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Livros e Bibliotecas/Diversos artigos . Por Sérgio Farnese

Conheça o Anuário Musical de São João del-Rei por Sérgio Farnese
Sérgio Farnese é escritor, professor de filosofia e autor do livro Noturno para Tiradentes

Biblioteca pede socorro!
Sérgio Farnese

Mas que males atormentam a mais antiga biblioteca pública de Minas Gerais? Espíritos do passado ausente, tivessem voz e ouvidos, por certo acorreriam, como o reverendo Walsh, um inglês que aqui fez uma visita em 1828 e manteve contato com Batista Caetano de Almeida, que hoje dá  nome à Biblioteca Municipal Baptista Caetano d`Ameida. Ele o descreveu como um homem moço e de espírito ativo que teria trazido para São João a primeira impressora instalada em Minas e fundado o jornal Astro de Minas, cujo editor era um padre mulato, o bibliotecário que dominava o francês.
Walsh nos conta também que a biblioteca fazia parte de um projeto apresentado ao governo da época por uma Sociedade Politécnica que se pretendia estabelecer na cidade, através de um ginásio literário, uma espécie de fórum de debates e de um gabinete de estudos com a tarefa de extrair das publicações literárias estrangeiras as descobertas feitas na Europa e reduzi-las a uma linguagem acessível à população. Como não houve resposta, pareceu-lhe que nem a sociedade nem a biblioteca seriam incentivadas.
O reverendo inglês, que veio ao Brasil fazer a pastoral dos operários anglicanos das minas de São José, ficou também impressionado pelo número de publicações em francês, como a Encyclopedie, obras de Rosseau, Voltaire e Raynel. Surpreso mesmo ficou ao encontrar numa cidade tão remota O Paraíso Perdido, de Milton, A Riqueza das Nações, de Adam Smith, além de exemplares do Times e do Chronicle, entre os demais jornais de todo o Brasil. Considerou que daquela  Sociedade Politécnica, idealizada pelo ouvidor, fariam parte todas as pessoas importantes e inteligentes da região. Testemunhava que a cidade de São João del-Rei era com justiça considerada, depois de São Paulo, a mais liberal e ativa, intelectualmente, de todo o Brasil, descrevendo seus habitantes, de modo geral, como muito inteligentes. A pedra de toque foi a Biblioteca Municipal, situada numa sala da antiga Câmara, hoje Prefeitura, onde esteve até os anos 1960.
Na sucessão desses homens que estavam ali para o inglês ver, a abnegada bibliotecária atual e seus heroicos auxiliares lutam contra a ação do tempo sobre o precioso acervo que desde essa época lá se encontra, honrando a resolução da UNESCO que considera as bibliotecas públicas depositárias de memória. O exemplar nº 1 do jornal Astro de Minas, o primeiro impresso nas “Geraes”, está virando pó, literalmente. Fontes primárias de inúmeros acontecimentos, a movimentação das orquestras bicentenárias, a atividade pós-inconfidência mineira, os artigos do presidente Tancredo Neves, nos anos 1930, em meio aos fungos destruidores. Os sucessores precisam de todo apoio, de toda ajuda, que ainda será pouca.

Fonte: Gazeta de São João del-Rei . 30/06/2012

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Tiradentes perde Biblioteca do Ó
Sérgio Farnese

