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As fotografias de André Bello . Imagens da Modernidade em São João del-Rei . Rubia Soraya Lelis Ribeiro e Maria Eliza Linhares Borges

Mais informações:
A presença italiana em São João del-Rei


AS FOTOGRAFIAS DE ANDRÉ BELLO (1879-1941):
IMAGENS DA MODERNIDADE EM SÃO JOÃO DEL REI


André Bello e família

Título: As fotografias de André Bello (1879-1941): imagens da modernidade em São João Del Rei
Autor: Rubia Soraya Lelis Ribeiro . Maria Eliza Linhares Borges
Palavra-chave: Bello, André, 1879-1941 . História Teses . História social Teses . Fotografia São João del Rei (MG) . São João del Rei (MG) História
Data de Publicação: 3-Out-2006
Publicador: UFMG
Resumo: O objetivo dessa dissertação de História Social de Cultura é abordar a presença da fotografia, signo da modernidade, em uma cidade do interior de Minas Gerais. Analisa-se as especificidades da inserção de São João del Rei, de arraigada tradição colonial, nos discursossobre progresso e modernidade, a partir do trabalho de André Bello (1879-1941), ou seja, das representações fotográficas construídas por ele sobre a cidade e seus habitantes. Para tanto, estaremos considerando os diálogos que esse fotógrafo manteve com os discursos sobre modernidade e progresso, com o universo da fotografia e com os discursos sobre a cidade de São João del Rei, produzidos por memorialistas e cronistas de periódicos locais. Nesse contexto, a fotografia aparece como símbolo de uma modernidade que engloba tanto os signos do progresso material, quanto aqueles que vinculam a cidade e seus habitantes a seu passado colonial.

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Fonte: Biblioteca Digital da UFMG
Teses e Dissertações 
Pós-Graduação em História 
Dissertações de Mestrado 


Belo Horizonte 2006

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em História.
Linha de pesquisa: História Social da Cultura
Orientadora: Profª. Maria Eliza Linhares Borges
Universidade Federal de Minas Gerais
Belo Horizonte
Universidade Federal de Minas Gerais
2006

Universidade Federal de Minas Gerais
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
Programa de Pós-Graduação em História
Dissertação intitulada “As fotografias de André Bello (1879-1941): imagens da modernidade
em São João del Rei”, de autoria da mestranda Rúbia Soraya Lelis Ribeiro, aprovada pela
banca examinadora constituída pelos seguintes professores:
Profª. Drª. Maria Eliza Linhares Borges – FAFICH/UFMG – Orientadora
Profª. Drª. Adalgisa Arantes Campos – FAFICH/UFMG
Profª. Drª. Maraliz de Castro Vieira Christo – ICHL/UFJF
Belo Horizonte, 03 de outubro de 2006.

A minha mãe,
Luzia Ribeiro

Agradecimentos
Agradecer é um pouco como fotografar: ambos os gestos implica “reconhecer”’ e “demonstrar” algo que desejamos. (Maria Inez Turazzi)
Agradeço, inicialmente, ao Programa de Pós-graduação em História desta universidade na pessoa de seus professores, funcionários e estudantes, que propiciaram trocas riquíssimas e fundamentais para o desenvolvimento desta pesquisa. À professora Eliza, agradeço a orientação cuidadosa e atenta, fundamental para o meu processo de formação. Todavia, devido aos meus limites, o resultado final deste trabalho é de minha inteira responsabilidade. A bolsa recebida pela CAPES durante doze meses contribuiu de maneira significativa com o cumprimento dos créditos necessários para a conclusão do mestrado, agradeço o investimento a mim concedido. Agradeço aos professores Eduardo França Paiva e Eliana Dutra, componentes da banca de qualificação, pelas sugestões e orientações que enriqueceram esta dissertação.
A primeira motivação para esta pesquisa se deu a partir de um convite feito pela Universidade Federal de São João del Rei para identificação e primeira organização do acervo do fotógrafo André Bello. A esta instituição agradeço a presença constante durante todo o meu processo de formação, principalmente nas pessoas do amigo e professor Afonso de Alencastro Graça Filho, orientador das minhas primeiras aventuras pela história, leitor atento do projeto inicial e incentivador curioso dessa pesquisa; do funcionário Luiz Antônio Ferreira, amante da fotografia e responsável pela conservação dos negativos de vidro e pelas cópias-contato dos retratos presentes neste trabalho; do Prof. Geraldo Tibúrcio, pela revisão cuidadosa e gentil; e da grande amiga e mestre Glória Maria Ferreira Ribeiro, pela inspiração que me fez persistir na vida acadêmica, pela presença constante e cuidadosa, pelos conselhos, enfim, por muito do
que eu sou agora e pelos caminhos que escolhi seguir.
Neste percurso tive o prazer de conhecer o Sr. Vitor Bello e a Sra. Stella Bello, filhos de André Bello, e a Profª Lucília de Almeida Neves Delgado, neta do fotógrafo. À eles dedico agradecimento especial pela atenção e pelas histórias que me inspiraram e me fizeram acreditar ainda mais na importância deste trabalho.
Em São João del Rei, agradeço aos funcionários da Biblioteca Municipal Batista Caetano d´Almeida, pela disponiblidade e o atendimento atencioso durante a pesquisa aos jornais; a Renata e Fátima, funcionárias do Museu Regional, pelo interesse e pelas informações; e a Roberto Maldos, IPHAN, pela disponibilização de sua pesquisa sobre a formação urbana de São João del Rei.
Aos amigos agradeço pela leveza com que me acompanharam nesses últimos dois anos, principalmente durante os momentos de dúvida e cansaço. Ao Pedro sou grata pelo empréstimo de grande parte da bibliografia, pelo acompanhamento de todo o processo desde a idéia do projeto até a redação final da dissertação e, principalmente, pelo cuidado e carinho de um verdadeiro amigo. Ao meu “irmão” Rafael agradeço a companhia, as ricas sessões de cinema em casa e a partilha de informações fotográficas. À Karina Zanetti sou grata pela acolhida em sua casa em Belo Horizonte; a Cristiane e Samantha, colegas de orientação, pelos trabalhos compartilhados; a Áurea, por me acolher em sua casa nesses últimos meses, a Cristhiani Cardoso, pelas soluções dos meus problemas burocráticos; a Deborah pela leitura dos meus textos e pelos cafés nos finais de tarde. Aos bons e velhos amigos de FUNREI, Tereza, Sávio, Augusto, Maria Angélica e Gisele, obrigada! Ganhei alguns novos amigos na
fase final deste trabalho: ao Rodrigo Vivas agradeço a acolhida, a leitura atenta de todos os capítulos e as ricas conversas sobre imagem; ao Gustavo agradeço por se sentar em minha mesa durante o almoço de um cansativo dia de pesquisa em arquivo e pela digitalização cuidadosa das imagens do álbum de Bello.
À Luzia e Robson, obrigada por tudo! À minha mãe dedico essa dissertação!

