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Maria Stella Neves Valle . Maestrina


Foto Kátia Lombardi

Mais informações:
Orquestra Ribeiro Bastos
Imagens Orquestra Ribeiro Bastos
Música em São João del-Rei
A Orquestra Ribeiro Bastos de São João del-Rei/MG: Prática e aprendizagem musical em uma tradição tricentenária . Fabíola Moreira Resende
Telêmeco Victor Neves
Memorial Cardeal Dom Lucas Moreira Neves
Centro de Referência Musicológica José Maria Neves - CEREM
1ª Semana Cultural Maestrina Stella Neves Valle . 17 a 22/06 . Memorial Dom Lucas Moreira Neves . Programação Completa 

Maria Stella Neves Valle. Brilhante e sonora estrela no céu de São João del-Rei

Quanto mais um povo reconhece como valores culturais não apenas obras, tradições e monumentos, mas  também as pessoas que construíram e constroem seu patrimônio, mais se apropria de sua própria história, mais revigora sua identidade e mais fortalece sua auto-estima. Isto é o que vemos cada vez mais em São João del-Rei.
Neste 17 de junho, por exemplo, a cidade - por meio do Memorial Dom Lucas Moreira Neves - dá início a uma programação cultural em homenagem à maestrina Maria Stella Neves Valle que, se viva, hoje estaria completando 86 anos. Há um ano Dona Stella nos deixou, mas continua viva em cada nota musical que salta dos instrumentos e das gargantas da barroca Orquestra Ribeiro Bastos, que regeu por quase quarenta anos.
Missas cantadas, palestras, programas educativos, lançamento de vídeos, recitais - tudo acontecerá durante a I Semana Cultural Maestrina Maria Stella Neves Valle, para aumentar ainda mais o acesso, o conhecimento e o gosto dos são-joanenses pela música colonial mineira, da qual São João del-Rei é a maior expoente. Como se vê, mais do que um evento laudatório, esta I Semana Cultural, assim como todos os eventos realizados pelo Memorial Dom Lucas, tem inegável caráter de utilidade pública e promoção cultural.
A Verônica da Procissão do Senhor Morto é um dos mais emblemáticos signos das tricentenárias tradições religiosas de São João del-Rei. Dona Stella desde sempre zelou deste personagem, ensaiando as cantoras que, nas Sextas Feiras da Paixão, vivem esta mulher bíblica. Ela mesma, na distante  Semana Santa de1950, foi Verônica, emprestando sua voz à setecentista composição de Manoel Dias de Oliveira, "O vos omnes / qui transitis per viam / atendite et videte / se est dolor / sicut dolor meum". Por isto, nada melhor para homenageá-la do que o I Encontro de Verônicas que, na programação, reunirá, na noite de 21 de junho, Verônicas de São João del-Rei, Ouro Preto, Serro, São Paulo e de várias outras tradicionais cidades brasileiras. Não se tem notícia de outro encontro semelhante realizado no Brasil ou em outra parte do mundo. 

Antônio Emílio da Costa é jornalista e administra o Blog Tencões e Terentenas

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Palmas para nossa maestrina soberana
Antonio Emilio da Costa

