São João del Rei Transparente

Publicações

Padre José Maria Xavier . Maria Salomé de Resende Viegas

Descrição

  O solo de flauta do IV Responsório das Matinas de Natal

do Padre José Maria Xavier:

aspectos históricos, estéticos e interpretativos


Belo Horizonte

Universidade Federal de Minas Gerais

2006


O SOLO DE FLAUTA DO

IV RESPONSÓRIO DAS MATINAS DE NATAL

DO PADRE JOSÉ MARIA XAVIER:

ASPECTOS HISTÓRICOS, ESTÉTICOS E INTERPRETATIVOS

 

Artigo de mestrado submetido ao programa e Pós-Graduação em Música da Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais, como requisito parcial para a obtenção de grau de Mestre.

Linha de Pesquisa: Performance musical

Orientador: Prof. Dr. Fausto Borém.

 

Belo Horizonte

Universidade Federal de Minas Gerais

2006

 

Agradecimentos

Ao meu orientador, Professor Doutor Fausto Borém, por ter me dado essa oportunidade de crescimento, e por sua dedicação e competência.

Ao meu professor de flauta no Mestrado, Professor Doutor Maurício Freire, por compartilhar sua sensibilidade e experiência com tanta maestria e generosidade.

À minha irmã, a pianista Maria Amélia Viegas, por ter aceito prontamente os desafios que lhe propus e por seu apoio, fundamental,em todos os momentos.

Ao musicólogo são-joanense Aluízio Viegas, por sua devoção ao estudo musicológico e sua disponibilidade em contribuir com minha pesquisa.

Ao amigo Enivaldo Arruda, por sua dedicação à música são-joanense e por sua presteza em colaborar com meu trabalho.

Ao Professor Abgar Antônio Tirado, por seus trabalhos de tradução e relevantes informações que muito enriqueceram minha pesquisa.

À maestrina Stela Neves Valle, por me disponibilizar prontamente todo o material que necessitei em minha pesquisa.

À Liliane, por sua competência e colaboração na formatação do meu trabalho.

Aos músicos José Justino, Adilson Cândido, Oraciles Moraes, Márcia Silva, Kíssia Andrade, Diemes Evandro, Felipe Abreu, Filipe de Souza, pela disponibilidade em divulgar a música de São João del Rei  e por abrilhantarem a  minha apresentação de conclusão de curso.

Ao meu marido Bruno, por seu total apoio e compreensão em todos os momentos.

VIEGAS, Maria Salomé de Resende. O SOLO DE FLAUTA DO IV RESPONSÓRIO DAS MATINAS DE NATAL DO PADRE JOSÉ MARIA XAVIER: ASPECTOS HISTÓRICOS, ESTÉTICOS E INTERPRETATIVOS. 2006. (Artigo de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Música) – Escola de Música, Universidade Federal de Minas Gerais, 2006.


Resumo 

Estudo sobre os elementos históricos, estruturais e de performance no solo de flauta do IV Responsório das Matinas de Natal, composto pelo compositor mineiro Padre José Maria Xavier (1819-1887), obra musical sacra do século XIX que até hoje consta do repertório sinfônico regularmente apresentado em São João Del Rei, cidade natal do compositor.  Esta abordagem inicial da obra foi desenvolvida a partir de aspectos da relação texto-música, figuras retórico-musicais, utilização de elementos da análise e práticas de performance históricas para fundamentar sua interpretação.

Palavras-chave:  Padre José Maria Xavier, música colonial mineira, música sacra, análise musical, práticas de performance históricas.

VIEGAS, Maria Salomé de Resende. O SOLO DE FLAUTA DO IV RESPONSÓRIO DAS MATINAS DE NATAL DO PADRE JOSÉ MARIA XAVIER: ASPECTOS HISTÓRICOS, ESTÉTICOS E INTERPRETATIVOS. 2006. (Artigo de Mestrado – Programa de Pós-Graduação em Música) – Escola de Música, Universidade Federal de Minas Gerais, 2006.