Resumo
O objetivo dessa dissertação de História Social de Cultura é abordar a presença da fotografia, signo da modernidade, em uma cidade do interior de Minas Gerais. Analisa-se as especificidades da inserção de São João del Rei, de arraigada tradição colonial, nos discursos sobre progresso e modernidade, a partir do trabalho de André Bello (1879-1941), ou seja, das representações fotográficas construídas por ele sobre a cidade e seus habitantes. Para tanto, estaremos considerando os diálogos que esse fotógrafo manteve com os discursos sobre modernidade e progresso, com o universo da fotografia e com os discursos sobre a cidade de São João del Rei, produzidos por memorialistas e cronistas de periódicos locais. Nesse contexto, a fotografia aparece como símbolo de uma modernidade que engloba tanto os signos do progresso material, quanto aqueles que vinculam a cidade e seus habitantes a seu passado
colonial.

Abstract
The aim of this dissertation about Social History of Culture is to approach the presence of photography, a sign of modernity, in a city of the state of Minas Gerais in Brazil. The specifications of the insertion of São João Del Rei, a city with a strong colonial tradition, are analysed in some speeches about progress and modernity, having André Bello’s photographs (1879 – 1941) as the photograph representations of the city and its inhabitants. For this purpose, the dialogs that he had in his speeches with the modernity and progress, with the universe of photography, and with the speeches about São João Del Rei, produced by
academic dissertation authors and chroniclers of local periods, are considered in this piece of work. In this context, the photography appears as a symbol of a kind of modernity that embodies either the signs of material progress and the signs that connect the city and its inhabitants to their ancient colonial times.

Lista de imagens
Figura 1 – Retrato anônimo ..................................................................................................................... 12
Figura 2 – Rua Municipal (atual Rua Artur Bernardes)........................................................................ 37
Figura 3 – Avenida Carneiro Felipe (atual Avenida Presidente Tancredo Neves)......................... 53
Figura 4 – Retrato anônimo ..................................................................................................................... 73
Figura 5 – Vista da Ponte da Cadeia ..................................................................................................... 74
Figura 6 – Botafogo ................................................................................................................................... 76
Figura 7 – Créditos do álbum ...................................................................................................................94
Figura 8 – Prédio onde funcionava a Associação dos empregados do Comércio de São João del-Rei ................................................................................................................................................................. 98

Figura 9 – Membros da Associação dos Empregados do Comércio de São João del Rei ....... 98
Figura 10 – Gruta da Pedra .................................................................................................................... 100
Figura 11 – Edifício da Câmara, Fórum, Cadeia e das repartições federais e estaduais ........ 101
Figura 12 – Teatro Municipal .................................................................................................................. 101
Figura 13 – Um trecho da Avenida Carneiro Felipe ........................................................................... 101
Figura 14 – Encosta do morro Guarda-Mor ......................................................................................... 101
Figura 15 – Rua Municipal ...................................................................................................................... 104
Figura 16 – Um trecho da Avenida Carneiro Felipe ........................................................................... 105
Figura 17 – Vista panorâmica, colhida do caminho do SENHOR DOS MONTES ....................... 106
Figura 18 – No primeiro plano: Jardim da Avenida Carneiro Felipe. Ao fundo: A Estação da E.F. Oeste de Minas ........................................................................................................................................................... 107
Figura 19 – Ponte Metálica inaugurada em 17 de novembro, em frente ao Teatro Municipal na cidade .......................................................................................................................................................... 107
Figura 20 – Trecho da cidade, tirada do alto do Quartel do 51º B. de Caçadores ....................... 108
Figura 21 – Propaganda comercial - Thesoura Ingleza de Raphael e Bellini .............................. 111
Figura 22 – Propaganda comercial – Companhia Industrial S. Joannense ................................. 113
Figura 23 – Propaganda comercial. Casa Olympio Reis .................................................................. 114
Figura 24 – Retrato anônimo ................................................................................................................... 124
Figura 25 – Retrato anônimo ................................................................................................................... 125
Figura 26 – Retrato anônimo ................................................................................................................... 125
Figura 27 – Retrato anônimo ................................................................................................................... 128
Figura 28 – Retrato anônimo ................................................................................................................... 129
Figura 29 – Retrato anônimo ................................................................................................................... 130
Figura 30 – Retrato anônimo ................................................................................................................... 131
Tabela 1 – Negativos de vidro ................................................................................................................. 127

Sumário
Introdução ...................................................................................................................................................... 11
1 Cidade e fotografia: ecos da modernidade em São João del Rei .................................................. 21
1.1 A cidade moderna nas primeiras décadas do século XX ............................................................. 21
1.2 A modernidade na Princesa do Oeste .............................................................................................. 27
1.3 Cidade, modernidade e fotografia em São João del Rei .............................................................. 54
2 André Bello (1879-1941): o fotógrafo de São João del Rei .............................................................. 59
2.1 A fotografia em São João del Rei no final do século XIX ............................................................... 60
2.2 André Bello: o fotógrafo da Princesa do Oeste ................................................................................ 64
2.2.1 André Bello nas exposições e a ampliação de seu ofício ......................................................... 70
3 As principais representações de André Bello: o álbum “ São João D´El- Rey -
Minas” e os retratos de atelier ................................................................................................................... 86
3.1 O álbum “São João D´El-Rey - Minas” .............................................................................................. 87
3.1.1 A cidade moderna nos álbuns fotográficos .................................................................................. 87
3.1.2 A produção de álbuns em São João del Rei ................................................................................ 90
3.1.3 A cidade de São João del Rei no álbum de André Bello ............................................................ 92
3.2 Os retratos produzidos por André Bello .......................................................................................... 119
3.2.1 O retrato fotográfico .......................................................................................................................... 119
3.2.2 Photographia Ítalo-Brazileira: o atelier de Bello ......................................................................... 123
Considerações Finais ............................................................................................................................... 134

