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Pesquisas UFSJ

A família escrava em São João del-Rei na primeira década do séc. XIX . Mônica Lúcia de Resende Chaves

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A FAMÍLIA ESCRAVA EM SÃO JOÃO DEL REI NA PRIMEIRA DÉCADA DO SÉC. XIX

Autora: Mônica Lúcia de Resende Chaves

Esta pesquisa tem por objetivo o estudo sobre a família escrava na Vila de São João del Rei no período de 1801 a 1810.
O período acima descrito foi escolhido com a finalidade de se conhecer o modo de vida do escravo ao tentar compreender suas relações familiares, mas sem a perspectiva das leis abolicionistas que vão surgindo a partir de 1850 e que certamente interferem no cotidiano da vida escrava, como também em toda sociedade. Isto se
explica porque o escravo, ao perceber mudanças de leis que poderiam interferir na sua situação de cativo, com certeza nutriria esperanças ou praticaria ações que antes não lhe passaria pelo pensamento, uma vez que não havia uma perspectiva sequer de liberdade, a não ser pela compra de sua liberdade. O principal objetivo deste recorte cronológico é trabalhar as relações familiares escravas da Vila de São João del Rei e procurar mostrar
a freqüência em que foram encontradas nos inventários e o quanto significativas estas foram para definir as relações sociais daquele período. E, aliado a estes dados, é bastante importante ressaltar que esta década delimitada para esta pesquisa foi marcada por um maior índice de legitimidade entre as mães escravas durante as décadas de 1741-1750 a 1841-18501. Em São João del Rei. Isso certamente interfere em nossa pesquisa uma vez que a torna mais rica ao encontrarmos mais quantidades ,e portanto, variedades de relacionamentos familiares entre a população escrava da vila naquele período.
O trabalho visa conhecer o cotidiano escravo dentro do círculo familiar ao tentar trabalhar o tamanho médio da prole escrava e presença nas escravarias, de famílias escravas, dentro da Vila de São João del Rei, período citado acima. O interesse é saber se havia uma uniformidade entre o número de filhos das famílias escravas pesquisadas em toda a década ou se houve alteração do número de filhos comum das famílias escravas no decorrer de 1801 a 1810. Para trabalharmos estes dados levaremos em conta o tipo de parentesco descritos nos inventários post mortem onde são arrolados todos os bens da pessoa falecida, o inventariado, e entre os bens estão o nome do escravo, a idade, na maioria das vezes, a origem, algumas vezes aparece a profissão e,
em alguns casos, o grau de parentesco com outro escravo do mesmo inventário. Daí nos deparamos com algumas limitações como a de não se poder saber se havia algum tipo de ligação familiar de escravos de plantéis diferentes (o plantel inventariado com outros plantéis) por não serem citados tais casos, e ainda havia casos de plantéis que possuíam uma ou mais crianças escravas pequenas em faixa etária (1 a 5 anos) que precisam de maiores cuidados, porém não havia uma definição de parentesco entre estas crianças e os demais escravos daquele plantel, mesmo sendo citadas escravas em idade fértil naquele mesmo inventário. Este último caso nos deixa claro a relatividade do total de informações que foram coletadas na pesquisa e o quanto está sujeita uma pesquisa a limitações como estas, embora casos como este não sejam uma regra geral. Trabalharemos também a questão do levantamento do número de famílias escravas que eram constituídas pelo(s) filho(s) e um dos progenitores em contraposição ao número de famílias escravas que eram constituídas pelo(s) filho(s) e por ambos os progenitores. Isto nos levaria a perceber a freqüência com que filhos de escravos têm conhecimento de seus pais e a isso acrescentamos também uma média de escravos que chegaram a conhecer seu(s) irmão(s) na Vila de São João del Rei, pelo menos na primeira década do séc. XIX. Em relação à idade média da escravaria da vila de São João del Rei neste  período da história, faremos uma descrição da porcentagem de escravos encontrados de 0 até 14 anos, ou seja, em idade infantil; de 15 a 39 anos, em fase mais produtiva e, consequentemente mais valorosos do ponto de vista financeiro; e a partir dos 50 anos onde já são menos valorizados e, às vezes classificados como “velhos” pelos avaliadores dos bens do inventariado, não descartando a possibilidade de não chegarem a ser nem avaliados como aconteceu em alguns casos esporádicos.