Abstract 

Study on historical, structural and performance aspects of the flute solo contained in the Fourth Christmas Matin Responsory, composed by Brazilian composer Padre José Maria Xavier (1819-1887), a musical work still regularly included in symphonic concerts in São João Del Rey, the composer’s birthplace.  It includes references to musical-rhetorical figures and historical performance practices in the work and its departures from the analysis towards its performance.

Keywords: Padre José Maria Xavier, Brazilian colonial music, sacred music, musical analysis, historical performance practices


“Os conhecimentos musicológicos não devem constituir-se um fim em si mesmos mas apenas proporcionar-nos os meios de chegarmos a uma melhor execução que, em última instância, será autêntica se a obra for expressa de forma bela e clara”. (HARNONCOURT, 1990)

 

SUMÁRIO

 

Agradecimentos............................................................................................................ I

Resumo......................................................................................................................... II

Abstract ........................................................................................................................  III

Epígrafe ........................................................................................................................ IV

1 - Introdução................................................................................................................. 1

2 - O homem público e compositor Padre Xavier .................................................  2

3 - O Contexto Religioso do IV Responsório das Matinas de Natal ..................  9

4 - Aspectos Musicais e Estilísticos do IV Responsório das Matinas de Natal .... 12

5 - Aspectos da Performance do Solo de Flauta do IV Responsório Matinas de    

     Natal ........................................................................................................................ 13

6 - Outros Solos de Flauta na Obra do Padre José Maria Xavier ...................... 18

7 - Conclusão................................................................................................................ 23

8 - Bibliografia............................................................................................................... 25

9 - Anexos

9.1 – Relação Sumária das Obras do Padre José Maria Xavier ............... 29

9.2 – Partituras:

9.2.1 - Matinas do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo –

            Responsório IV.................................................................................... 34

9.2.2 - Novena de Nossa Senhora do Carmo – Gloria Patri .................. 39

9.2.3 - Novena de São Sebastião – Antífona – Largo ............................. 41

9.2.4 - Novena das Mercês – Hino - Lento ................................................. 45

9.2.5 - Novena de Nossa Senhora da Conceição Tota Pulchra ............ 48

9.2.6 – Minuette – Trio .................................................................................... 64

9.3 – Programa do Recital Final ........................................................................ 66


1- Introdução

A rica herança musical de Minas Gerais, que remonta aos séculos XVIII e XIX é notória, na qual se destaca a “Escola” são-joanense. Este conceito de “Escola” foi desenvolvido por REZENDE (1989): (...) “escola (de compositores) trata-se apenas de uma orientação de caráter estético-musical comum a um grupo de músicos em determinadas regiões de Minas” (p. 571). Rezende faz diversas alusões a São João del Rei, no que tange às tradições musicais, os compositores e suas obras, o vasto acervo histórico-musical ainda conservado.. Diferentemente do que ocorreu em muitas cidades coloniais cuja atividade musical diminuiu muito com o declínio do ciclo do ouro, São João del Rei ainda mostrou uma profícua criação musical durante o fim do século XVIII e século XIX. São muitos os compositores atuantes nessa região nessa época, como comprova os arquivos das orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos, daquela cidade. Dentre estes compositores, destaca-se o Padre José Maria Xavier (1819-1887), cujas obras vêm sendo regularmente executadas por essas orquestras, nos rituais litúrgicos em São João del Rei, desde que foram compostas,até os dias de hoje. O Padre Xavier serviu aos propósitos da Igreja, como sacerdote mas, principalmente, como compositor de música sacra. Sua obra se incorporou ao imaginário da cidade, tornando-se referência para aqueles que freqüentam as festividades religiosas promovidas pelas Irmandades, Confrarias e Ordens Terceiras em São João del Rei. Apesar desta importância e reconhecimento pelos seus conterrâneos, a obra do compositor Padre José Maria Xavier não transpôs ainda, de fato, as fronteiras locais. Há poucos estudos sobre seu legado e sua música é muito pouco tocada fora de sua terra natal.

Na minha experiência como flautista, membro da Orquestra Ribeiro Bastos há mais de 20 anos, tive a oportunidade de interpretar diversas obras do Padre José Maria Xavier, cujas partes de flauta sempre chamaram a atenção pela sua expressividade, refinamento melódico e adequação às possibilidades do instrumento, especialmente a parte da flauta das Matinas de Natal.