INTRODUÇÃO
Nesse deserto lúgubre, me surge, de repente, tal foto; ela me anima e eu a animo. Portanto, é assim que devo nomear a atração que a faz existir: uma animação. A própria foto não é em nada animada (não acredito nas fotos “vivas”), mas ela me anima: é o que toda aventura produz. 1
Uma dissertação a ser escrita é uma aventura à qual nos lançamos solitariamente, apesar de todos os que dela participam, solidão que, como lembra Rilke, não nos é possível tomar ou deixar, “somos nós”. Tomados inicialmente por uma curiosidade, por uma emoção ou por um estranhamento diante de uma fotografia, assim como Barthes diante da fotografia de Jerônimo, irmão de Napoleão Bonaparte, somos animados a empreender a aventura essencialmente solitária de transformar sensações e espanto em conhecimento. “A vida é, assim, feita a golpe de pequenas solidões”2. É essa percepção que nos impele a empreender a aventura proposta pelo poeta Rilke de sairmos do nosso quarto e sermos transportados para o cume de uma alta montanha, onde, inicialmente, somos tomados pelas incertezas e pela impressão de estarmos entregues ao desconhecido, esse desconhecido que, aos poucos, vai se revelando como a imagem que aos poucos aparece no papel fotográfico mergulhado no líquido evelador. E qual não é nosso espanto quando a imagem revelada nos lança na mesma experiência solitária de Barthes. O homem que aparece no retrato (FIG. 1) revelado traz nos óculos um reflexo que nos faz pensar: Vejo os olhos que viram André Bello. Animados por essa revelação, despertamos para as fotografias de André Bello.

1 BARTHES, 1984, p. 37.
2 “Um dia, há muito tempo, dei com uma fotografia do último irmão de Napoleão, Jerônimo (1852). Eu me disse então, com um espanto que jamais pude reduzir: ‘Vejo os olhos que viram o Imperador’. Vez ou outra, eu falava desse espanto, mas como ninguém parecia compartilhá-lo, nem mesmo compreendê-lo (a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões), eu o esqueci..” (BARTHES, 1984, p. 11)


FIGURA 1 – Retrato anônimo. BELLO, André.
s/data. Cópia contato a partir de negativo de vidro.

Nos últimos anos, as imagens produzidas por esse fotógrafo, no início do século XX, têm sido amplamente utilizadas em campanhas de educação patrimonial. Depois de anos resguardadas em arquivos pessoais, essas fotografias reapareceram, chamando a atenção das pessoas para uma série de lembranças e mudanças, destacando-se entre elas as transformações ocorrida no espaço urbano de São João del-Rei, lembranças do tempo que passa. Exemplo disso foi a produção, em 2002, de um pôster com uma foto panorâmica da cidade, datada de 1918, onde as construções demolidas no decorrer do tempo foram realçadas com um tom amarelado, diferenciando-se do preto e branco do restante da fotografia.
Ao longo do tempo, as imagens do passado estão sujeitas à apropriação social, sendo-lhes atribuídas funções e significados diversos. A primeira delas é tornar familiar o momento presente a partir da criação de sentidos de continuidade, ou seja, o reconhecimento do assado como um processo e, portanto, passível de ser analisado e compreendido. “Para além das funções de legitimação, a compreensão e ordenação do passado produzem sentimentos de tranqüilidade e segurança”3. Sendo assim, o espaço urbano, que passou por acelerado ritmo de transformação desde o final do século XIX, pode ser revisitado, reconhecido e analisado através de fotografias. O passado fotografado por André Bello é tomado como prova das transformações que conformam o presente de São João del-Rei.
Em 2003, durante a elaboração do Plano Diretor para o Desenvolvimento do Turismo em São
João del-Rei, outras fotografias de Bello foram localizadas. Hoje, temos acesso a um exemplar do Álbum de São João d´El Rey, que pertence a um colecionador da cidade4, e a duzentos e cinqüenta e sete negativos de vidro.
Estes foram conservados graças ao hábito de um morador da cidade, o Sr. Henrique de Assis Viegas, de recolher à porta do ateliê fotográfico de Bello os negativos que eram jogados no lixo e que, depois de lavados, eram reutilizados pelo mesmo Sr. Henrique para compor pequenos oratórios ou vidraças de janelas. Duzentos e um negativos de vidro permaneceram guardados e, posteriormente, foram doados a um colecionador de fotografias da cidade, o Sr. Luís Antônio Ferreira, funcionário da Universidade Federal de São João del-Rei. No ano de 2004, após a divulgação de algumas fotografias de André Bello, durante uma exposição, foram doados à Universidade Federal de São João del-Rei os outros cinqüenta e seis negativos de vidro que estavam em posse de um neto do Sr. Henrique de Assis Viegas.

