. Desde a infância, conviveu com o quintal, com as árvores e a terra. Passava seus dias desenhando e sonhava em se tornar um pintor. Tinha o sonho de criar um quadro só. Descreve que foi na papelaria e comprou as cores básicas de tinta e uma tela. Fez o desenho, em 1979, a partir de um rosto de uma revista.

Contudo, esse quadro não foi o único, não contentou o artista. Wangui procurou, com a ajuda de sua irmã, alguém que lhe ensinasse uma técnica de pintura. Daí para frente, ele só foi se aprimorando, passando do desenho para o óleo. “Demorei seis meses para pintar meu primeiro quadro com óleo”, afirma.

Ascensão
Wangui foi caminhando e pintando. Com dificuldades, ele fazia exposições curtas, em pequenos locais. Em 1990, ele relata que foi preciso muita coragem para ir ao campus Santo Antônio da, então, Funrei, tentar inscrever suas obras no 3º Inverno Cultural. “Com tamanha surpresa que descobri que fora aceito. A Funrei me apresentou como artista perante a sociedade”, reconhece Wangui.

Daí, foi uma exposição atrás da outra: apresentações de trabalhos, feiras, coletivas, e lançamentos. Suas participações e o reconhecimento de sua obra aumentavam. O artista alcançava maturidade quando seu pai faleceu. Wangui diz que foi como um movimento reverso em sua vida. “Estava caminhando ao ermo, sem sentido. Fiquei no chão mesmo”, expôs.

Em 1997, tentando se restabelecer, Wangui foi convidado pela Caixa Econômica Federal para uma grande exposição, que ele chama de luz no final do túnel. “Isso me levantou, me deu nova tomada na vida. As feiras e participações voltaram”, narra.

O auge
Em 2000, houve a primeira retrospectiva de seu trabalho, marcando os 21 anos de carreira. A exposição, no Museu Regional, chamou: “A maior idade de um artista, Wangui, 21 anos de arte, traços retrospectivos”. Isso marcou época, juntando mais de 100 quadros de todo esse período.

Assim, começaram os convites para Wangui dar aulas. O que o levou aos bairros, estimulando o desenvolvimento da pintura fora do centro e resultando em duas exposições: “Se tudo termina em pizza, por que não em arte?” e “Saudações Patrimoniais”. Esta, foi marcante para ele, pois trouxe à tona a discussão de um método para levar a temática da preservação arquitetônica às escolas.

Ao se tornar um professor, o entrevistado recebeu muitos convites para ensinar. Ele ressalta que a mais gratificante de todas foi no Centro de Atenção Psicossocial de São João del-Rei (CAPS), onde ele mostrou a pintura a doentes mentais. “Hoje, se eu pudesse escolher entre ensinar uma pessoa normal e outra com deficiência, escolheria a última, por tudo aquilo que eles nos passam. Gosto demais dessa experiência. Quando não posso ir, sinto falta deles”, conta.

Reciclagem
“De quinquilharias a arte ou quem diz que tudo é arte?” foi o nome da exposição de Wangui que carregou a temática da reciclagem. Para ele, todo material pode ser transformado em arte, desde um CD, uma pedra, um taquinho a uma tábua de carnes. Assim, ele foi diversificando suas técnicas. “Todo material que eu tenho, transformo em arte. Com a arte, pode-se transformar todos os males do mundo. A arte é infinita”, diz.
Frequentemente, a entrevista era interrompida por vizinhos. Wangui é conhecido por seu trabalho de reciclagem e as pessoas acostumaram a trazer material para ele, jornais, plásticos, madeira, entre outros.

A arte e a sociedade
Wangui afirma que sempre pinta ao som de alguma música, suas favoritas são as de Bossa Nova e MPB. Ao chegar à entrevista, disse estar vindo de um programa de rádio, no qual relatava algumas de suas experiências. Para ele, um artista não pode reclamar quando um órgão da impressa publica uma foto sua ou menciona seu nome. “Isso é errado. Eu adoro quando um jornalista vem até mim e me faz perguntas. Mostra que meu trabalho está sendo reconhecido, que outras pessoas gostam do que eu faço. Vivemos na época da comunicação total, não há como lutar contra isso”, argumentou.

Ele defende que música, pintura, cinema, poesia, teatro, dança estão interligados e constituem uma só forma de arte. Todas elas comunicam ideias, emoções, concepções de vida. Por isso, a comunicação também é uma arte. “Ontem uma pessoa me disse: Wangui, você tem a comunicação na ponta da língua. Respondi: a gente tenta fazer isso por meio da arte”.

O entrevistado explica que o artista é um ser iluminado na sociedade. Este passa luz, vida e emoção a indivíduos que podem estar angustiados. “As pessoas estão com tantos problemas e frustrações, mas a vida é tão maravilhosa. Tento mostrar isso noa meus quadros pelas cores e experiências transmitidas”.
A arte precisa ser valorizada e a sensibilidade das pessoas, estimulada, diz. Wangui observa, com interrogações, o sentido e a definição de Arte. Para o perfilado, ela é feita com o coração e sentimento. “Um quadro não precisa ser grande e altamente técnico. Trabalho com elementos simples, em taquinhos, mas o faço com o coração”, revela.

O artista afirma que vê muitas coisas serem chamadas de arte sem o merecer. Segundo ele, a fabricação e a reprodução estão sendo cada vez mais valorizadas na sociedade, em detrimento da criação. Isso acontece em função do valor de mercado e da intenção de fabricar para vender. “Arte, mesmo, não vejo nada. Fabricar é fazer aquela quantidade de coisas, sem colocar sentimento. Mas criar é um processo orientado pela inspiração. O quadro é uma vida, um filho, uma composição de ideias e emoções. Um verdadeiro pintor só pinta um quadro uma vez”, finalizou.

Publicado no Observatório da Cultura . 08 de outubro de 2010
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