Para maior valorização da pesquisa devemos fazer uma comparação entre o número total de mulheres e de homens escravos que foram descritos durante o estudo destes inventários, uma vez que estamos trabalhando com a vila onde naturalmente há uma diferenciação com o município no sentido de que as atividades com fins lucrativos praticadas pelos senhores de escravos geralmente variam. Por exemplo, a atividade agropecuária deverá diminuir em relação à atividade comercial e, portanto, a necessidade de trabalho escravo para atividades que exigem grande força física aliada a grande número de pessoas poderá diminuir em contraposição à vila. Isto nos levaria a entender que na vila, por ser um espaço urbano não seria necessariamente certo definir que se precisaria mais do trabalho escravo masculino do que do feminino, como no caso das fazendas do município. Portanto é interessante que se compare a quantidade de escravos pesquisados do sexo masculino com os do sexo feminino. E ainda sobre este assunto faremos um levantamento do número de plantéis que são compostos apenas por escravos do sexo masculino, uma vez que foram encontrados em um número significativo de inventários. Isto mostraria uma tendência mais geral
sobre a escravidão no Brasil onde os plantéis muitas vezes eram compostos em sua maioria por escravos adultos do sexo masculino, indicando assim uma tendência ao celibato como um fator presente durante o regime escravista, como já foi demonstrado em outros estudos regionais, Os estudos recentes também não negam o impacto do grande desequilíbrio numérico entre homens e mulheres (decorrente do tráfico africano e, posteriormente, nas regiões cafeeiras, do comércio interno de escravos) sobre as possibilidades dos cativos construírem famílias estáveis. Eles apenas mostram que eram os homens que sentiam esse impacto, não as
mulheres... São variados fatores que contribuiriam para esta situação, ou seja, maior número de escravos do que escravas nas escravaria, e uma parte disso se deveu à dificuldade e pouco lucro de uma procriação dentro do plantel que levaria tempo e custo para os donos destes terem retorno de seus trabalhos, à maior vulnerabilidade de mulheres em período fértil e crianças durante o transporte em navios negreiros para o destino final do trabalho escravo que, muitas vezes causava altos índices de morte em relação aos escravos do sexo masculino adulto, dentre outros fatores que levariam um senhor de escravos a preferir os homens às mulheres escravas.
Quanto ao interesse da nossa pesquisa, isso só viria a contribuir para a diminuição da expectativa de identificar núcleos familiares em meio aos plantéis da vila de São João del Rei porque, a partir do momento em que encontrarmos muitos plantéis com escravos na maioria do sexo masculino, normalmente iremos nos deparar com um menor índice de famílias nestes plantéis justamente por desigualdade entre escravos do sexo masculino e feminino.
Mary C. Karasch nos fala da origem da população escrava onde relata que, além do continente africano, os escravos que estavam no Brasil vinham de diversas regiões como América do Norte (em poucos casos), Caribe e também de outras distantes partes do país. Em nossa pesquisa faremos um levantamento das procedências dos escravos da vila pesquisada, mas sempre esclarecendo que nem todos os escravos arrolados nos inventários continham a sua origem, dificultando deste modo uma melhor exatidão dos
dados coletados. Para concretizarmos nosso trabalho nos baseamos em nossas pesquisas em fontes primárias (inventários post mortem) e colhemos a cada ano da década estudada (1801/10) os dados de cinco inventários que contivessem listagem de escravos entre os bens do inventariado totalizando um número de 50 inventários em toda a primeira década do século XIX. Estes documentos estão disponíveis no arquivo do Museu Regional de São João del Rei. Para acréscimo dos nossos conhecimentos e para que esta pesquisa se tornasse viável, nos respaldamos em textos de variados autores que pesquisaram e escreveram sobre a família escrava. Entre estes estão Robert Slenes, Sheila de Castro Faria, Hebe Mattos, entre muitos outros, entre os quais falaremos sobre alguns no capítulo seguinte. A distribuição do trabalho será de forma simples, pois será composto por dois capítulos. No capítulo primeiro, será trabalhada a questão da discussão sobre a família escrava no Brasil colônia e serão explanados os pontos de vista de historiadores que representam o estudo da micro-história. O segundo capítulo será feito a partir da amostra dos resultados das pesquisas nas fontes primárias e de questionamentos sobre estes dados, uma vez que um pesquisador, por mais comprometido que seja com seu trabalho, deva apenas levantar questionamentos para possíveis discussões e nunca tirar conclusões absolutas sobre seus resultados. Isto porque o historiador lida com o ser humano e suas ações, sendo deste modo impossível esgotar todas as possibilidades que poderiam nos levar aos motivos que uma sociedade agiu ou age de uma determinada maneira e de mais difícil acesso ainda é o motivo que levou determinada pessoa a agir de determinada maneira dentro de uma dada sociedade. Por isso concluímos que teremos os resultados das pesquisas, mas teremos que sempre questionar toda hipótese que um dado nos proporciona e nunca nos deixarmos levar por conclusões absolutas que tendem a não interpretar o homem em seu ambiente social.
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