3 CARVALHO; LIMA,1998, p. 112.
4 O álbum foi digitalizado para realização desta pesquisa.


No momento, não existe nenhuma política de preservação para essas imagens. Melhor dizendo, não existe nenhuma política de preservação e conservação para fotografias, seja na Universidade Federal de São João del-Rei, seja no arquivo do Museu Regional, seja em qualquer outra instituição da cidade, excetuando-se as iniciativas de particulares que se limitam a guardar as fotos em seu poder. Já com relação aos documentos textuais, tanto a Univsersidade quanto o Museu Regional têm, há alguns anos, desenvolvido projetos para sua organização e preservação. Essa situação seria reflexo da menor importância conferida às imagens como fonte de pesquisa, se comparadas aos documentos escritos?
O historiador Peter Burke, em seu livro Testemunha Ocular, cuja primeira edição data de 2001, evidencia a dificuldade dos historiadores em trabalhar com as imagens, ao contrário do que acontece com os documentos escritos (manuscritos e/ou impressos), e com os testemunhos orais.
Relativamente poucos historiadores trabalham em arquivos fotográficos, comparado ao número desses estudiosos que trabalham em repositórios de documentos escritos e datilografados. (...). Quando utilizam imagens, os historiadores tendem a tratá-las como meras ilustrações, reproduzindo-as nos livros sem comentários.5
Boris Kossoy, também escrevendo em 2001, reconhecia que a fotografia ainda não havia alcançado plenamente o status de documento, graças à nossa enraizada tradição escrita e aos obstáculos frente à “informação registrada visualmente”6. Na abertura da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, número 27, dedicada à fotografia, Maria Inez Turazzi destaca a importância da reflexão sobre as bases da cultura fotográfica e suas mutações para o dia-a-dia de nossos museus, arquivos e ibliotecas, cultura essa que se tornou indissociável da própria “experiência visiva moderna”7 e que não se restringe à bagagem profissional dos fotógrafos, mas se expressa nos usos e funções da fotografia, assim como nos imaginários construídos sobre ela em determinada sociedade.
A fotografia concedeu ao homem um novo olhar sobre o mundo. A sua gênese físico-química inaugurou uma estética própria que permitiu ao homem captar um fragmento do real e cristalizá-lo. Após o advento da fotografia, o mundo tornou-se de certa forma “familiar”. Segundo Boris Kossoy, “O mundo, a partir da alvorada do séc. XX, se viu, aos poucos, substituído por sua imagem fotográfica. O mundo tornou-se assim portátil e ilustrado”8.
A imagem fotográfica se apresenta, então, como um novo meio para o conhecimento do mundo. A partir do final do séc. XIX, sua popularização permitiu que um grande número de pessoas lançasse mão da câmera fotográfica para captar e eternizar fragmentos da realidade, fragmentos esses que reúnem em si realidades aparentes e realidades ocultas, conformando um rico mundo de representações. Muitos desses fragmentos chegaram até nós e hoje se oferecem, entre outros fins, como fonte para o estudo da história.
Maria Eliza Linhares Borges, no primeiro capítulo de seu livro História e Fotografia, levantou uma questão pouco explorada pelos historiadores que se dispõem a refletir sobre o papel da fotografia na pesquisa histórica: quais foram as razões que levaram os pesquisadores do século XIX a recusar a fotografia como documento histórico? Essa atitude, nas palavras da própria autora, “muito contribuiu para dificultar o desenvolvimento de metodologias capazes de fazer falar as fontes visuais”9. O entendimento dessa questão é fundamental para todos os pesquisadores que, hoje, se dispõem a dialogar com as imagens do passado e com a própria história da fotografia. A imagem fotográfica não deve ser reduzida a uma mera ilustração do passado, desprezando seu potencial como registro, identificação, forma de expressão, propaganda, ou seja, como uma cultura singular que guarda suas especificidades em meio à pluralidade.
Nas últimas três décadas do século XX, os pesquisadores de história vêm desenvolvendo metodologias para indagar e problematizar as imagens visuais. No que tange à fotografia, os esforços negam a sua condição de duplicação do real, defendida pelo discurso da mimese, colocado já em sua origem.
Assim como as demais fontes de informação histórica, a fotografia não pode ser aceita como simples espelho do real, pois é uma representação do mundo que nos chega por meio das intenções explícitas e ocultas, voluntárias ou involuntárias de quem a produziu e/ou de quem a encomendou. Hoje, os pesquisadores que se utilizam da fotografia partem do pressuposto de que tal imagem é um artefato cultural que reúne em si ambigüidades e significados que podem ser revelados e problematizados.
O uso da imagem fotográfica no campo da ciência histórica exige do historiador critérios teórico-metodológicos capazes de fazer falar esse tipo de fonte. Essa atitude evitará uma “ilusão de inovação”, pois a reafirmação do uso da fotografia como fiel ilustração do passado vai corroborar com o conceito de documento histórico e, conseqüentemente, de ciência histórica, defendido e aplicado pelos historiadores do século XIX.

