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Arquitetura Bandeirante . Luiz Cruz

Entre 2008 e 2009, completam-se os 300 anos da Guerra dos Emboabas. As cidades setecentistas de Minas Gerais foram o cenário deste episódio que nos legou mais uma valiosa página da história, pois seguindo os especialistas do tema, a saga emboaba teria sido a primeira guerra civil das Américas.

No final do século XVII, os paulistas saem em busca das sonhadas minas de ouro, prata e esmeraldas. Os grupos de paulistas tinham uma certa organização, quando não contavam com o apoio dos índios, atacavam e os escravizavam, sempre visando tê-los para auxiliar nos trajetos, carregar, abrir picadas e, especialmente, ajudar a encontrar comida.

Entradas e Bandeiras. As entradas eram grupos de expedições oficiais, custeadas pelo governo colonial. As bandeiras eram expedições particulares.

Seguindo preferencialmente as trilhas indígenas, os bandeirantes desbravam os sertões das Minas dos Cataguás, estabeleceram roteiros, instalaram os primeiros arraiais, fizeram as primeiras plantações e deram as notícias das terras férteis. Os bandeirantes foram os descobridores do ouro das Minas.

A bandeira de Fernão Dias Paes saiu de São Paulo em 1674, abrindo caminhos e deixando suas marcas. Outras seguiram o exemplo. Apesar da relevância, pouco nos resta de comprovação documental do que realmente foram os primórdios de Minas. Na região do Rio das Mortes, o primeiro arraial a ser instalado foi em torno de 1702, o Arraial de Santo Antônio do Rio das Mortes, atualmente a cidade de Tiradentes, mas com certeza grupos de bandeiras já haviam percorrido esta área. O nome deste rio já era conhecido logo nos primeiros anos dos setecentos e é André João Antonil em Cultura e Opulência, obra publicada em Lisboa, em 1711, quem vai nos informar: “a qual paragem chamam de rio das Mortes, por morrerem nela uns homens que o passaram nadando, e outros que se mataram às pelouradas, brigando entre si sobre a repartição dos índios gentios que traziam do sertão”.

As bandeiras tinham duas estratégias para suas caminhadas, atingir os topos de montanhas, de onde havia maior visibilidade do local que se encontravam e seguir pelos fluxos de água, visando encontrar ouro. Apesar das dificuldades enfrentadas pelas expedições, dos ataques indígenas, animais ferozes e peçonhentos, as condições geográficas e a abertura da Mata Atlântica praticamente virgem, a iniciativa logo foi recompensada: o ouro foi encontrado e fartamente.

Um dos incentivos à iniciativa dos bandeirantes para sair enfrentando situações tão hostis foi a Carta Régia de 18 de março de 1694, que dizia que “os descobridores tornaram-se os proprietários dos ribeiros”. Tamanha era a ansiedade dos bandeirantes que romperam os limites do Tratado de Tordesilhas e o Brasil tem tal dimensão graças à iniciativa Bandeirante. Como diz  Murilo Mendes no poema A Bandeira: “... Não achamos esmeraldas / Mas o tempo não perdemos : / No fim deste pic-nic / Desenrolamos no céu / A bandeira do país”.

A notícia de que os paulistas haviam descoberto ouro, imediatamente se propaga por todos os cantos da colônia, atraindo para as Minas muitos portugueses, baianos e ainda oriundos de Pernambuco, Rio e demais lugares, vindos com um único objetivo: achar ouro. Os paulistas logo começam a reagir, uma vez que eram os pioneiros e, de acordo com a Carta Régia, se consideravam proprietários de toda a área. Os pioneiros, para distinguirem os recém chegados, passam a denominá-los de emboabas. “Embuaba ou Buabá era o termo que os paulistas chamavam as galinhas ou quaisquer outras aves que tinham as pernas cobertas de penas e se dizem calçadas”, conforme José de Souza Azevedo e Araújo Pizarro, em Memórias Históricas do Rio de Janeiro.

Ouro, carne e fome. Os homens só pensavam em ouro, trabalhavam dia e noite procurando ouro, sonhando em se enriquecer. E quem tinha o monopólio da carne, tinha um outro tipo de ouro, a carne vermelha, que custava tão cara quanto o próprio ouro. Ou seja, o comércio especulativo da carne chega exatamente junto com o ouro. Quem não comprava os alimentos a peso de ouro, morria de fome.