Este estudo visa aprofundar o conhecimento acerca do solo de flauta do IV Responsório das Matinas de Natal, do Padre José Maria Xavier, como meio de prover subsídios para a sua interpretação fundamentada e sua divulgação entre flautistas e o público em geral.

Pouquíssimas fontes sobre a vida e obra do Padre José Maria Xavier estão disponíveis. A principal delas, à qual geralmente os musicólogos e estudiosos recorrem, é o artigo escrito por RESENDE (1887) no Arauto de Minas. Outra fonte é um depoimento escrito por PIMENTEL (1901) na Revista do Arquivo Público Mineiro, Estes dois autores conviveram diretamente com o Mestre Xavier. Outras fonte relevante é o artigo escrito a respeito do compositor por VIEGAS (1987), que baseia-se nos autores contemporâneos do Padre José Maria e inclui informações e conclusões inferidas após esmerado estudo de partituras e documentos existentes no Arquivo da Orquestra Lira Sanjoanense. Existe ainda um resumo bibliográfico escrito pelo professor TIRADO (1987), em homenagem aos 100 anos de morte do compositor. O perfil biográfico do Padre Xavier apresentado neste estudo baseia-se nestes documentos.

Antes de analisar os aspectos estilísticos, harmônicos, estruturais do IV Responsório das Matinas de Natal, é apresentada uma contextualização sobre seu significado e função religiosa. Depois, comparam-se o solo de flauta da Matina de Natal com solos de flauta em outras obras do Padre Xavier para concluir com sugestões técnico-musicais para uma interpretação coerente com a análise e instrumentação da obra.

2- O homem público e compositor Padre Xavier

José Maria Xavier nasceu em São João del Rei, MG, em 23 de agosto de  1819, na Rua Santo Antônio, filho de João Xavier da Silva Ferrão, natural de Mariana, e Maria José Benedita de Miranda, natural de São João del Rei. Sua mãe descende de uma família de músicos são-joanenses (Ex.1), cujo pai, José Joaquim de Miranda, foi fundador da atual Orquestra Lira Sanjoanense, entidade fundamental na história musical de São João Del Rei. Os tios maternos-Marcelino Cláudio, Joaquim Lourenço, João Babtista e Francisco de Paula também eram músicos e pertenceram à Lira Sanjoanense 1. O Padre José Maria Xavier teve sete irmãs: Teresa Caetana, Mariana Guilhermina, Maria Lina, Bernarda Luiza, Joana, Alexandrina e Guilhermina (as três últimas falecidas quando ainda crianças).

É importante observar no que diz respeito à origem do Mestre Xavier, que sua bisavó materna era uma negra alforriada, o que acrescenta que esta família de músicos conseguiu conquistar seu espaço, numa sociedade elitista e preconceituosa. Como diz PASSOS (2003, p.13 e p. 33):

 
 Esses mesmos mulatos, pelo seu esmerado trabalho, sua conduta exemplar, porque não dizer, na busca de um destaque entre os seus, conseguiram impor-se numa sociedade excludente e escravocrata. Ganharam dos brancos a admiração tanto no campo da música erudita, como também na pintura, na arquitetura e na escultura. Como exemplos podemos citar: José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, Francisco Gomes da Rocha, o Aleijadinho, a família dos Miranda, inclusive o padre José Maria Xavier.(...).

 È, pois, que podemos dizer que foram as relações sociais dos Miranda, o papel desempenhado por esta família na sociedade sanjoanense, desde os fins do século XVIII, através do viés da música e da religiosidade é que possibilitou a inserção na sociedade e o conseqüente reconhecimento social de José Maria. A classificação racial foi sendo enfraquecida ao longo do tempo e “substituída” pela atuação social dos membros da família Miranda.”