Ou terá sido Minas Gerais quem perdeu? Ou o Brasil? Ou o mundo? E, no entanto, ninguém se move. Duas décadas de biblioteca se esfumam em 20 segundos, tempo de último suspiro que antecede a morte. O acervo do fundador, Yves Alves, é chutado para a rua de dentro de sua própria casa. Coisa sombria permitida pelo direito civil e bárbaro das sociedades capitalistas.
Mas que herança queria Yves Alves deixar ao abrir uma biblioteca no Largo do Ó, centro histórico de Tiradentes, há 17 anos atrás? Pérolas aos porcos? É certo não ter sido ele nenhum anjo do Senhor, mas, não precisava ser tratado como um cachorro morto, expressão que Marx usou para definir o modo que os filósofos alemães posteriores trataram as ideias de Hegel no século XIX.
Biblioteca é um templo singular. Abriga a tensão entre saber e não saber. Aguarda silente, como quem espera um filho, visitas especiais, um Einstein, um Freud, um Marx, quiçá um Mozart, dos tempos que agora correm, que podem nunca aparecer. Pensador para exilar, compositor para atirar em cova rasa, Tiradentes já enforcou o seu. A cidade merece, fez por merecer a perda de sua biblioteca, é o que dá vontade de dizer, mas o castigado é o Einstein, o Mozart que poderia aparecer, ou não (só que, se aparece, a humanidade sente a diferença).A biblioteca insiste em seu plantão, disposta, disponível, aberta em contraponto aos bares barulhentos, bocas de fumo e outras chateações que aturdem os jovens inquietos. Invenção de Aristóteles, na Grécia Antiga, que guardava em casa livros de papiro e pedra, estranha mania para seus contemporâneos. Alexandre, o Grande, aluno de Aristóteles, ergueu em Alexandria uma das maiores bibliotecas até hoje já existentes, mais de quinhentos mil papiros, tabuinhas e litos de uma ou duas cópias raras, por meio da qual se preservaram das trevas medievais, em terra egípcia, vale dizer, africana, os escritos aristotélicos que, redescobertos, incendiariam as revoluções científicas da modernidade. Que diferença! Quem sabe ainda é hora de Tiradentes legislar, em urgência emergencial, a utilidade pública do prédio e tombá-lo, dando tempo para uma mobilização financeira, para um projeto incentivado que permita adquiri-lo dos herdeiros de Yves Alves. A sensação de insensatez, no ar úmido desses dias chuvosos de fim de ano, traz à tona um balanço que faz parecer por demais estúpido tudo o que se faz por aqui, vão o que se inventa, tolice o que se tenta, os eventos culturais, as hospedarias, a culinária, tudo quimera, futilidade frívola ante a pedra de toque da biblioteca fechada sem que alguém diga pelo menos Ó, ou oh!
A biblioteca é antes de tudo o espaço, o local, a sala que espera, A do só será do 0, no Largo do 0, onde nasceu. O acervo pode ser refeito, mas a biblioteca não. Pública e independente do Estado, uma das poucas em seu estilo, no Brasil e no mundo, exemplo para turista copiar, ela que abre aos sábados e domingos, ela que funciona à noite, ela que apoia o renascente congado local, que cede o verde de seu jardim para a resistência ecológica dos orquidófilos, para a musicalidade festiva aos orixás, sempre aberta quando as bibliotecas municipais e escolares estão fechadas, disponível na folga de quem trabalha e estuda, no coração da cidade. Se for, ela não volta. Tiradentes entregou fácil, sem dor, nem parto. Um César, um Hitler da hora, um Getúlio da vez, não terão o que fechar, o que queimar. Foi tudo facilitado. Tudo muito soft, light, high tech. Os fantasmas não falam. O futuro não grita.

Fonte: Gazeta de SJDR, 17 de Dezembro de 2011

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Mil crianças, mil livros
Sérgio Farnese