Se São João del-Rei é mesmo a ‘Terra da Música’, a Música em São João del-Rei tem nome. Se chama Maria Stella Neves Valle.
Dizer isso não é exagero. Dona Stella - como é respeitosamente conhecida a competente maestrina - há mais de meio século é uma das principais responsáveis pela perpetuação da tradição musical barroca na cidade, desde 1977 regendo a bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos. Tanto que hoje, seja no imaginário sociocultural de São João del-Rei, seja na realidade cotidiana do cultivo da música colonial na cidade, seu nome é o que primeiro surge quando o assunto é música, demonstrando como é forte a simbiose que existe entre a pessoa, a cidadã e aquela modalidade de arte. Tamanhas são a identificação e a dedicação que não é possível imaginar a Música são-joanense sem Dona Stella nem a existência de Dona Stella sem a presença da música.
Quem não a conhece e vê Dona Stella, na sua discrição e simplicidade, atravessar as ruas seculares, não consegue supor que aquela senhora morena, a seguir com passos firmes e determinados rumo aos ensaios, às missas e ao Memorial Dom Lucas, é uma pessoa poderosa, capaz de transmutar o tempo. De abrir no século 21 pausas para o século 18. De orquestrar, em atos e movimentos, notas musicais, pautas, partituras, vozes, instrumentos, intervalos, sons, silêncios, papéis, tinta, madeiras, cordas e metais, transformando-os em discurso e sentimento delicados. Tudo com determinação absoluta e com firmeza declarada; com emoção contida e com entusiasmo introspectivo. A realidade tem provado que não é preciso, e nem poderia, ser diferente.
Muito engana-se quem pensa que, ao reger sempre as mesmas obras e repertórios nas mesmas celebrações, a atuação de Dona Stella é automática, mecânica e repetitiva. Ao contrário, requer constante inovar e renovar sem, contudo, descaracterizar. E, até mesmo (por quê não?) criar e recriar. Não é isso o que ela, herdeira de rica ancestralidade musical, tão bem faz quando ‘tempera’ compassos, colore notas, altera timbres, redefine tempos?
Sem dúvida, o uso que Dona Stella faz de sua existência é uma declaração de amor à Música, a São João del-Rei, à cultura, à memória, a Deus e à humanidade. Por isso, nada mais justo e merecido do que a expressão de reconhecimento que a Atitude Cultural publicamente lhe confere na Semana Santa de 2010. Homenagem que nós, são-joanenses, coletivamente comungamos e aplaudimos.
Bravo! Parabéns! Obrigado, Dona Stella...

Antonio Emilio da Costa é jornalista e pós-graduado pela USP e UnB
Fonte: Gazeta de São João del-Rei 27/03/2010

Leiam artigo Tapetes de Rua São João del-Rei . Antônio Emílio da Costa

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Maria Stella Neves Valle
Entrevistada por Betânia Maria Monteiro Guimarães e Helaine Maristela de Oliveira Ferreira
Museu da Pessoa. Inverno Cultural São João del Rei . julho de 1999
Meu nome é Maria Stella Neves Valle, nasci em São João del Rei, aos 17 de Junho de 1928. Meu pai se chamava Telêmaco Victor Neves e minha mãe Margarida Alacoque Moreira Neves. Ele era bibliotecário municipal e ela professora.
Infância
Passei minha infância sempre numa casa aqui do lado, 394, ao lado da minha casa atual, a Rua Santo Antônio. As brincadeiras eram em casa, muito em casa, com dez filhos juntos e com os pais que gostavam de brincar também. Brincávamos as brincadeiras da época, os piques e as rodas. Na rua também pois essa rua é muito boa para criança brincar, ate hoje! A brincadeira que me lembro muito é que meu irmão , hoje religioso, gostava de brincar de celebrar missas e a gente tinha que ser sacristão, tinha que ser coro, tudo senão apanhava. Meus pais eram como a época exigia: que fossem enérgicos . Desde de cedo, já de avós, tivemos formação.
O aprendizado da música
Na minha infância, como meu pai era professor de música em casa, e bem cedo a gente começou a aprender música e com 13 anos já estava na orquestra . Meu era o regente, foi regente de 1940 a 1950. Lá, eu toquei um pouco de harmônio. Tenho um irmão que escolheu como profissão única a música, seu nome é José Maria Neves.
Educação
Comecei no Escola Estadual "João dos Santos" . Depois de lá, eu passei uma porção de tempo sem estudar porque meus pais eram pobres e não podiam pagar. Os dois mais velhos, estudavam: a minha irmã no Colégio Nossa Senhora das Dores e o mais velho já estava no seminário, mas davam despesas. Então , na minha vez tive que abrir mão . Voltei a estudar depois de casada. No ano de 1965, fiz supletivo de primeiro grau, de oitava série, depois cursei o magistério e fui logo para a faculdade. Sempre continuei com a música , freqüentava a todas as atividades da orquestra só quando estava na faculdade, em que as aulas eram à noite, as missas de quintas e sextas-feiras não podia ir, mas as de Domingo eu estava sempre.
Namoro e casamento
Numa família religiosa não ia a bailes , não ia a nada. Era o footing na avenida, e olhe lá . Comecei a namorar Vicente Valle na Orquestra Ribeiro Bastos, mas já o conhecia na cidade como cabeleireiro. Ele era também músico e compositor, trabalhava na Orquestra na parte de composição e copista. Nos casamos em 30 de Julho de 1959.
Trajetória profissional
Meu primeiro emprego foi como funcionária municipal. Quando meu pai morreu, o prefeito na época, Padre Osvaldo Torga , me chamou para trabalhar justamente para ter uma renda familiar. Eu já ajudava meu pai em casa , como professora de música, depois de casada , algumas vezes substituí umas professoras do conservatório quando elas entravam em licença. Eu só fui definitivamente para o conservatório em 1964. Fui a primeira pessoa a se formar pelo conservatório. Fiz o curso de canto, na época eu fui sozinha no ano de 1960. Minha professora de canto foi Janice Mendonça. Fui professora de todas matérias pedagógicas e fui professora também de canto e flauta doce. Atualmente sou Regente da Orquestra Ribeiro Bastos , desde 1977 , indo lá quase todos os dias. Depois que aposentei, em 1998, não tive mais tempo, hoje só caminho como lazer. Realmente, o que mais marcou na minha carreira foi a orquestra. Sinto-me muito responsável pela manutenção da Orquestra Ribeiro Bastos na cidade. Ela atua, mais ou menos, 250 vezes por ano, desde 1754, ano da sua origem.
Sonho
Minha maior preocupação hoje é com a preservação das orquestras. Cuido do arquivo, que é muito precioso, com muitas partituras originas do século XVIII . Uma vez ao ano viajo para fora do Brasil , conheço alguns países. O Brasil conheço quase todo. O meu maior sonho é que alguém entre no meu lugar e continue com o mesmo ideal. Todos na orquestra tem muito amor pela entidade e isso é o que faz a preservação. "A preservação é esse amor que os músicos tem pela entidade"