Nesta família tradicional de músicos, José Maria Xavier aprendeu clarinete, violino, viola de orquestra, violão e piano desde criança. O efervescente ambiente musical de São João del Rei também foi favorável ao desenvolvimento do artista. Ali conheceu e conviveu com músicos são-joanenses nascidos no final do século XVIII, como Lourenço José Fernandes Braziel, João José das Chagas, Joaquim Bonifácio Braziel, José Marcos de Castilho, além dos tios músicos.  Na orquestra, com nove anos apenas, atuou primeiramente como tiple (menino cantor), vínculo comprovado por um recibo da Ordem do Carmo datado de 1828 que se encontra no Arquivo da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo (documento avulso). Em 1837, passou a atuar nesta corporação musical como primeiro clarinetista, como mostra a lista de músicos da Lira Sanjoanense contratados pela Ordem do Carmo. Em 1845, ingressa no Seminário de Mariana, a fim de realizar os estudos para o sacerdócio. Em 19 de abril de 1846, é ordenado presbítero e no ano seguinte, é nomeado Vigário do Rio Preto. Nesta localidade, permaneceu somente por um ano, conseguindo permissão para voltar para sua terra natal, devido a sérios problemas de saúde. Ao retornar, em 1848, o quadro que o Padre José Maria encontra naquela cidade mineira é de desenvolvimento econômico e grande atividade cultural.

Vários historiadores narram a importância econômica de São João del Rei nessa época. SOBRINHO (1997), citando Saint Hilaire e Bumbury, autores do século XIX, descreve:

 
“São muitos aliás, os testemunhos, principalmente dos viajantes estrangeiros que aqui estiveram no inicio do século XIX, afirmando unânimes, quase nos termos de Saint Hilaire:´Depois que o Brasil se tornou independente e os habitantes de São João renunciaram, ao menos em parte, à mineração, esta Vila tornou-se o centro de considerável comércio, que tende a aumentar com o tempo´.

....

E São João del-Rei, tornou-se de fato, um entreposto comercial, importador e exportador, de variado gênero de mercadorias, nacionais e internacionais. Sua localização geográfica, no entroncamento de vários caminhos, facilitou-lhe esta vocação histórica, como oportunamente registrou Fox Bumbury, em 1835:

 

´O comércio desse lugar é considerável, pois fica na estrada real de São Paulo e Ouro Preto, e também numa, se bem que a menos freqüentada, das duas estradas desta última cidade ao Rio (1981, p.97)´ “.(SOBRINHO, 1997,p.20 e p.21)


Devido à produção agrária, ao comércio e à indústria em ascensão após o ciclo do ouro no século XVIII, e contrariando o que ocorreu em diversas cidade como Ouro Preto e Mariana, São João del Rei continuou o seu progresso econômico. GRAÇA FILHO corrobora este quadro (2002, p.36 e p. 38):

 

“Saint Adolphe, em seu dicionário geográfico do Império, editado em 1845 falaria de São João del Rei como o município mais abastado de Minas Gerais, com excelentes pastos e terras para o plantio dos algodoeiros, dos canaviais e searas de milho.Também sobressaía o seu vultoso comércio em relação às demais vilas mineiras. A proximidade de São João del Rei com a fronteira do Rio de Janeiro, tendo acesso ao Caminho Real, principal rota de ligação da Corte com a zona mineradora de Minas, permitiu-lhe a centralização do comércio dos produtos do sul da Capitania”  

O movimento cultural acompanhou o ritmo do progresso econômico. Segundo VIEGAS (1989, p.685),

 

“A vida musical de São João del Rei intensifica-se na segunda metade do século XIX.(...) As duas corporações musicais, compostas de coro e orquestra sentem a necessidade de ampliar seus repertórios, num sentido competitivo de fornecer a melhor música a quem os contratasse.(...) Os repertórios são ampliados e variados, através de composições de autores locais, nacionais e estrangeiros, predominando, neste caso, os italianos. Há o apoio da imprensa local em divulgar notícias de fatos acontecidos ou eventos por acontecer no meio musical tanto religioso quanto profano. Através dessas notícias é que se sabe da intensa vida musical de São João del Rei”.