Outubro é um mês curioso: mês dos mais velhos, mês dos mais novos, seres que muito importam no meio de nós, misturando poesia e fragilidade, firmeza e gratuidade, retorno às origens de ser, a caminho da plenitude de viver. Por mais banalizadas que se tomem, as repetições datadas ano cumprem o papel de nos alertarem sobre a hora de cuidar, de olhar, de ser presente. Dia do Idoso, Dia da Criança... ruim com eles, pior sem eles.
Velhinho maltratado, petiz torturado, é a lei do cão, a lei do homem, ser que erra sobre a Terra, o mais que pode, que não seguiu o conselho musical do Eduardo Dusek, "troque seu cachorro por uma criança pobre." A negação disso que está aí', a reiteração de alguma rebeldia dos antepassados em busca de um melhor porvir, reflete-se o brilho do olhar de uma infância intocada, com supervisão generosa da sabedoria senil, colocando em nosso caminho, no lugar de uma pedra, um livro.
E é com essa disposição que uma pequena livraria de Tiradentes repete a dose de uma campanha do ano passado que contemplou com um livro cada criança da cidade, utilizando como veículos as escolas municipais urbanas e rurais, distribuindo de presente, com o apoio de seus clientes, amigos, editoras e prefeitura, um total de 1200 publicações com histórias diferentes, escolhidas uma a uma pela criançada. Só ficaram de fora 30 entre as menores de 12 anos: as crianças invisíveis, três milhões no Brasil, sem escola, ao léo, ao Deus dará, às quais é impossível entregar um livro, gatos pardos no crepúsculo dos dias que correm. Mas naquela Nínive do turismo brasileiro, houve casas em que cinco irmãos empunhavam cinco livros, houve ruas em que 55 crianças empunhavam 55 livros, bairros onde 155 crianças compartilhavam 155 livros, diferentes armas contra a ignorância. Casas, ruas e bairros tomados da noite para o dia bibliotecas, fio de luz no caminho das trevas.
A criança empenha uma relação curiosa com o livro, objeto bonito, com cheiro de novo, sensível ao tato, ao paladar e, dali, alça um voo no campo da imaginação, da fantasia, da poesia. Entra em relação com gente genial... Guimarães Rosa, Drummond, Clarice Lispector, Jorge Amado, Cecília Meireles, Chico Buarque, Ronaldo Guimarães e tantos outros escritores de literatura adulta que não deixaram na mão seus netinhos, dedicando-lhes mais de uma obra ilustrada. Quantas (e não foram poucas) foram as crianças arrancadas aos gritos e soluços da pequena livraria tiradentina, agarradas aos livrinhos a elas dedicados, retiradas a força por pais apressados  e pão-duros, conhecidos entre nós como “topeiras turísticas”.
A hora é essa! Se quiser ajudar, o email é livraria@bol.com.br. Depois vêm os vídeo-games, os celulares, pagers e outras drogas sedutoras. Agora cabe o livro, e se for de boa monta, será para sempre eterno companheiro a emular com a ignorância pela vida afora, amigo fiel nesses tempos de adultos ocupados e estressados mas, quem sabe, vovôs e vovós pra contar histórias que o vento levou. Não se sabe no que isso vai dar. A livraria sonha alto, quiçá um dia, mil crianças, mil bibliotecas! Por enquanto, mil sorrisos, mil alegrias, gota de orvalho numa folha de roça, numa pedra de rua, nesse mundo de meu deus.

Fonte: Gazeta de SJDR, 8 de Outubro de 2011

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Uma criança, um livro!
Sérgio Farnese 