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Maria Stella Neves Vale
Anna Maria Parsons

No dia dois de dezembro de 2007, a sociedade sanjoanense e uma grande parte da comunidade musical compareceram à Igreja de São Francisco de Assis para um Concerto em homenagem à Maestrina Maria Stella Neves Valle. Justa homenagem pelos seus trinta anos de regente da Orquestra Ribeiro Bastos.
Para os que conhecem Stella a homenagem ultrapassa ao seu desempenho à frente da ORB.
Maria Stella Neves Valle licenciada em Pedagogia, Filosofia e Psicologia pela Faculdade Dom Bosco, também formada em Canto e Educação Musical pelo Conservatório de Música do Rio de Janeiro há muito atua em São João del-Rei, sua terra natal, como figura de relevo no mundo musical.
Neste espaço do jornal “Pérolas do Samba” fui convidada para escrever sobre Stella, e escolhi à guisa de testemunho pessoal um depoimento sobre a nossa convivência desde 1976.
Naquele ano, São João del-Rei comemorava com grandes eventos musicais conferências e uma Exposição, “ O bicentenário da Lira Sanjoanense”. Foi no contexto daquelas celebrações, com as quais me envolvi que conheci Stella, também cooperando para abrilhantar o Bicentenário da Lira.
Nestes 32 anos de convívio, ensejando pelo objetivo comum da preservação da memória musical de São João del-Rei fomos nos tornando colaboradoras e amigas uma da outra. Assim, é-me grato escrever sobre a capacidade de trabalho, disciplina e aspirações que distinguem Stella, tornando-a um dos pilares da música da cidade.
Stella herdou de seu pai, o Maestro e Bibliotecário Telêmaco Neves, a disciplina e o alto sentido da continuidade do trabalho. De sua mãe Dona Margarida Moreira Neves, mestra de primeiras letras, herdou o amor ao estudo e a aspiração de ser professora. Sobretudo a vontade interior imperiosa que é o ensinar. Não por qualquer outro motivo senão por que é ensinando que se aprende.
Stella foi colaboradora e suporte das iniciativas do seu irmão mais novo José Maria Neves, nos seus projetos de preservação do patrimônio musical da região, tanto como regente da ORB e um dos idealizadores da gravadora TACAPE Ltda, iniciativa ímpar no interior do Brasil.
Após a morte de seu irmão mais velho Lucas, Cardeal Moreira Neves imcubiu-se de organizar e por de pé o Memorial que abriga fabulosa biblioteca aberta ao público e sediada em imponente sobrado restaurado pela família Moreira Neves face à Matriz do Pilar.
Pouco tempo depois, a morte de José Maria colocou Stella diante do compromisso de assumir total responsabilidade pelo acompanhamento musical das funções litúrgicas das quais a ORB sempre se encarregou.
O CEREM encontrou em Stella o apoio generoso na doação do imóvel que é sua Sede, e também como doadora da quase totalidade do Acervo musical que o compõe.
Stella é conselheira vitalícia do CEREM e sua colaboradora assídua.
Deixo pra o fim mencionar Stella, a moça que cantava e que encantou o saudoso compositor Vicente Valle, tornando-se Maria Stella Neves Valle.
Profundamente religiosa Stella não se deixou abater pela perda do marido e dos irmãos queridos. Encontrou redobradas energias para continuar trabalhando como agente de transformações sociais, por um São João del-Rei melhor através da prática musical.