5 BURKE, 2004, p. 12.
6 KOSSOY, 2001, p. 28.
7 TURAZZI, 1998, p. 09.
8 KOSSOY, 2001, p. 27.
9 BORGES, 2003, p. 12.

Diante dessa realidade que se tem transformado nos últimos anos, a nossa pesquisa se insere numa preocupação mais ampla com os problemas que envolvem a relação entre fotografia e história e, mais precisamente, o seu uso como fonte de pesquisa. Selecionamos, para nossa dissertação, um grupo de imagens específicas: as imagens produzidas pelo fotógrafo André Bello na cidade de São João del-Rei, no início do século XX. Sustentaremos a hipótese de que as imagens desse fotógrafo integraram, de um lado, o contexto internacional da cultura fotográfica entre fins do século XIX e início do século XX, quando a fotografia colaborou ativamente na divulgação de uma visão positiva da modernidade industrial, e, de outro, uma cultura fotográfica, diretamente relacionada à experiência da modernidade e ao espaço urbano  em uma cidade do interior de Minas Gerais.
Desde sua origem, os principais temas da fotografia foram o espaço urbano e os tipos humanos. As transformações ocorridas a partir do final do século XIX coincidiram com o desenvolvimento da câmera fotográfica e a capacidade de reprodução da imagem. A ansiedade do homem diante desse mundo que se transfigurava podia ser saciada pela possibilidade de colecionar, em larga escala, suas “miniaturas”. Várias cidades que realizavam reformas urbanas empregavam fotógrafos para documentar os fragmentos da antiga cidade. Exemplo disso foi o caso das reformas urbanas de Paris, registradas graças ao incentivo de Napoleão III, que sancionou uma lei institucionalizando a documentação
fotográfica  como um serviço de utilidade pública10.
No Brasil, fotógrafos como Marc Ferrez, Augusto Malta, Militão Augusto de Azevedo e Guilherme Gaensly, entre outros, atuaram justamente na época em que nossas cidades mais se modificavam. Além do registro das transformações ocorridas, a fotografia também foi utilizada amplamente para divulgar as cidades cujos moradores e dirigentes desejavam que fossem vistas como modernas e progressistas. No início do século XX, os álbuns de cidades e os cartões-postais foram produzidos em larga escala, mostrando cidades guiadas pelas noções de progresso e civilidade. Modernidade, cidade e fotografia são elementos que se entrecruzam e conformam as representações que chegaram até nós e nos permitem compreender uma época e espaço específicos.
Sendo assim, trataremos das especificidades da inserção de uma cidade do interior de Minas Gerais, de arraigada tradição colonial, nos discursos sobre progresso e modernidade, a partir do trabalho de André Bello, ou seja, das representações fotográficas construídas por ele sobre a cidade e seus habitantes. Para tanto, consideraremos os diálogos que esse fotógrafo manteve com os discursos sobre modernidade e progresso, com o universo da fotografia e com os discursos sobre a cidade de São João del-Rei, produzidos por memorialistas e cronistas de periódicos locais.
O estudo proposto pretende contribuir com as pesquisas realizadas sobre a modernidade em cidades de pequeno porte, sendo que outras já foram amplamente realizadas sobre grandes metrópoles e capitais. Também pretende contribuir com os estudiosos e pesquisadores que, nos últimos anos, têm-se dedicado a compreender as imagens como fonte da pesquisa histórica, desenvolvendo metodologias de análise e localizando imagens que devem ser preservadas. Assim concebida, nossa pesquisa também integra, ainda que indiretamente, os estudos sobre a história da fotografia no Brasil. Nosso trabalho tem ainda como objetivo oferecer mais uma contribuição para preencher uma outra lacuna, que se refere aos estudos sobre a cidade de São João del-Rei no início do século XX, período em que a cidade passou por mudanças importantes, influenciadas pelos discursos sobre modernidade e progresso.
No primeiro capítulo, trataremos do modo como a cidade de São João del-Rei, nas primeiras décadas do século XX, participou do movimento de modernização que se espalhou pelo mundo, principalmente a partir de meados do século XIX. Considerando as especificidades de uma cidade do interior, centramos nosso interesse na análise das ambigüidades e contradições que os discursos dos cronistas e memorialistas locais produziram sobre a cidade. Como será se verá, a fotografia aparece como símbolo de uma modernidade que engloba tanto os signos do progresso material quanto aqueles que vinculam a cidade e seus habitantes a seu passado colonial.
No segundo capítulo, voltamo-nos para André Bello, fotógrafo e habitante dessa cidade. Interessou-nos, em particular, analisar sua atuação como profissional de São João del-Rei e como integrante da cultura fotográfica profissional da época.. Enfrentamos a dificuldade de conseguir informações sobre sua vida, pois, sendo imigrante italiano, pouco se sabe sobre sua origem e sua formação até os vinte e sete anos, idade em que aparece pela primeira vez anunciando seu trabalho como fotógrafo num periódico local.
Finalmente, no terceiro capítulo, dedicamo-nos às principais representações produzidas por André Bello: o álbum de São João del-Rei e os retratos confeccionados em seu ateliê, o Photographia Ítalo-Brazileira. O álbum, produzido em 1918, é tomado como um itinerário construído para ser percorrido por aqueles que desejam conhecer a cidade de São João del-Rei do início do século XX. Conjugando textos e fotografias, o álbum nos mostra uma cidade que deixa transparecer seus desejos, frustrações e realizações.
Já na análise dos retratos fotográficos, optamos por uma amostra do que são os 257 negativos de vidro até o momento localizados. Inseridos num padrão fotográfico advindo do século XIX, esses retratos são analisados a partir de sua construção no ateliê e da sua função social para uma população que deseja ser vista como civilizada e moderna, mesmo habitando uma cidade do interior de Minas Gerais. O grande acervo de retratos existentes em nossos arquivos é inversamente proporcional ao número de estudiosos que se dedicam a esse tema da fotografia. Ressaltamos em nossa pesquisa o trabalho de Marcondes Neves e Annateresa Fabris, entre outros estudos voltados para esse tipo de imagem nos últimos tempos. Sabemos hoje que muitas imagens produzidas por André Bello permanecem desconhecidas
para nós. Resguardadas em arquivos pessoais e familiares, essas imagens esperam o momento de novamente se revelarem contando mais um pouco da história da cidade e seus habitantes. Este trabalho tem a pretensão acalentada de contribuir para o reconhecimento dessas imagens como importantes fontes de pesquisa para diversas áreas do conhecimento e, conseqüentemente, para sua preservação. Iniciativas pessoais têm contribuído para que isso aconteça, mas, mais do que isso, é necessário dar a ver essas imagens, dar a elas novamente vida trazendo-as à luz, tirando-as das gavetas e dos armários, permitindo-nos problematizá-las.