Uma livraria de Tiradentes lançou um desafio curioso à população daquela cidade e da vizinha São João dei-Rei: presentear com um livro todas as suas crianças, no seu dia, 12 de outubro. Isso significa inundar a infância da região com mais de dezenove mil livros, mil em Tiradentes e dezoito mil em São João. Isso significa prestar atenção a esses pequenos seres de até 12 anos.
Uma questão que se coloca, à primeira vista, é se há consistência nesse número abstrato, calculado a partir das taxas de crescimento demográfico nacionais. As crianças, que por ali goijeiam, quantas
serão? 16.874, 17.495, 18.846? Esse número existe, ele está nos registros de nascimento dos cartórios locais desde o ano de 1998, subtraidos os atestados de óbito emitidos para esses nascituros do wannnsuaawarwn final dos anos 90 e da virada do milênio. como vivem? Estão assistidas, protegidas, abrigadas com a prioridade que lhes garantem os 18 artigos de sua declaração internacional de direitos? Como vai, por ali, a pediatria? Estarão nas escolas, como manda a lei? Há Irabalho infantil, proibido por lei? E a violência, doméstica, social, escolar, proibidas por lei, a quantas andam? Serão algumas delas, como na India, objetos de hediondo consumo sexual, em meio ao intenso turismo que agita a Estrada Real? Serão vitimas indefesas dos mais próximos que, sob o vínculo tutelar, pervertem os mais belos anos de nossa vida? São muitas, muitas mesmo, as questões que se seguem à ingênua atitude de entregar na mão de uma criança um singelo book.
E os custos dessa brincadeira? A partir de dez mil exemplares, o custo de qualquer livro tende ao preço do quilo de papel utilizado, ou seja, dois dólares. Basta imaginar que uma editora normalmente imprime três mil exemplares e com isso cobre os custos de direitos autorais, impressão, administrativos, impostos e remuneração do capital. Imaginemos então se ela ampliar determinada edição de livro infantil, dos três mil tradicionais para 18 mil, cem mil, ou um milhão: grosso modo, só serão adicionados custos de papel e de tinta, num total de nada mais que dois dólares, preços da China, país onde muitos livros brasileiros vêm sendo impressos com alta qualidade. Mas por aqui mesmo não é dificil encontrar, entre as nossas três mil editoras, algumas dispostas a desovar encalhes para constituir um precioso mix de autores consagrados, pelo preço médio de 2 dólares, cerca de R$3,50, aliás o preço pago pelo governo quando adquire delas milhões de exemplares de títulos comercializados no varejo por dez vezes mais. Ou seja, fazer a festa das crianças, com literatura de primeira, não é caro. Essas duas iniciativas de experimentação desse piloto de dia da criança literário podem vir a ser modelo para outras cidades do país, custariam apenas trinta e oito mil dólares, sendo que, só em Tiradentes (a Nínive do turismo brasileiro), nada mais, nada menos que três mil e quinhentos reais. Mas quem se habilita? Quem ousa praticar esse contraponto à prática dos que colocam, nesse instante, armas em mãos de crianças de favelas paulistas, dos pixotes das quebradas cariocas, das minas de diamante africanas? A pequena livraria de Tiradentes deu seu exemplo e desafiou o espírito nobre das pessoas e das empresas dos Campos das Vertentes das Minas Gerais, oferecendo outro livro para cada livro presenteado, ou seja, ela banca sozinha metade da festa. Que livraria ousada! 

Fonte: Gazeta de São João del-Rei . 18/09/2010

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O livro nosso de cada dia

Sérgio Farnese

Nossa querida São João del Rei ostenta a primeira biblioteca pública de nossa Estado, cuidada por Batista Caetano, que também estava a frente de um de nossos dois jornais diários em pleno século XIX. Pouco depois da invenção do cinematógrafo, os irmãos Faleiro inauguravam no Teatro Municipal um de seus dois cinemas. Por que será que aqui não vinga uma livraria?
Por falta de leitores é que não é. Guimarães Rosa, Fernando Sabino, Oto Lara Resende, Hélio Peregrino, quando adolescentes, encontraram aqui, provavelmente, seus leitores originais, entre os frades professores do Colégio Santo Antonio. Ali, também, com certeza, travaram contato fulminante com os clássicos da literatura grega e latina. Por que será que não vingou até agora um projeto de livraria?
Por falta de iniciativas, é que não é. Já as tivemos na Avenida Tiradentes, na Avenida Rui Barbosa, na Faculdade D. Bosco, na Fundação Municipal, na Rua da Prata, na Estação Ferroviária, na Rua das Fábricas, em Matosinhos e temos algumas lojas de livros religiosos. Mas por que não uma livraria completa?
Livraria completa é aquela que tem um acervo de pelo menos 30 mil livros e uma capacidade de pronto atendimento a encomendas no prazo máximo de três dias. Seu conteúdo vai dos clássicos aos lançamentos, estendendo-se pelas obras completas e biografias dos autores mais relevantes, sem esquecer dos escritores locais. Abrange as obras de referência como dicionários e almanaques, oferece os livros científicos das humanas às exatas, passando pela magna filosofia, em pelo menos cinco idiomas.
Dizia, um pensador, pouco conhecido - ai dos pais que educaram seus filhos numa cidade sem livraria. Um outro pensador, mais conhecido, dizia que, ao chegar a uma cidade, perguntava quantas livrarias ela possuía, e dali fazia um juízo sobre seus habitantes. Cidade de mais de duas dezenas de milhar de diplomados em faculdades, é de se perguntar, por que não há, em São João, uma livraria.
Diferentemente das bibliotecas, as livrarias têm vida, são dinâmicas, seduzem diariamente os leitores com suas novidades, tornam-se passagem obrigatória para dar uma olhadinha no espelho da genialidade humana. Mercadoria vendida a peso de ouro, desde os primórdios, quando tabuinhas e papiros ostentavam edições únicas de autores antigos, o livro foi, ao longo dos séculos, tornando-se mais barato e acessível a multidões, embora não se saiba de um livro que haja atingido a mais de um décimo da população do globo.
Aos sanjoanenses, quando tiverem chance, resta abraçar qualquer nova tentativa de se construir em seu meio um estabelecimento livreiro, coisa cada vez mais difícil, num momento em que, nas capitais, fecham as portas, as pequenas casas de livros, em migração para os shoppings. O livro sempre foi, e sempre será, ao que parece, objeto de desejo da minoria. Mas por que então, não há, em São João, uma livraria?