Fonte: Jornal Pérolas do Samba . Dezembro 2008 

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Maria Stella Neves Vale
Anna Maria Parsons

Natural de São João dei-Rei, filha de Telêmaco Victor Neves e Margarida Alacoque Moreira Neves está entre os oito irmãos que desenvolveram a arte musical, com destaque para o Cardeal D. Lucas Moreira Neves e o Dr. José Maria Neves, ambos com projeção nacional e internacional.
O pai, Telêmaco Victor Neves, bibliotecário municipal, exercia, também, as funções de professor e maestro da Orquestra Ribeiro Bastos. Stella, como é conhecida, iniciou seus estudos musicais com o pai, aos 12 anos de idade na escola de música da Orquestra Ribeiro Bastos na ocasião seu primeiro instrumento foi o harmônio.
Como soprano Stella iniciou na ORB na missa de Corpus Christi, na ocasião como solista do "Salutaris" de Agnelo França.
Atuou como professora de música na rede municipal de ensino durante a gestão do prefeito Dr. Milton Resende Viegas que manteve suas atividades até a criação do Conservatório Estadual de Música Padre José Maria Xavier.
Na década de 60 passou a integrar o quadro de professores do conservatório, que na época era seu diretor o senhor Silvio Padilha.
Seu pai, maestro Telêmaco Victor Neves, permaneceu a frente da orquestra até o ano de 1950 sendo sucedido pelos maestros João Simas, Alípio D'ella Croce, Carmélio de Assis Viegas e Emílio Viegas.
No ano de 1977, José Maria Neves, retornando da França para o Brasil como o primeiro doutor em música do país e atendendo às necessidades da orquestra assume juntamente com Stella a regência da Orquestra Ribeiro Bastos.
Com a nova regência é proposta uma nova abordagem na produção musical da orquestra, o que obteve grande apoio dos presidentes Carmélio de Assis Viegas e Geraldo lima. O cerne da nova proposta foi a valorização das composições relacionadas com a identidade histórica nacional, valorizando as obras de compositores nacionais ou dos que aqui exerceram a arte musical.
Uma das iniciativas da nova regência foi o re-estabelecimento da escola de música da ORB, na qual os músicos mais experientes eram responsáveis pela formação musical dos jovens.
Um acontecimento de grande importância para a ORB foi o apoio da Fundação Roberto Marinho, que por influência de José Maria Neves, levou a orquestra a ser reconhecida em âmbito nacional e internacional. Em âmbito nacional foi realizada uma turnê por todas as regiões do território nacional.
A maestrina Maria Stella Neves Valle tem formação acadêmica em Pedagogia, Filosofia e Psicologia pela Faculdade Dom Bosco e formação em Canto e Educação Musical pelo Conservatório Brasileiro de Música do estado do Rio de Janeiro.
Viúva do compositor e cantor Vicente Valle, Stella foi responsável pela edição de toda a produção vocal deste compositor e responsável pela criação do Memorial Cardeal Dom Lucas Moreira Neves e também atuante na criação do Centro de Referência Musicológica Professor José Maria Neves (CEREM).
Um período de grande dificuldade, segundo a maestrina, foi com a perda do irmão José Maria Neves, depois do qual teve que assumir a total responsabilidade pelas grandes solenidades do calendário anual da orquestra.
A maestrina tem a nítida noção do seu papel dentro da Orquestra Ribeiro Bastos, tendo que atuar como formadora de consciência do valor da preservação da tradição musical de nossa cidade e do grau de significância da ORB para história musical de nosso país.
Segundo sua colocação, o integrante da orquestra deve estar ciente de quão importante é a sua presença para o êxito da ORB e também da necessidade de ser estabelecido para a orquestra um lugar de prioridade.
Para a maestrina é uma grande satisfação perpetuar a memória dos irmãos e a atividade musical da Orquestra Ribeiro Bastos.
Como metas para o ano de 2008, pretende, com a orquestra, editar e gravar o "Réquiem" completo do compositor de nossa cidade o Padre José Maria Xavier e informatizar o arquivo musical da Orquestra Ribeiro Bastos. Metas que necessitam de viabilização através de projetos culturais e obtenção apoio e de recursos financeiros.
É assim, cidadã de grande personalidade que ajuda a construir a identidade musical de nossa cidade, fazendo de São João dei-Rei impar no que se refere a preservação dessa vertente artística.