10 COSTA; SILVA, 2004, p. 19.

1- ECOS DA MODERNIDADE EM SÃO JOÃO DEL-REI
1.1- A cidade moderna nas primeiras décadas do século XX
Segundo a análise de diversos autores, a modernidade tem o seu apogeu no século XIX e início do século XX, período esse marcado por um conjunto de experiências guiadas pela crença de que o progresso material possibilitaria solucionar tecnicamente todos os problemas da sociedade. Marshal Berman divide-a em três fases: a primeira abarca o início do século XVI até o fim do XVIII; a segunda inicia-se com a grande onda revolucionária de 1789 e se estende até o final do século XIX, e a terceira se estende pelo século XX. A modernidade, tema tão debatido quando se tenta compreender o turbilhão que envolveu o homem mais radicalmente nos dois últimos séculos, ou seja, nas duas últimas fases propostas por Berman, tem a cidade como espaço privilegiado para sua materialização. É nela que uma
nova paisagem vai se configurando, tendo como base o desenvolvimento industrial, a modernização do espaço urbano, os novos meios de comunicação e o rápido crescimento populacional. Nesse espaço em constante mutação é que o homem acredita poder usufruir do conforto e contemplar as inovações introduzidas pelo progresso técnico e pelos ideais da atividade civilizatória.
As antigas cidades, de caráter fechado e autônomo, deram lugar a uma cidade que se comunicava intensamente com o mundo exterior. Segundo Marshall Berman, a experiência ambiental  a modernidade anula todas as fronteirasgeográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: nesse sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana.11
Mas os ganhos adquiridos pelo progresso técnico e pela “união da espécie humana” vieram acompanhados da perda de estabilidade, valores e identidade para o homem moderno. A velocidade e fluidez das transformações, marca das cidades modernas, lançam esse homem em um universo repleto de contradições e ambigüidades. Segundo Marshall Berman, é na segunda fase da modernidade que começam a crescer as dúvidas com relação ao otimismo moderno. Portanto, pensar a modernidade significa pensar a convivência de perdas e ganhos, específicos desse período, seja para os habitantes de uma metrópole como a Paris de Baudelaire, de uma nova capital como Belo Horizonte, seja da pitoresca e interiorana São João del-Rei do fotógrafo André Bello.
Charles Baudelaire, poeta da aventura urbana, foi um homem que viveu intensamente as contradições dos tempos modernos com suas belezas fugazes e seus perigos. Ambíguo e contraditório como a própria modernidade, Baudelaire foi, ao mesmo tempo, seu defensor apaixonado e crítico feroz. A cidade moderna do poeta é cheia de “sonhos”, “espectros” e “mistérios”: “Cidade a fervilhar, cheia de sonhos, onde o espectro, em pleno dia, agarra-se ao passante! Flui o mistério em cada esquina, cada fronde, cada estreito canal do colosso possante”12.
A cidade fugidia e veloz é representada no poema Os Sete Velhos (1859) pela figura assustadora de um velho maltrapilho e aleijado. Caminhando pela cidade, o poeta tem a visão desse velho que se multiplica frente aos seus olhos: “Sete vezes contei, minuto após minuto, este sinistro ancião que se multiplicava!”. Desconcertado diante dessa imagem e furioso por não compreender o que estava acontecendo, volta p ara sua casa e fecha a porta: “Transido e enfermo, o espírito confuso e mudo, fendido por mistérios e visões sem nexo!”. A casa para a qual volta o poeta poderia ser o refúgio em oposição aos perigos das ruas da cidade moderna. Enquanto a casa representa a proteção à identidade e o espaço controlável, a
rua é o espaço do indeterminado, do fugidio, do mutável e da multidão. Mas para o homem moderno não há escolha. Mesmo voltando para casa, as imagens da rua o acompanhavam, pois já haviam impregnado sua alma: “Minha razão ao leme se agarrava, a tempestade lhe rompia a quilha e as cordas, e minha alma, ó naufrágio, dançava, dançava, sem mastros, sobre um mar fantástico e sem bordas!”.
A cidade, locus de todas essas experiências da modernidade, deixa de ser somente um espaço físico e se transforma em discurso. Iniciado no século XVIII, o processo de transformação das cidades medievais em grandes cidades urbanizadas, vai, pela primeira vez, fazer da cidade um foco de observação, de análise e discurso. Nesse contexto, o nível de civilização alcançado pela humanidade passa a ser representado pela cidade, lembrando que não se trata da cidade somente como espaço físico, mas, principalmente, como objeto do discurso civilizatório.
Essa articulação entre espaço urbano e civilização é que vai possibilitar a compreensão da cidade como discurso e como imagem. Segundo Pechman, “é a partir dessa articulação que a cidade escapole à sua condição mineral, derruba suas muralhas e deixa de ser um mero abrigo, simples fortificação”13. Além de ser “pedra”, a cidade moderna é discurso que fala a seus habitantes, por isso ela deixa de ser somente cenário e passa a ser personagem, como o velho maltrapilho de Baudelaire, considerando que a cidade somente ganha sentido e vitalidade na apropriação cotidiana executada pelos sujeitos que a habitam, ou seja, a cidade é lugar de práticas sociais.
Segundo Marshall Berman (1986), os melhores escritos de Charles Baudelaire sobre a cidade moderna pertencem ao período em que, sob a direção de Haussmann, a cidade de Paris estava sendo  remodelada e reconstruída. Entre 1853 e 1869, considerado o marco inaugural da modernização urbanística, Paris passará por grandes reformas, norteadas pelos ideais de higienização, embelezamento e racionalização do espaço urbano, reformas essas que ser ão o primeiro exemplo de como transformar uma cidade antiga, de feições medievais, numa cidade moderna e civilizada.

11 BERMAN, 1986, p. 15.
12 BAUDELAIRE, 1985, p. 333.
13 PECHMAN, 2002, p.2


Nesse contexto, a cidade aparece como o espaço privilegiado de manifestação da mentalidade moderna e de sua atividade civilizatória. A abertura de ruas, largas avenidas e a criação de bulevares garantiriam uma melhor circulação dentro da cidade, contribuindo para a segurança pública e eliminando do centro da cidade as classes pobres, consideradas “focos revolucionários potenciais”14. Essas reformas da malha urbana também garantiriam o embelezamento e a higienização da cidade.
Nas últimas décadas do século XIX, a modernização de Paris se tornou referência para o mundo todo. No Brasil, o Rio de Janeiro será o primeiro grande exemplo de reforma urbanística15. Entre 1903 e 1906, a capital federal, considerada “vitrine das virtudes nacionais”, passará por uma remodelação de seu espaço urbano. Pereira Passos, engenheiro e prefeito do Rio de Janeiro, foi o principal encarregado de transformar a cidade numa capital moderna e progressista a partir do modelo parisiense.
A influência da Paris de Haussmann na modernização do Rio de Janeiro é um consenso entre os historiadores que abordaram o assunto. (...) Os ideais burgueses que haviam orientado as grandes reformas parisienses – higienização, embelezamento e racionalização da malha urbana – foram adaptados ao Rio. 16
Além da modernização do espaço físico, as reformas empreendidas por Pereira Passos também significaram uma modernização dos hábitos. O discurso da cidade moderna sugere novas práticas. Proibição de animais circulando pelas ruas da cidade, cuidados com a pintura das fachadas e restrições quanto aos entrudos e cordões no carnaval seriam algumas das medidas adotadas que garantiriam uma imagem moderna e civilizada para a capital do País. Sendo assim, enquanto Paris era vista como modelo para o mundo, o Rio de Janeiro se transformava numa referência de modernização urbana para as outras cidades do Brasil. Os discursos sobre o que seria uma cidade progressista e civilizada se espalharam por todo o País. No entanto, devem-se considerar as maneiras como as diversas realidades urbanas foram se apropriando desse discurso: nas capitais de estado e no interior, nas idades menores etc, pois o modo como as cidades se formaram e se estruturaram no decorrer de suas histórias, bem como o modo como seus habitantes foram se apropriando e conferindo sentido aos seus espaços, apresenta diferenças marcantes que, por sua vez, são responsáveis pelas modificações nos modelos adotados.