Os paulistas defendiam suas minas, pois se sentiam donos, pelo fato de serem os descobridores. Mas, a cada dia que se passava, mais emboabas chegavam à região atraídos pelas notícias de que nas terras das Minas havia muito ouro. O primeiro incidente ocorreu no Arraial do Rio das Mortes, hoje Tiradentes. Sebastião da Rocha Pita registrou em História da América Portuguesa, no Livro Nono, obra apresentada à Academia Real em 1726 e publicada em 1730: “Tiveram princípio as dissenções no Arraial do Rio das Mortes, por uma que fez um Paulista tirania e injustamente a um Forasteiro humilde, que vivia de uma agência. Desta sem razão alterados os outros Forasteiros e desculpavelmente enfurecidos solicitaram a vingança da vida de um e da ofensa de todos”. Depois deste incidente e seguido de outro no adro da Matriz de Caeté, envolvendo o português mais poderoso da região, Manuel Nunes Viana, a situação se agrava. Paulistas e Emboabas acirram as rivalidades. Ataques e defesas. Até que Manuel Nunes Viana foi aclamado como o governador e Caeté a capital das Minas, à revelia da Coroa Portuguesa. Nunes Viana organizou um exército para expulsar os paulistas. A tática utilizada pelos emboabas é de criar boatos de ataques, o que foi aos poucos desestruturando e enfraquecendo os paulistas. Os pioneiros vão sendo expulsos, a partir de Caeté. Diversos confrontos aconteceram e o mais famoso é o do “Capão da Traição”, que ocorreu quando os paulistas já se encontravam acampados no Arraial do Rio das Mortes, retornando para São Paulo. O emboaba Bento Amaral Coutinho cercou o acampamento e depois de dois dias de cerco e esgotadas as munições dos paulistas, “sobre aquela gente desarmada, caiu sobre ela, massacrando-a toda. Eram cerca de trezentos homens e foram todos imolados”, conforme Rocha Pombo, em História do Brasil.

A partir do episódio do “Capão da Traição”, os demais paulistas retornam e Manuel Nunes Viana ordena, como governador aclamado, a paz nas Minas.

Antonil e Rocha Pita deram contribuições fundamentais para o tema. Muitos pesquisadores partiram de seus registros pioneiros. Dentre eles Cláudio Manoel da Costa e o brasilianista inglês Robert Southey. Há polêmicas sobre o assunto, principalmente entre Affonso Escragnole Taunay e José Soares de Melo. Isaías Golgher com Guerra dos Emboabas – A primeira Guerra Civil nas Américas, Eduardo Canabrava Barreiros com Episódios da Guerra dos Emboabas e sua Geografia e Diogo de Vasconcelos com História Antiga de Minas Gerais são obras fundamentais para entender o assunto.

As notícias sobre a Guerra dos Emboabas são bastante reduzidas, por se tratar bem do início de uma ocupação aleatória do final do século XVII e dos primeiros anos do XVIII. A primeira obra a registrar a palavra “emboaba” foi Cultura e Opolência. Nela encontraremos uma referência a “um fortim com trincheiras e fôsso que fizeram os emboabas no primeiro levantamento” no Arraial da Ponta do Morro, próximo do Arraial do Rio das Mortes. Sebastião da Rocha Pita, também faz referência a uma fortificação no Rio das Mortes. Ele ainda comenta que “mais de oito dias estiveram os Paulistas constantes em bater aos forasteiros, e cansados ou satisfeitos de haverem constrangido aquele povo a não sair dos limites da sua pequena circunvalação”. O termo circunvalação significa: fosso, vala com parapeito que interrompe as comunicações de uma praça com o exterior, ou obstáculos em volta de uma povoação. O forte emboaba, construído próximo ao sopé da Serra de São José ficou perdido no tempo por longos anos, até que foi descoberto, por acaso, recentemente, por Wellington Paulo Resende e tem sido objeto de estudos de Adriano Pinto, que vem desenvolvendo trabalho de divulgação e incentivado a pesquisa sobre o forte. No início de 2007, fui convidado por Adriano para visitar o forte e lá o encontrei com um ensaio que eu havia publicado sobre a Saga Emboaba e ele estava eufórico para apresentar-me o achado. Foi uma grata surpresa, partindo da BR 383, caminhando rumo a Serra de São José e, no meio de uma mata fechada, encontrar o Forte Emboaba, exatamente como descreveram Antonil e Rocha Pita. Esta ruína ocupa uma área de cerca de 3,5 mil metros quadrados, com 70 metros de frente e 50 de lateral. Caminhamos por toda área da ruína, onde a floresta abraçou as largas paredes de pedra e o acúmulo de material orgânico foi soterrando os compartimentos. Enquanto admirávamos o forte, um macaco de porte médio, um Alouatta fusca (bugio) nos acompanhava do alto de uma frondosa árvore que nascera em uma das paredes da construção. Um córrego desce próximo ao forte e descobrimos vestígios de uma ponte, soterrada, aparecendo parte de seus pilares. O forte está próximo à Mata dos Paulistas, outra referência à Guerra dos Emboabas. A área onde se encontra o Forte Emboaba sempre pertenceu a São José del Rei, a atual cidade de Tiradentes, mas com os desmembramentos, a área passou a integrar ao município de Lagoa Dourada. O Conselho Municipal de Patrimônio de Lagoa Dourada já iniciou o processo de tombamento do forte.