Fonte: Gazeta de São João del-Rei 25/07/09

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Namorado não é burro
Sérgio Farnese

Se assim deve pensar quem ele escolheu para namorar, por que não prestigiar nele a mais nobre de suas partes, presenteando-o com um desafio, um desfiar de sonhos, um cipoal de idéias, uma tempestade de pensamentos? Que tal pinçar entre cuecas fosforescentes, jeans de marca, entre meias, entre luvas e bombons, no meio da cesta de presentes, um belo livro, destacando a inteligência como o que nele mais se valoriza? Botando um pouco de fé, ele é capaz, mesmo que não pareça! É certo, mas não é tudo, que, ou as mulheres são mesmo mais inteligentes que os homens, ou são as mais estudiosas, bastando ver o capricho de seus cadernos, a pontualidade de seus exercícios escolares ou até perguntar a qualquer professor da esquina, estando as namoradas aptas, portanto, a entregar a maçã da árvore da sabedoria, tão cara à filosofia, ao Adão de plantão.
Por que não dar uma colher de chá a seus amores masculinos com um empurrãozinho para longe do diskcerveja, da motociclo, da galoucura, em direção ao saber universal? Uma colherzinha não faz mal a ninguém. Pode começar com um romance, um livro de poemas. Ao contrário do que muitos pensam, os jovens são hoje leitores exemplares, consumindo como nunca a literatura para eles voltada, como provam os números espetaculares da série Crepúsculo e Harry Potter, atingindo quase meio bilhão de leitores, faltando, é justo que se diga, boa dose de competência aos escritores, profissionais do presente, para produzir literatura mais abundante que dialogue com o imaginário dessa moçada. Aos que torcem o nariz, um pouco mais de cautela se aconselha, pois na cena que abre o filme Lua Nova, o segundo da saga Crepúsculo, a jovem atriz abandona na cama o livro Romeu e Julieta, atirando nos braços da literatura universal milhões de espectadores que correram ávidos às livrarias, realizando o salto de Stephenie Meyer a William Shakespeare. Mas se muita coisa escrita interessa aos jovens, falta aos editores e livreiros a argúcia de descobrir o quê. Livros de aventuras, com suas proezas cibernéticas, suas façanhas digitais, seus efeitos especiais e trilhas sonoras fazem dos adolescentes de hoje freqüentadores contumazes dos cinemas e das livrarias dos shoppings mais próximos, provando que, digam e digam o contrário, nunca se vendeu tanto ingresso de cinema, tanto livro, como nos dias que correm. Haja celulose, haja celulóide.
Segue seu curso a juventude, surpreendendo o ceticismo do público adulto envilecido pela rudeza dos humanos. Segue seu curso a juventude, trazendo esperança de novos rumos às mal traçadas linhas do destino, tomando aos poucos as rédeas da história, incorporando novos rumos a nossa esperança, trazendo leveza, trazendo seu descaso às mesquinharias vigentes, juntando rebeldia à generosidade dos mais velhos, reunindo sacrifícios e impulsos de heroísmo ao desprendimento dos mais idosos, atando ao horizonte infinito as raízes apodrecidas pelo passado, banhando com sangue novo as vertentes dos antigos, a ponto de vermos mudado o que parece absoluto, a ponto de virar de cabeça para baixo as negações de então, novas teses, novas antíteses, inesperadas sínteses plenas de futuro, de inéditos inauditos, páginas novas no livro inacabado da história onde, ao crepúsculo, sentar-se-ão as pessoas de boa vontade para uma leitura serena dos tempos que se foram, dos tempos que se vão, livro novo em sintonia fina, canal aberto de sobrevivência da felicidade que atravessou os séculos dos séculos.Realmente, um presente.