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Adeus à Madrinha da Ribeiro Bastos

Acontece . por Gazeta de São João del-Rei . 04/05/2013

A cidade se despediu, comovida, da estimada Maria Stella Neves Valle, a dedicada maestrina que revolucionou a história da Orquestra Ribeiro Bastos, em quase quatro décadas de atuação impecável. Falecida no último domingo, 28 de abril, aos 84 anos, Stella foi a grande madrinha de gerações de músicos que passaram pela orquestra e, encaminhados por ela, seguiram adiante em voo solo. Para o sobrinho e também músico Vandelir Neves, integrante do coro do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Stella foi a última Mestra de Capela da história, referindo-se à profissional de personalidade plural e determinada que desenvolveu inúmeras funções dentro da orquestra. “Stella era a presidente da Ribeiro Bastos, a tesoureira, cuidava da contratação dos músicos, da política da igreja, das viagens, do repertório, do arquivo, das cópias das partituras originais, chegando a transcrever manualmente mais de 70 missas”, completou o sobrinho. Numa época ainda machista quanto à presença feminina em determinados segmentos, foi a primeira mulher a assumir a regência de uma orquestra na região. Ainda segundo Vandelir Neves, foi com a rigidez imposta pelo cargo, sem contudo perder a ternura, que conduziu a orquestra, conquistou os músicos e renovou os quadros da Ribeiro Bastos, sua maior preocupação. “Na década de 70 a orquestra contava com 15 integrantes com idade acima de 60 anos e hoje são mais de 80 músicos jovens e adultos”, comentou.

Trajetória
Terceira entre nove filhos do casal Margarida Alacoque e maestro Telêmaco Neves,  Stella trouxe do berço o gosto pela música. Com o pai aprendeu as primeiras notas musicais, foi aluna de Martiniano Ribeiro Bastos e se formou em canto pelo Conservatório Brasileiro de Música na classe da professora Maria Helena Bezzi.
Casou-se com o compositor Vicente Valle, falecido em 1992. No Conservatório Pe. José Maria Xavier foi professora de Canto e vice-diretora, ampliando seus estudos pela Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, hoje UFSJ, onde se formou em Psicologia e Pedagogia. Com a morte do maestro Emílio Viegas, assumiu a Orquestra Ribeiro Bastos como regente adjunta, com a determinação de manter viva uma tradição. Iniciava-se ali uma história de dedicação integral. Primeiro doutor em música do Brasil, formado pela Universidade Sorbonne (França), José Maria Neves, irmão de Stella, era o maestro titular da Ribeiro Bastos, regendo a orquestra durante a Semana Santa e em todas as cerimônias litúrgicas. Com a morte de José Maria em 2002, Stella assume definitivamente a Ribeiro Bastos.