 
O progresso cultural nesta época também sofreu grande influência da Igreja e de seus rituais, mantidos e coordenados pelas Ordens Terceiras e Irmandades (2), que existem até hoje, mas que naquela época tinham mais importância junto à sociedade. Segundo TIRADO (1987, p. 1):

 

“A vila de São João del Rei, em princípios do século XIX, já não era mais o esplendoroso centro de mineração que tanto a projetara no século anterior, mas mantinha sua importância como movimentado pólo social e comercial, tendo conseguido diversificar sua economia de tal forma que pôde garantir sua sobrevivência e assegurar seu progresso. No campo religioso era total a proeminência da Igreja Católica, com grande prestígio do clero e das ordens e irmandades religiosas.”

O Padre José Maria Xavier exerceu diversas funções de destaque em sua cidade. Foi Capelão e professor, primeiro no Colégio Duval, e mais tarde, em outras escolas; Vigário da Vara (3) de São João Del-Rei (1854 a 1856); Definido (4)da Ordem Terceira de São Francisco e da Confraria de São Francisco de Assis e São Gonçalo Garcia(1855 a 1856); Comissário da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo (1859 a 1870); Provedor da Santa Casa de Misericórdia (eleito em 1879 e 1880), Membro da conferência de São Vicente de Paulo e da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte; Capelão da Irmandade dos Passos e da Confraria de Nossa Senhora do Rosário. Na política, foi militante no Partido Conservador.

 
Embora exercesse com competência as diversas funções que lhe foram confiadas durante sua vida, aquela em que mais é lembrado foi a de compositor. Sua obra, essencialmente dedicada aos ofícios da Igreja consta de missas, credos, Te Deum, matinas, novenas, antífonas, ladainhas, hinos e bradado (5) entre outras (6)

 

No conjunto de sua obra, as que são apresentadas em São João del Rei anualmente e que mais se destacam são:

 

- Matinas de Natal de N. S. Jesus Cristo;

- Matinas d’Assunção e Novena própria;

- Matinas da Ressurreição;

- Novenas de São Sebastião e de Nossa Senhora do Carmo;

- Missa de Réquiem e Responsórios Fúnebres;

- Encomendação (Exéquias) dos Irmãos Terceiros da Ordem do Carmo e de São

Francisco;

- Três “Te Deum laudamus”.

 

A produção de música profana do Padre Xavier é pequena, constando apenas de uma Abertura para o dia 14 de agosto (7) uma Valsa para cordas e alguns minuetos, como o As Flautas e O gosto de Pleyel. Esses minuetos foram compostos para serem tocados na igreja, pois havia o costume de se encerrar com um minueto ou alguma peça mais alegre, algumas festividades religiosas.

 

De toda a sua obra, as mais conhecidas e tocadas atualmente são os Responsórios dos Ofícios de Trevas, executados na Semana Santa e recentemente gravados pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e Coral Lírico do Palácio das Artes, regidos pelo maestro Marcelo Ramos (XAVIER, 2004; XAVIER, 2005).

 

O Padre José Maria Xavier obteve algum reconhecimento ainda em vida. Em 1872, recebeu a Medalha de Prata pelas composições apresentadas na 5ª Exposição Industrial Mineira, em Juiz de Fora. O Imperador D. Pedro II, em seu diário de viagem, se refere à música do Padre José Maria Xavier da seguinte forma: “A música do Te Deum foi a melhor que ouvi em Minas, dizem ser composição do padre José Maria” (TIRADO, 1987, p. 7).

O Padre José Maria Xavier é Patrono da Cadeira Nº 12 da Academia Brasileira de Música, ocupada à época da fundação da Academia, em 1945 por Otávio Bevilacqua, depois sucedido por José Maria Neves, conterrâneo do Padre José Maria Xavier e, hoje, por Jonh Neschling.

Após sofrer uma queda enquanto podava uns arbustos em seu quintal, o Padre Xavier teve complicações em sua saúde já debilitada e em 22 de janeiro de 1887, faleceu. No seu documento de óbito, a causa mortis relatada é “diarréia e paralisia consecutiva” (TIRADO, 1987). No seu Testamento, que hoje está devidamente resguardado no Museu Regional de São João del Rei, seu último pedido resume sua vida de abnegação, simplicidade e convicção religiosa:

 
“Em vez de coroas, marcha fúnebre, mausoléu, flores, poesias e necrológios eu prefiro, e peço, pelo amor de Deus e por caridade, alguns Padres Nossos e outros sufrágios constantes.” (XAVIER, 1887).