Outra construção foi instalada no sopé da Serra do Lenheiro, atrás da Igreja de Nossa Senhora das Mercês, em São João del Rei. Trata-se de local com ampla visão da área, especialmente da Serra de São José. O fortim de São João del Rei encontra-se em dois blocos. O bloco retangular, fechado por muro de pedra, está totalmente abandonado. O outro bloco está bem cuidado, há betas de ouro dentro da área murada, sendo que uma delas deveria conectar com o outro bloco, mas lamentavelmente está sendo aterrada por lixo doméstico. Na casa que localiza-se em um canto do terreno, há um chafariz externo. Ainda em São João del Rei, na Praça Senhor Bom Jesus de Matozinhos, vamos encontrar uma coluna de pedra, instalada em 12 de outubro de 1990, referindo-se ao “Capão da Traição”.

Com os dois fortes instalados nas duas extremidades, a Serra de São José, o Arraial do Rio das Mortes e o Arraial Novo (a atual cidade de São João del Rei) estavam em alerta e bem guarnecidos.

No sopé da Serra do Gambá, no município de Entre Rios de Minas, atualmente povoado de São José das Mercês, vamos encontrar um complexo de ruínas, que parece ter sido edificado nos últimos anos do século XVII ou primeiros do XVIII. A área, de propriedade de Gentil José Pinheiro, ocupada pelas ruínas de pedra totaliza 6.143 metros, foi tombada pelo Patrimônio Cultural de Entre Rios de Minas, através do Decreto 801, de 27 de novembro de 2.000. Na edificação, provavelmente, teve um paiol e uma estrebaria, onde temos uma parede frontal de aproximadamente 15 metros de comprimento por 5 metros de altura. Um portal de 3 metros de largura e vestígios de que houve uma porta de duas folhas para acesso à estrebaria, que tem aproximadamente 23 metros de comprimento interior, sem nenhum vão para janela, iluminação ou ventilação. Em um trecho é possível observar que havia um telhado com duas águas. Em um dos cômodos, na parede de pedra há um vestígio que poderia ter sido um oratório. No conjunto podemos observar a solidez e preocupação com a segurança, especialmente com o acesso ao “fortim”, mas nenhuma preocupação arquitetônica com o conforto. Os bandeirantes devem ter construído esta fortaleza para se defender dos ataques indígenas e dos animais. Há, também, a possibilidade de neste local ter existido uma casa clandestina de fundição de ouro.

O Vale do Paraopeba abriga um curioso sítio de ruínas setecentistas, que incluem os municípios de Moeda, Brumadinho e Belo Vale. Neste conjunto, com trecho de estrada calçada por grandes pedras, pode ter abrigado uma das casas clandestinas de fundição de ouro. O turismo predatório tem comprometido essas ruínas históricas.