Fonte: Gazeta de São João del-Rei . 05/06/2010

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Cidade sem cinema
Sérgio Farnese

“Tiradentes nunca teve, não tem, e nunca terá um cinema! Essa projeção causa espanto a milhares de cinéfilos que a cidade acolhe”

Tiradentes nunca teve, não tem, e nunca terá um cinema! Essa projeção causa espanto a milhares de cinéfilos que a cidade acolhe sob as intensas chuvas de janeiro, numa infraestrutura descartável completa e cara, à prova dos temporais e minuanos que castigam o público do lado de fora. Em 13 prestações, algo permanente já poderia ter sido feito, e não é, e não será, ao que parece. Ao contrário dos moradores das vizinhas Barbacena e São João del-Rei, que contam há séculos com vários cinemas, os tiradentinos estão fora da fita, por assim dizer. Qual o preço que pagam por isso? Basta percorrer algumas ruas da cidade e ver dezenas de jovens bêbados ao longo da 13ª. Mostra, dando a mínima para o que corre nas telas, preferindo encher a cara. Afogados por uma avalanche celulóide, preferem a ressaca das outras 51 semanas do ano, entregando-se à carnavalização do evento.
Mas nem de longe podemos criticar esses jovens, ainda frágeis projeções do amanhã, como folículos de bambu que vão e voltam aonde o vento for, como podemos criticar os engessados mais velhos que os envolvem nesses lucrativos projetos de massa. Nesse aspecto, as cidades barrocas de Minas poderiam rever esse seu comportamento de cidades de aluguel, sendo tratadas como tratam, os marinheiros, as gentis donzelas do cais do porto. Se por um lado seu povo entra em contato com o resto do mundo, vendo-se obrigado a questionar seu provincianismo, a se modernizar, a respirar novos ares e tempos, como os que moram nas cidades portuárias, Rio, Santos, Recife e Salvador, a brevidade insana dessas tempestades gastro-moto-culturais se assemelha aos tornados que ausentam boas lembranças, se lhes for sonegada uma contrapartida. Voltando ao cinema, sétima arte que deixa em cento e dez anos de atraso 99% dos municípios brasileiros, há ou não diferença entre morar numa cidade que tem, e numa que não tem? Comentando a própria clausura artística, uma freira universitária dizia, após uma sessão da peça Entre Quatro Paredes, do filósofo Jean Paul Sartre, haver tentado e não conseguir entender a linguagem das películas. Vítimas do raciocínio fragmentário, do impressionismo do quadro a quadro, os excluídos do cinema parecem ter um parafuso a menos nessa já atrasada cachola do ser humano, incapaz de usar mais de 5% do que o cérebro pode oferecer.
E pior será se o cinema for a filosofia levada às massas, como dizia o pensador alemão dos anos 30, Walter Benjamin, enquanto na revolução de 1917, o russo Leon Trotsky preconizava a abertura de cinemas ao lado das igrejas, ao invés de persegui-las, coisa que as igrejas inverteram. Curiosamente, o Presidente Lula, em entrevista ao Pasquim, nos anos 70, atribuía sua admirável desenvoltura e cultura geral às idas quase diárias aos cinemas de S. Bernardo do Campo. Se for assim, viver em jejum cinematográfico é uma fria para quem nele está, cidade sem cinema é quase igual a cidade sem escola ou sem livraria. Voltando a Tiradentes, um alerta a possíveis patrocinadores, lá tem um espaço de exibição montado, mofando, com uma máquina 35mm enferrujando, no Centro Cultural. E tem um festival de cinema. Uma população sem cinema.

Fonte: Gazeta de São João del-Rei . 06/02/2010


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