Depoimentos
Amiga fraterna e de longa data, Anna Maria Parsons falou com emoção da profissional inigualável com quem tanto aprendeu. “Stella era uma professora nata, tinha faro. Sabia escolher os elementos, sem discriminação, procurava integrar e desenvolver as potencialidades de cada jovem”. Sobre a herança cultural e a continuidade de seu trabalho, Anna Parsons comentou: “Não acredito em perda pela morte. A morte é uma etapa da vida. O exemplo, o legado de ter sido um elo contínuo na cadeia cultural é a consideração que se impõe acima da perda afetiva. A Stella tinha uma consciência comunitária e o altruísmo dela tinha raízes nesta consciência humilde de que cada um de nós nada é sem o todo. Considero um privilégio ter participado da Ribeiro Bastos ao lado de Stella, ter privado de sua confiança e amizade e de termos feito algumas ações em trio (eu, ela e José Maria) e depois em duo, eu e ela, em prol da música e da cultura”.
Anna Maria refere-se ao curso de música para principiantes criada nos anos 80 por José Maria Neves, com verba da Funarte, por onde passaram grandes músicos como Maria Amélia, Salomé Viegas e também Abel Moraes e Antônio Carlos Guimarães de Almeida, hoje professores doutores do curso de música da UFSJ e autores do projeto que levou à criação do curso.
Anna também atribui à Stella a criação do Memorial Dom Lucas Moreira Neves, do qual era a curadora, e do Centro de Referência Musicológica José Maria Neves (Cerem), viabilizados através da doação dos respectivos imóveis por Stella.
Para o bispo emérito Dom Waldemar Chaves de Araújo, “a morte de Stella é para a cidade e para a Igreja Diocesana de SJDR, não uma perda, mas um ofertório porque ela amou o que fez e fez com amor. Como cristã viveu sua fé nas melodias que estudava e regia, mas também através de uma atitude de evangelização pela música instrumental e coral. O canto e as melodias sempre irão acompanhá-la e ela receberá as bênçãos divinas dignas de quem soube servir sem pensar em si. Como bispo emérito, deixo o agradecimento de quem sempre gostou de cantar sob a regência de D. Stella”.
Margarida Neves falou com admiração da irmã querida, elo de ligação entre os familiares. “Stella sempre teve grande espírito de liderança e isso fez com que a família não se distanciasse uns dos outros. Era a curadora do Memorial Dom Lucas Moreira Neves e foi graças a seus esforços que todo o acervo de nossos irmãos, o cardeal Dom Lucas e José Maria foram preservados e colocados à disposição da população e dos estudantes. Enquanto esteve doente, pude ver o carinho dos mais de 20 sobrinhos, 15 afilhados e dos músicos que a visitavam semanalmente após a missa de domingo na Igreja de São Francisco”. Para Marta, a mais antiga no coro da Ribeiro Bastos, Stella é a principal responsável pela profissionalização e organização da orquestra. “Ela tinha o temperamento dela, mas se não fosse a sua firmeza, a orquestra não seria o que é hoje” avaliou.  Gabriel Heitor Ribeiro, membro da Ribeiro Bastos responsável pela catalogação do arquivo da orquestra disse: “Ela foi minha mãe em São João del-Rei”, referindo-se à amizade, convivência e cuidado dispensados a ele por Stella.

Solenidades funerais
Stella foi velada na Sociedade de Concertos Sinfônicos de SJDR e à saída do cortejo, emocionante homenagem musical lhe foi prestada pelos integrantes da Ribeiro Bastos. Na Catedral do Pilar, missa concelebrada pelo bispo Diocesano, Dom Célio, e pelo bispo emérito, Dom Waldemar, teve participação maciça do coro e orquestra sob a regência de Rodrigo Sampaio Pereira. No repertório, peças das quais ela gostava como  responsórios do Ofício de Trevas, e trechos da missa do Ofício de Ramos, de Pe. José Maria Xavier, numa vibrante e derradeira homenagem à estimada maestrina. Também participaram da celebração o pároco da Catedral, Pe. Geraldo Magela e os vigários Pe. Ramiro e Pe. Alisson. Entre os presentes, destaque para o Monsenhor Sebastião Paiva. No cortejo até o cemitério do Rosário, a Banda Theodoro de Faria homenageou a maestrina com a Marcha Saudade, do maestro Benigno Parreira.
Durante o sepultamento, o coro da orquestra entoou o Miserere, de Manuel Dias de Oliveira.
Em sua memória, será rezada missa hoje, na Catedral do Pilar, às 17h30, e amanhã, às 9h15, na Igreja de São Francisco, missa com a participação das orquestras Ribeiro Bastos e Lira Sanjoanense, além das orquestras de Prados e de Tiradentes, sob a regência de Rodrigo Sampaio Pereira.


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