3- O contexto religioso do IV Responsório das Matinas de Natal

O IV Responsório das Matinas de Natal faz parte de um conjunto de Oito Responsórios das Matinas de Natal, compostos por Padre José Maria Xavier para quatro vozes e uma pequena orquestra (violino I, violino II, viola, baixo e/ou oficleide, flauta, clarineta, piston e trompas). Os originais manuscritos do compositor se perderam, restando algumas cópias da época feitas por copistas seus contemporâneos, provavelmente um dos três mais fiéis copistas das obras do Padre José Maria Xavier (VIEGAS, 2004): Hermenegildo José de Souza Trindade (8) Daniel Antônio de Paiva (9)ou Franscisco Martiniano de Paula de Miranda (10) As cópias mais antigas datam de 1867 (11) e se encontram no Arquivo da Lira Sanjoanense. Embora esta obra tenha sido publicada na Alemanha em junho de 1885, a data de sua composição não pode ser precisada.

As Matinas são orações para serem feitas nas primeiras horas do dia (da meia-noite às três horas da madrugada), originalmente realizadas pelos monges nos mosteiros e posteriormente praticadas nas igrejas em ofícios especiais com a participação dos religiosos e comunidade leiga. Fazem parte do Ofício Divino, (12) que é uma oração oficial da igreja católica, formado por oito momentos distribuídos ao longo do dia e noite: Matinas (meia noite às três horas), Laudes (das três horas às seis horas), Prima (das seis horas às nove horas), Terça (das nove horas ao meio dia), Sexta (de meio dia às quinze horas), Nona (de quinze horas às dezoito horas), Vésperas (de dezoito às vinte um horas) e Completas (vinte uma horas às vinte e quatro horas). Segundo NEVES (1980):

 
Cada um destes momentos de oração tem estrutura particular, compreendendo o canto de alguns salmos, antífonas, hinos, responsórios, trechos bíblicos para meditação, etc. Para os dias feriais(sem festividade especial), há esquemas básicos que se repetem durante todo o ano, e para cada solenidade do calendário litúrgico existem ofícios especiais"

Nas Matinas do Natal, o esquema formal do ofício, segundo o Missal Romano anterior à Reforma do Papa Pio XII, pode ser assim sumariado:

1.

Pater Noster, Ave Maria e Credo  1

2.

Versículo (canto responsorial).

3.

Invitatório  2

Salmo, que é intercalado após a recitação de cada Versículo, com a repetição do Invitatório, o que acontece 7 vezes. Nesse caso, o Invitatório tem a forma AB, em que toca-se só a parte A ou a parte B, conforme indicado na rubrica. 3

4.

Antífona 4

Salmo

Repete a Antífona

5.

Antífona

Salmo

Repete a Antífona e segue o Versículo

6

Reza-se o Pater noster, secretamente, seguido pela Absolvição e Bênção de cada leitor, antes de cada lição.

1.

1ª lição 5

Responsório  A B C B

2.

2ª lição

Responsório  A B C B

3.

3ª lição

Responsório  A B C B A B

     
As Matinas também eram chamadas de Vigílias Noturnas. Cada conjunto de três leituras e dos três Responsórios correspondem a um noturno. Num ofício religioso, fazem parte três noturnos, somando nove Responsórios. Nessas Matinas, no entanto, são oito Responsórios sendo que o último Responsório do terceiro noturno é substituído pelo Te Deum laudamus, que pode ser cantado continuamente ou na forma alternada – estilo gregoriano versus polifonia. Segundo VIEGAS (1987),
1 O Pater Noster, a Ave Maria e o Credo são rezados.
 
2 O Invitatório  é executado pela orquestra e coro polifônico.
 

3 As Rubricas são explicações sobre o ritual litúrgico. O termo deriva de ruber, que significa vermelho, e daí porque são escritas geralmente em letra vermelha.