14 FOLLIS, 2004, p. 29.
15No início do século XX, essas reformas empreendidas por Pereira Passos foram de grandes
proporções, mas é importante ressaltar que transformações urbanísticas também foram realizadas, ainda, no Império. Segundo Maria Inez Turazzi, engenheiros como Paulo de Frontin contribuíram para o “adiantamento da nação” durante o regime monárquico. As realizações materiais empreendidas durante o Segundo Reinado, como a construção de ferrovias, diques, estradas etc., também foram registradas visualmente. O fotógrafo alemão Revert Henrique Klumb registrou, em 1860, a construção do dique Imperial, na ilha das Cobras, e apresentou duas fotografias na Academia Imperial, entre outras imagens da cidade. Maria Inez Turazzi destaca, ainda, o aparecimento da chamada “fotografia de engenharia” nos salões de exposição da Academia Imperial de Belas Artes. A autora ressalta, também, a presença significativa, nas exposições nacionais realizadas na segunda metade do século
XIX, de imagens fotográficas representando “cidades, ferrovias, expedições exploratórias e outros projetos e empreendimentos ligados à engenharia”, fato que reforçava o “caráter celebrativo de tais eventos e sua importância para a divulgação no Brasil e no exterior dos progressos da nação”
(TURAZZI, 2006, p. 68).
16 FOLLIS, 2004, p. 29.


Em Minas Gerais, por exemplo, Belo Horizonte distinguia-se de Paris e do Rio de Janeiro por ter sido originalmente planejada e construída para ser a capital administrativa do Estado. Opondo-se claramente ao passado colonial da antiga capital Ouro Preto e aspirando à modernidade urbanística inspirada nos modelos europeus e americanos do século XIX, Belo Horizonte será construída entre 1894 e 189717, antes mesmo da reforma urbana do Rio de Janeiro, mas também influenciada pelas obras de Haussmann em Paris e por La Plata na Argentina e, posteriormente, pela moda vinda de uma Rio de Janeiro já reformada. Já no interior do estado, a cidade de São João del-Rei, de opulento passado colonial, também estabeleceu um diálogo com os discursos sobre modernização urbana nas primeiras décadas do século XX. As especificidades desse diálogo podem ser percebidas, entre outros meios,
através das crônicas publicadas nos jornais da época e, também, das fotografias feitas nesse período pelo fotógrafo André Bello18. Esses discursos sobre São João del-Rei permitem-nos pensar o modo como as imagens da cidade, às vezes real e outras vezes ideal, vão se configurando no início do século XX.

17 A inauguração de Belo Horizonte ocorreu no ano de 1897, mas sua construção estendeu-se até a metade da década de dez. Segundo Luciana Teixeira de Andrade, “somente a partir de 1915, a cidade pôde oferecer a seus habitantes reais condições para o desenvolvimento de uma vida social e intelectual típicas do meio urbano” (ANDRADE, 2004, p. 85), com a construção de cafés, confeitarias, parques etc.
18 Para tal análise seria importante também uma consulta à documentação da Câmara de São João del-Rei. Porém, isso não foi possíve, já que tal documentação encontra-se em processo de microfilmagem e o acesso a ela está impedido temporariamente. Para tentar sanar em parte esse problema,utilizaremos o trabalho desenvolvido pelo historiador e diretor do IPHAN em São João del-Rei, Roberto Maldos. Nesse trabalho, Maldos pesquisou a documentação da Câmara, entre outros documentos, para analisar a formação urbana de São João del-Rei.


A seguir, analisaremos duas questões que nos permitirão compreender o modo como se deu a relação entre modernidade e fotografia em uma cidade do interior com marcante passado colonial. A primeira questão nos remete à forma como os discursos e as práticas sociais da modernidade industrial foram vivenciadas em São João del-Rei. Como uma cidade tradicional do interior mineiro experimentava os valores da modernidade? Para tanto, consideraremos as transformações ocorridas, ou apenas desejadas, no início do século XX, tanto no espaço físico da cidade, quanto nos hábitos e costumes de seus habitantes. Tendo compreendido o modo como São João del-Rei vai se configurando como uma cidade moderna a partir do desejo de seus atores, passamos à segunda questão, na qual consideraremos o modo como a fotografia participa desse processo de modernização da cidade e se configura como um dos signos da modernidade no início do século XX.
 
1.2 A modernidade experienciada pela Princesa do Oeste
Elevada à categoria de Vila em 1713, a cidade de São João del-Rei se constituiu como importante centro da província de Minas Gerais, graças à extração aurífera e, posteriormente, à condição de centro intermediário do comércio de alimentos de Minas Gerais com o Rio de Janeiro. Essa data significou um primeiro passo para a organização da política administrativa que atuaria efetivamente no processo de formação urbana do antigo Arraial de São João. O chamado Arraial Novo19 havia crescido desordenadamente, obedecendo, a princípio, às necessidades da abundante extração aurífera que ocorria nas encostas da Serra do Lenheiro. “Com as encostas da Serra do Lenheiro ocupadas pela mineração e com o erguimento de abrigos provisórios (toscos casebres, ditos “Ranchos de Capim”) nesta área, vivencia-se um pequeno caos urbano, típico das regiões mineradoras”20 .
A primeira medida mais efetiva no sentido de ordenar a Vila foi tomada pela administração pública em 15 de abril de 1714. Segundo o “Bando”, documento mandado publicar pelo Capitão Geral, os habitantes do antigo arraial situado nas encostas da Serra do Lenheiro deveriam se mudar para a outra margem do Córrego de mesmo nome, ocupando a parte destinada à fundação da vila. Esta medida impedia também que a construção de mais casas na encosta da Serra prejudicasse a exploração do ouro. O Governo do Estado também participou desse processo, e uma série de regulamentações nesse mesmo sentido foi publicada nos anos seguintes21. Desse modo, a Vila passou a crescer ocupando as duas margens do Córrego do Lenheiro. Durante todo o século XVIII, com a constante intervenção do poder público, novas ruas foram abertas e outras fechadas, bem como novas construções foram erguidas: a Casa de Intendência, o Quartel, a cadeia e a Casa de Fundição. A formação urbana de São João del- Rei foi bastante dinâmica, com ruas e becos sendo abertos ou fechados. O controle administrativo era intenso, buscando a segurança ou o ‘formoseamento’ da Vila.
Nesse período de conformação da nova Vila percebemos a preocupação por parte do poder público com o ordenamento da cidade, sua beleza e circulação, guardadas as devidas proporções para a época. Medidas são tomadas para determinar o alinhamento das fachadas, a largura das novas ruas, o  tamanho máximo dos lotes urbanos e a construção de calçadas, para que a Vila não continuasse a crescer desordenadamente.

19 O Arraial de Nossa Senhora Pilar do Rio das Mortes, também chamado de Arraial Novo, teve início
com a descoberta do ouro nas encostas da Serra do Lenheiro, por volta de 1704.
20 MALDOS, 1997, p. 3.
21 MALDOS, 1997, p. 3.