Posteriormente, Manuel Nunes Viana e Pascoal da Silva, aliados desde a Guerra dos Emboabas, se opõem ao conde de Assumar. No antigo Arraial de Ouro Preto, no local conhecido como Morro do Pascoal, onde um grupo de paulistas, a mando de Assumar, ateou fogo nas casas, no dia 16 de julho de 1720. Deste episódio restou um belo e curioso sítio de ruínas e a área passou a ser chamada de Morro da Queimada. Visitamos o local por algumas vezes em 1977, acompanhados pelo professor e restaurador Jair Afonso Inácio. A imagem das ruínas envolvidas com a planta ora-pro-nobis ficou gravada em minha memória. Vimos ruínas serem desmontadas para utilizarem as pedras em novas casas, ou a utilização de paredes antigas integrando novas habitações, mesmo sendo um local protegido e já com algumas prospecções arqueológicas realizadas. Agora, no início de janeiro de 2008, visitei o local, que ainda sofre gravemente com a ocupação desordenada. Ainda em Ouro Preto, dentro do Parque Estadual do Itacolomi, há uma edificação conhecida como “casa bandeirante”, que se encontra restaurada e pode ser visitada.

A cidade de Caeté, onde se encontrava instalado o governador Manuel Nunes Viana, foi o cenário principal da Guerra dos Emboabas. A localidade abriga diversas ruínas dos primeiros anos setecentistas. A Prefeitura de Caeté acabou de realizar um amplo trabalho de mapeamento das ruínas, destacando-se dentre elas as ruínas do Morro Vermelho, onde há vestígios de um cemitério e de um aqueduto. Segundo a Diretora de Patrimônio de Caeté, Lívia Ferreira Martins, recentemente, no sopé da Serra da Piedade, foi encontrado mais um sítio de ruínas, até então totalmente desconhecido.

O engenheiro de minas Wilhelm Luidwig von Eschwege resgatou a história dos primórdios de Minas e os seus conflitos, especialmente entre paulistas e emboabas. Eschwege publicou Pluto Brasiliensis, em 1833, em Berlin, e nesta obra registrou seu amplo trabalho de campo nas áreas auríferas mineiras. Ele cita confrontos da Guerra dos Emboabas em fortificações, ficando, em alguns momentos, sem localiza-las devidamente.

A saga emboaba foi o primeiro episódio de muitos que envolviam a grande produção de ouro em Minas. As toneladas do minério precioso de Minas agitou a economia do mundo. Com ele Portugal construiu belíssimas igrejas, palácios, castelos, aquedutos, conventos, inclusive reconstruiu Lisboa, que fora atingida por um terremoto em 1755. Os museus portugueses guardam inúmeras peças em ouro e pedras preciosas mineiras. A Inglaterra também se beneficiou com o ouro mineiro, que alavancou a Revolução Industrial. E é no British Museum, o mais antigo museu do mundo, que se pode conhecer duas moedas de ouro cunhadas em Ouro Preto, em 1726.

Mais de um século após a Guerra dos Emboabas, o sonho dourado atrairia, ainda, a Minas inúmeros ingleses, franceses, austríacos, prussianos, alemães e mais gente de outras nacionalidades.

Muito se publicou sobre a Guerra dos Emboabas, mas a história não fica congelada, ela sempre precisa ser revisitada e agora está à disposição a obra As Minas Setencentistas, Editora Autêntica/Companhia do Tempo, com textos de 41 especialistas, dentre eles Adriana Romeiro, que trás nova luz sobre o tema Paulistas X Emboabas.

Caeté, Sabará, Piranga, Rio Acima, Raposos, Congonhas, Ouro Branco, Mariana, Ouro Preto, Itabirito, Barão de Cocais, Santa Bárbara, Prados, Tiradentes e São João del Rei e outras localidades devem celebrar os 300 anos da Guerra dos Emboabas, fato marcante do início da formação da história e identidade cultural do povo mineiro. Porém, é necessário que o IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e o IEPHA – Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico, bem como cada Conselho Municipal de Patrimônio criem instrumentos para a preservação destes importantes sítios históricos. E urgente, pois alguns correm risco de desaparecer. Somente após a realização de novas pesquisas, de levantamentos e prospecções arqueológicas poderemos conhecer melhor o valioso legado da arquitetura bandeirante.


*Luiz Cruz é professor e associado do Instituto Histórico e Geográfico de Tiradentes.

Texto apresentado no dia 19 de janeiro/08, na sede do IHGT, em Seção Solene,

comemorativa ao 290º aniversário de elevação do Arraial de Santo Antônio do Rio das Mortes à Vila de São José del Rei, a atual cidade de Tiradentes.


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