4 A Antífona é cantada por solista ou por coro gregoriano.

5 As Lições são cantadas por solista ou por coro gregoriano.


“Para a execução em função litúrgica própria, o cerimonial exige dois coros gregorianos com chantre e sub-chantre, isto é: um cantor que inicie cada frase das antífonas e dos salmos e depois do chantre encabeça o 1º coro e o sub chantre o 2º coro. O capitulante é o sacerdote que preside a função, próximo ao altar. O invitatório e os responsórios são confiados ao coro polifônico acompanhado por orquestra. Os demais textos: antífonas, salmos, leituras (ou lições) em gregoriano.”

 

O IV Responsório das Matinas de Natal é inserido após a leitura do Sermão do Papa São Leão Magno, que fala da alegria pelo nascimento do Salvador, o qual veio para destruir o pecado. O texto do IV Responsório, e sua tradução, segundo TIRADO (2005) é a seguinte:

 
Primeira Parte (Responsório): “O magnum mysterium et admirabile sacramentum, ut animalia viderent. Dominum natum jacentem in presépio.” Tradução: “Oh Grande Mistério e Admirável Sacramento, para que os animais vissem o Senhor recém nascido deitado na manjedoura.”

 
Segunda Parte (Presa): “Beata Virgo, cujus víscera meruerunt portare Dominum Christum.” Tradução: “Oh Bem Aventurada Virgem, cujas entranhas mereceram carregar o Cristo Senhor.”

 
Parte Final (Verso): “Ave Maria gratia plena, Dominus tecum.” Tradução: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco.”

 
As Matinas de Natal devem ser executadas após o Advento, iniciando-se no dia do Natal (25 de Dezembro) até a Epifania (dia 6 de janeiro). Atualmente, não há mais a prática de um ofício específico, onde todo o ritual é celebrado. As Matinas são executadas em momentos das Missas e Novenas deste período.

 4- Aspectos musicais e estilísticos do IV Responsório das Matinas de Natal

 A forma dos Responsórios está vinculada à sua função no ritual litúrgico. Os Responsórios, nas Matinas obedecem ao critério das rubricas quanto às repetições, seguindo um esquema A B C B da seguinte maneira:

 
1- A: Responsório (em andamento lento);

2- B: Presa 1 (em andamento rápido);

3- C: Verso ou Versículo (em andamento lento, geralmente com solo vocal);

4- B: Repetição da Presa;

O IV Responsório do Padre Xavier tem três movimentos, que seguem exatamente o esquema A B C B. A Seção A, em Fá Maior, é um Andante em que seus 11 compassos são divididos em um período com duas frases de quatro compassos cada, e uma coda de três compassos. Na sua textura de melodia acompanhada, a flauta solista realiza uma linha bastante ornamentada e destacada em relação ao coro. O registro utilizado na flauta é o agudo, o que a faz soar acima de todos os instrumentos e das vozes. As vozes cantam o texto litúrgico homofonicamente em blocos de acordes, o que faz com que o coro soe como um acompanhamento para a flauta solista. A dinâmica pedida para o coro é p e, na parte da flauta a marcação cantabile reforça a idéia de que a flauta pode ser vista como a voz principal, característica do estilo do compositor que foi observada por CONTIN (1996, p.42):

 

Seu estilo, o do padre-músico, caracteriza-se sobremaneira pelo uso do coro harmonizado em blocos sonoros, com um acompanhamento nas cordas feito frequentemente em notas repetidas ou com acordes em “Alberti”, fazendo em conta a possibilidade dessa escritura para o conjunto vocal, um “acompanhamento” coral (ao qual se juntam as cordas) para melodias em certos instrumentos de sopro (flauta e clarinete, preferencialmente).”

A linha do baixo é feita pelo contrabaixo, que é dobrado pelo oficleide somente nos tutti, como consta nas partes cavadas.

A Seção B é um Allegro, no tom de Fá Maior, com 28 compassos em métrica ternária. No início, duas frases de oito compassos cada são cantadas pelo tenor solista que, a seguir, são respondidas com a mesma melodia pela a flauta com o piston em oitava, enquanto o coro canta em bloco de acordes. No c.17, uma anacruze inicia uma Coda de 11 compassos, na qual a flauta volta a solar.

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