Durante o século XIX, a cidade continua a crescer para além de sua área central, crescimento esse também controlado pelo poder público. “Nesse início do século XIX, a Câmara tem uma presença administrativa bastante acentuada, onde diversas obras urbanas na Vila eram levadas a efeito, através de arrematações, tais como concerto de ruas, de pontes e chafarizes, em áreas como o Largo de São Francisco, Rua do Tejuco, subida do Pau do Ingá, Barro Vermelho, rua Direita, entre outros, como pode ser visto no ofício de 24 de dezembro de 1805.” (Livro de Acórdãos e Termos de Vereança 1805-1810).22
Nesse período, Maldos ressalta o estado de decadência da parte mais antiga da Vila. A deterioração dos imóveis públicos e privados, bem como das demais áreas urbanas exigiam a interferência do poder público. Exemplo disso foi a construção de uma nova cadeia pública, concluída em 1849, substituindo a antiga, que se encontrava em péssimo estado de conservação. Também se tentou minimizar o problema do abastecimento de água da Vila, construindo-se novos chafarizes e melhorando-se os já existentes, cuidando-se de sua conservação e da qualidade da água que chegava até eles.
No final do século XIX, a intervenção da Câmara Municipal, em parceria com empreendedores privados, na conformação do espaço urbano é evidente, através de suas leis e resoluções. Maldos nos dá alguns exemplos:
Resolução Nº4, de 08 de março de 1892, que marcava em 1,30 m para os passeios, determinando a Câmara onde essa bitola não conviesse.
Resolução Nº6, de 04 de abril de 1892, que mandava chamar concorrência para serviço de esgotos e iluminação elétrica.
Resolução Nº. 62, de 30 de janeiro de 1895, que mandava por em hasta pública a iluminação elétrica.
Resolução Nº. 67, de 10 de abril de 1895, que aceitava a proposta de Carlos Schnityspan para a iluminação elétrica da cidade.
Resolução Nº133, de 22 de janeiro de 1898, aceitava a proposta para a iluminação da cidade à razão de Rs 7$000 o lampião belga e Rs 5 $000 o comum, por mês.
Resolução Nº168, de 23 de Maio de 1898, ano em que foi sancionada, que mandava fazer nova numeração nas casas à razão de Rs 1$000 por placa e a sua colocação.23

Esse período foi marcado pelo crescimento da cidade, aumento da população e conseqüente aumento das rendas públicas e privadas, situações essas que acabariam por exigir e possibilitar, entre outras medidas, a melhoria do abastecimento de água, a canalização dos esgotos e a criação do transporte urbano. Ainda no final do século XIX, a chegada da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM), em
1881, ligava São João del-Rei à cidade de Antônio Carlos, beneficiando as ligações comerciais com o Rio de Janeiro, com a zona da mata e todo o Oeste de Minas. Pablo L. de O. Lima confirma os objetivos da criação da Estrada de Ferro Oeste de Minas:
“A intenção era, através da melhoria do transporte terrestre, estimular o crescimento da produção e do comércio locais, através de um fluxo migratório para o Oeste de Minas, levando a um crescimento populacional e, consequentemente, um aumento da demanda pela ferrovia”.24
Esse período foi marcado também por um comércio ativo e variado, e pela chegada de novas indústrias, como a fábrica de tecidos da Companhia Industrial Sanjoanense. Durante todo o século XIX, excetuando-se alguns momentos de crise, o comércio de São João del-Rei se fortaleceu. Reanimado pela inauguração da Oeste de Minas, o desenvolvimento comercial colaborou diretamente com a criação de indústrias e a modernização dos transportes e da cidade.
Em seu estudo sobre o desenvolvimento de São João del-Rei e o mito da decadência de Minas no século XIX, Afonso de Alencastro Graça Filho cita o periódico local A Pátria Mineira, o qual resume o surto de investimentos de 1890-91:
No decurso dos dous anos últimos têm-se construído em nossa cidade mais de cem prédios; abriram-se diversos hotéis, sendo um deles o Oeste, de primeira ordem; fundaram-se duas companhias industriais e um banco, empresas essas que já estão funcionando; estabeleceram-se mais três relojoarias, duas no mês passado; mais três alfaiatarias, diversas oficinas de sapateiros; três institutos de educação, sendo dous para meninos e um para meninas; organizaram-se diversas associações, sendo duas de beneficiência; finalmente abriu-se mais uma rua, a da Mangueiras. Por outra parte, apesar do aumento das construções, não se encontram prédios desocupados; os aluguéis das casas e dos domésticos tem subido de preço; há emprego e serviço para quantos procuram trabalho e, não obstante o alto preço de todos os gêneros, tem desaparecido em grande parte a mendicância.25
Temos, assim, um século XIX marcado pelo fortalecimento de um variado comércio, que, segundo acreditavam os habitantes de São João del-Rei, poderia gerar recursos financeiros para a concretização de uma cidade moderna e progressista. Nesse contexto, considerado favorável, os são-joanenses mantinham diálogo constante com os discursos sobre modernidade e progresso difundidos no Brasil durante as últimas décadas do século XIX e início do século XX. Mas nenhuma cidade adere a um modelo de urbanização sem modificálo.
Por isso, a cidade de São João del-Rei não abdicou de valores que já possuía, mas optou por associá-los aos modelos difundidos pela modernidade do século XX.
Enquanto cidade de passado colonial do interior de Minas Gerais, São João del-Rei irá experimentar as ambigüidades e contradições de uma época em que o espaço físico da cidade também representava o grau de civilização de seus habitantes. Podemos observar, através dos discursos construídos sobre a São João del-Rei das primeiras décadas do século XX, ascontradições e os conflitos existentes no movimento de modernização da cidade, bem como a associação de valores modernos aos valores próprios de uma “pitoresca e bucólica” cidade do interior mineiro.
Conscientes das belezas naturais e da identidade construída em quase duzentos anos de história, seus habitantes do início do século XX exaltavam seus atributos pitorescos, mas sem esquecer a necessidade de se percorrerem “os caminhos do progresso e da civilização”, que já estavam sendo trilhados por cidades do mundo inteiro.
A natureza connosco foi pródiga, dotando a nossa terra, além do clima ameno, de um ceo sempre de anil e de um solo, donde surgem azulados serros, a cujas faldas se estendem alfombras de musgo e de verdura, cortando a florida campina, c&oa

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